sábado, 15 de setembro de 2018

CAMÕES, CANTO 9

Canto Nono                                                          
  
 
1 - 
Tiveram longamente na cidade, 
Sem vender-se, a fazenda os dois feitores 
Que os infiéis, por manha e falsidade, 
Fazem que não lha comprem mercadores; 
Que todo seu propósito e vontade 
Era deter ali os descobridores 
Da Índia tanto tempo, que viessem 
De Meca as naus, que as suas desfizessem. 
  

2 -
Lá no seio Eritreu, onde fundada 
Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu, 
Do nome da irmã sua assim chamada, 
Que depois em Suez se converteu, 
Não longe o porto jaz da nomeada 
Cidade Meca, que se engrandeceu 
Com a superstição falsa e profana 
Da religiosa água Maumetana. 
  

3 - 
Gidá se chama o porto, aonde o trato 
De todo o Roxo mar mais florescia, 
De que tinha proveito grande e grato 
O Soldão que esse Reino possuía. 
Daqui aos Malabares, por contrato 
Dos infiéis, formosa companhia 
De grandes naus, pelo Índico Oceano, 
Especiaria vem buscar cada ano. 
  

4 - 
Por estas naus os Mouros esperavam, 
Que, como fossem grandes e possantes, 
Aquelas, que o comércio lhe tomavam, 
Com flamas abrasassem crepitantes. 
Neste socorro tanto confiavam, 
Que já não querem mais dos navegantes, 
Senão que tanto tempo ali tardassem, 
Que da famosa Meca as naus chegassem. 
  

5 - 
Mas o Governador dos céus e gentes, 
Que, para quanto tem determinado, 
De longe os meios dá convenientes, 
Por onde vem a ef eito o fim fadado, 
Influiu piedosos acidentes 
De afeição em Monçaide, que guardado 
Estava para dar ao Gama aviso, 
E merecer por isso o Paraíso. 
  

6 -
Este, de quem se os Mouros não guardavam, 
Por ser Mouro como eles, antes era 
Participante em quanto maquinavam, 
A tenção lhe descobre torpe e fera. 
Muitas vezes as naus que longe estavam 
Visita, o com piedade considera 
O dano, sem razão, que se lhe ordena 
Pela maligna gente Sarracena. 
  


Informa o cauto Gama das armadas 
Que de Arábica Meca vêm cada ano, 
Que agora são dos seus tão desejadas, 
Para ser instrumento deste dano. 
Diz-lhe que vêm de gente carregadas, 
E dos trovões horrendos de Vulcano, 
E que pode ser delas oprimido, 
Segundo estava mal apercebido. 
  

8 -
O Gama, que também considerava 
O tempo, que para a partida o chama, 
E que despacho já não esperava 
Melhor do Rei, que os Maumetanos ama, 
Aos feitores, que em terra estão, mandava 
Que se tornem às naus; e por que a fama 
Desta súbita vinda os não impeça, 
Lhe manda que a fizessem escondida. 
  

9 - 
Porém não tardou muito que, voando, 
Um rumor não soasse com verdade: 
Que foram presos os feitores, quando 
Foram sentidos vir-se da cidade. 
Esta fama as orelhas penetrando 
Do sábio Capitão, com brevidade 
Faz represaria nuns, que às naus vieram 
A vender a pedraria que trouxeram. 
  

10 -
Eram estes antigos mercadores 
Ricos em Calecu, e conhecidos; 
Da falta deles, logo entre os melhores 
Sentido foi que estão no mar retidos. 
Mas já nas naus os bons trabalhadores 
Volvem o cabrestante, e repartidos 
Pelo trabalho, uns puxam pela amarra, 
Outros quebram com o peito duro a barra; 
  

11 - 
Outros pendem da verga, e já desatam 
A vela, que com grita se soltava, 
Quando com maior grita ao Rei relatam 
A pressa com que a armada se levava. 
As mulheres e filhos que se matam 
Daqueles que vão presos, onde estava 
O Samorim, se queixam que perdidos 
Uns têm os pais, as outras os maridos. 
  

12 -
Manda logo os feitores Lusitanos 
Com toda sua fazenda livremente 
Apesar dos inimigos Maumetanos, 
Por que lhe torne a sua presa gente. 
Desculpas manda o Rei de seus enganos; 
Recebe o Capitão de melhor mente 
Os presos que as desculpas, e tornando 
Alguns negros, se parte as velas dando. 
  

13 - 
Parte-se costa abaixo, porque entende 
Que em vão com o Rei gentio trabalhava 
Em querer dele paz, a qual pretende 
Por firmar o comércio que tratava. 
Mas como aquela terra, que se estende 
Pela Aurora, sabida já deixava, 
Com estas novas torna à pátria cara, 
Certos sinais levando do que achara. 
  

14 - 
Leva alguns Malabares, que tomou 
Por força, dos que o Samorim mandara 
Quando os presos feitores lhe tornou; 
Leva pimenta ardente, que comprara; 
A seca flor de Banda não ficou, 
A noz, e o negro cravo, que faz clara 
A nova ilha Maluco, com a canela, 
Com que Ceilão é rica, ilustre e bela. 
  

15 - 
Isto tudo lhe houvera a diligência 
De Monçaide fiel, que também leva, 
Que, inspirado de angélica influência, 
Quer no livro de Cristo que se escreva. 
Ó ditoso Africano, que a clemência 
Divina assim tirou de escura treva, 
E tão longe da pátria achou maneira 
Para subir à pátria verdadeira! 
  

16 
Apartadas assim da ardente costa 
As venturosas naus, levando a proa 
Para onde a Natureza tinha posta 
A meta Austrina da esperança boa, 
Levando alegres novas e resposta 
Da parte Oriental para Lisboa, 
Outra vez cometendo os duros medos 
Do mar incerto, tímidos e ledos; 
  

17 -
O prazer de chegar à pátria cara, 
A seus penates caros e parentes, 
Para contar a peregrina e rara 
Navegação, os vários céus e gentes; 
Vir a lograr o prêmio, que ganhara 
Por tão longos trabalhos e acidentes, 
Cada um tem por gosto tão perfeito, 
Que o coração para ele é vaso estreito. 
  

18 -
Porém a deusa Cípria, que ordenada 
Era para favor dos Lusitanos 
Do Padre eterno, e por bom gênio dada, 
Que sempre os guia já de longos anos; 
A glória por trabalhos alcançada, 
Satisfação de bem sofridos danos, 
Lhe andava já ordenando, e pretendia 
Dar-lhe nos mares tristes alegria. 
  

19 
Depois de ter um pouco revolvido 
Na mente o largo mar que navegaram, 
Os trabalhos, que pelo Deus nascido 
Nas Anfióneas Tebas se causaram; 
Já trazia de longe no sentido, 
Para prêmio de quanto mal passaram, 
Buscar-lhe algum deleite, algum descanso 
No Reino de cristal líquido e manso; 
  

20 
Algum repouso, enfim, com que pudesse 
Refocilar a lassa humanidade 
Dos navegantes seus, como interesse 
Do trabalho que encurta a breve idade. 
Parece-lhe razão que conta desse 
A seu filho, por cuja potestade 
Os Deuses faz descer ao vil terreno 
E os humanos subir ao céu sereno. 
  

21 -
Isto bem revolvido, determina 
De ter-lhe aparelhada, lá no meio 
Das águas, alguma ínsula divina, 
Ornada de esmaltado e verde arreio; 
Que muitas tem no reino, que confina 
Da mãe primeira com o terreno seio, 
Afora as que possui soberanas 
Para dentro das portas Herculanas. 
  

22 
Ali quer que as aquáticas donzelas 
Esperem os fortíssimos barões, 
Todas as que têm título de belas, 
Glória dos olhos, dor dos corações, 
Com danças e coreias, porque nelas 
Influirá secretas afeições, 
Para com mais vontade trabalharem 
De contentar, a quem se afeiçoaram. 
  

23 - 
Tal manha buscou já, para que aquele 
Que de Anquises pariu, bem recebido 
Fosse no campo que a bovina pele 
Tomou de espaço, por subtil partido. 
Seu filho vai buscar, porque só nele 
Tem todo seu poder, fero Cupido, 
Que assim como naquela empresa antiga 
Ajudou já, nestoutra a ajude e siga. 
  

24 - 
No carro ajunta as aves que na vida 
Vão da morte as exéquias celebrando, 
E aquelas em que já foi convertida 
Perístera, as boninas apanhando. 
Em derredor da Deusa já partida, 
No ar lascivos beijos se vão dando. 
Ela, por onde passa, o ar e o vento 
Sereno faz, com brando movimento. 
  

25 -
Já sobre os Idálios montes pende, 
Onde o filho frecheiro estava então 
Ajuntando outros muitos, que pretende 
Fazer uma famosa expedição 
Contra o mundo rebelde, por que emende 
Erros grandes, que há dias nele estão, 
Amando coisas que nos foram dadas, 
Não para ser amadas, mas usadas. 
  

26 - 
Via Acteon na caça tão austero, 
De cego na alegria bruta, insana, 
Que por seguir um feio animal fero, 
Foge da gente e bela forma humana; 
E por castigo quer, doce e severo, 
Mostrar-lhe a formosura de Diana; 
E guarde-se não seja ainda comido 
Desses cães que agora ama, e consumido. 
  

27 -
E vê do mundo todo os principais, 
Que nenhum no bem público imagina; 
Vê neles que não têm amor a mais 
Que a si somente, e a quem Filáucia ensina. 
Vê que esses que freqüentam os reais 
Paços, por verdadeira e sã doutrina 
Vendem adulação, que mal consente 
Mondar-se o novo trigo florescente. 
  

28 
Vê que aqueles que devem à pobreza 
Amor divino e ao povo caridade, 
Amam somente mandos e riqueza, 
Simulando justiça e integridade. 
Da feia tirania e de aspereza 
Fazem direito e vã severidade: 
Leis em favor do Rei se estabelecem, 
As em favor do povo só perecem. 
  

29 
Vê, enfim, que ninguém ama o que deve, 
Senão o que somente mal deseja; 
Não quer que tanto tempo se releve 
O castigo, que duro e justo seja. 
Seus ministros ajunta, por que leve 
Exércitos conformes à peleja, 
Que espera ter com a mal regida gente, 
Que lhe não for agora obediente. 
  

30 -
Muitos destes meninos voadores 
Estão em várias obras trabalhando: 
Uns amolando ferros passadores, 
Outros ásteas de setas delgaçando; 
Trabalhando, cantando estão de amores, 
Vários casos em verso modulando, 
Melodia sonora e concertada, 
Suave a letra, angélica a soada. 
  

31 
Nas frágoas imortais, onde forjavam 
Para as setas as pontas penetrantes, 
Por lenha corações ardendo estavam, 
Vivas entranhas ainda palpitantes. 
As águas onde os ferros temperavam, 
Lágrimas são de míseros amantes; 
A viva f lama, o nunca morto lume, 
Desejo é só que queima, e não consume. 
  

32 
Alguns exercitando a mão andavam 
Nos duros corações da plebe rude; 
Crebros suspiros pelo ir soavam 
Dos que feridos vão da seta aguda. 
Formosas Ninfas são as que curavam 
As chagas recebidas cuja ajuda 
Não somente dá vida aos mal feridos, 
Mas põe em vida os ainda não nascidos. 
 
33 
Formosas são algumas e outras feias, 
Segundo a qualidade for das chagas; 
Que o veneno espalhado pelas veias 
Curam-no às vezes ásperas triagas. 
Alguns ficam ligados em cadeias, 
Por palavras subtis de sábias magas: 
Isto acontece às vezes, quando as setas 
Acertam de levar ervas secretas. 
  

34 -
Destes tiros assim desordenados, 
Que estes moços mal destros vão tirando, 
Nascem amores mil desconcertados 
Entre o povo ferido miserando; 
E tamboril nos heróis de altos estados 
Exemplos mil se vêem de amor nefando, 
Qual o das moças Bíbli e Cinireia, 
Um mancebo de Assíria, um de Judeia. 
  

35 
E vós, ó poderosos, por pastoras 
Muitas vezes ferido o peito vedes; 
E por baixos e rudos, vós, senhoras, 
Também vos tomam nas Vulcâneas redes. 
Uns esperando andais noturnas horas, 
Outros subis telhados e paredes: 
Mas eu creio que deste amor indino 
É mais culpa a da mãe que a do menino. 
  

36 - 
Mas já no verde prado o carro leve 
Punham os brancos cisnes mansamente, 
E Dione, que as rosas entro a neve 
No rosto traz, descia diligente. 
O frecheiro, que contra o céu se atreve, 
A recebê-la vem, ledo e contente; 
Vêm todos os Cupidos servidores 
Beijar a mão à Deusa dos amores. 
  

37 - 
Ela, por que não gaste o tempo em vão, 
Nos braços tendo o filho, confiada 
Lhe diz: "Amado filho, em cuja mão 
Toda minha potência está fundada; 
Filho, em quem minhas forças sempre estão; 
Tu, que as armas Tifeias tens em nada, 
A socorrer-me a tua potestade 
Me triz especial necessidade. 
  

38 
"Bem vês as Lusitânicas fadigas, 
Que eu já de muito longe favoreço, 
Porque das Parcas sei, minhas amigas, 
Que me hão de venerar e ter em preço. 
E, porque tanto imitam as antigas 
Obras de meus Romanos, me ofereço 
A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso, 
A quanto se estender o poder nosso. 
  

39 
"E porque das insídias do odioso 
Baco foram na Índia molestados, 
E das injúrias sós do mar undoso 
Puderam mais ser mortos que cansados, 
No mesmo mar, que sempre temeroso 
Lhe foi, quero que sejam repousados, 
Tomando aquele prêmio e doce glória 
Do trabalho, que faz clara a memória. 
  

40 
"E para isso queria que, feridas 
As filhas de Nereu, no ponto fundo, 
De amor dos Lusitanos incendidas, 
Que vêm de descobrir o novo mundo, 
Todas numa ilha juntas e subidas, 
Ilha, que nas entranhas do profundo 
Oceano terei aparelhada, 
De dons de Flora e Zéfiro adornada; 
  

41 
"Ali, com mil refrescos e manjares, 
Com vinhos odoríferos e rosas, 
Em cristalinos paços singulares 
Formosos leitos, e elas mais formosas; 
Enfim, com mil deleites não vulgares, 
Os esperem as Ninfas amorosas, 
De amor feridas, para lhes entregarem 
Quanto delas os olhos cobiçarem. 
  

42 
"Quero que haja no reino Netunino, 
Onde eu nasci, progênie forte e bela, 
E tome exemplo o mundo vil, malino, 
Que contra tua potência se rebela, 
Por que entendam que muro adamantino, 
Nem triste hipocrisia val contra ela: 
Mal haverá na terra quem se guarde, 
Se teu fogo imortal nas águas arde." 
  

43 -
Assim Vênus propôs, e o filho inieo, 
Para lhe obedecer, já se apercebe: 
Manda trazer o arco ebúrneo rico, 
Onde as setas de ponta de ouro embebe. 
Com gesto ledo a Cípria, e impudico, 
Dentro no carro o filho seu recebe; 
A rédea larga às aves, cujo canto 
A Factôntea morte chorou tanto. 
  

44 - 
Mas diz Cupido, que era necessária 
Uma famosa e célebre terceira, 
Que, posto que mil vezes lhe é contrária, 
Outras muitas a tem por companheira: 
A Deusa Giganteia, temerária, 
Jactante, mentirosa, e verdadeira, 
Que com cem olhos vê, e por onde voa, 
O que vê, com mil bocas apregoa. 
  

45 
Vão-a buscar, e mandam adiante, 
Que celebrando vá com tuba clara 
Os louvores da gente navegante, 
Mais do que nunca os d'outrem celebrara. 
Já murmurando a Fama penetrante 
Pelas fundas cavernas se espalhara: 
Fala verdade, havida por verdade, 
Que junto a Deusa traz Credulidade. 
  

46 
O louvor grande, o rumor excelente 
No coração dos Deuses, que indignados 
Foram por Baco contra a ilustre gente, 
Mudando, os fez um pouco afeiçoados. 
O peito feminil, que levemente 
Muda quaisquer propósitos tomados, 
Já julga por mau zelo e por crueza 
Desejar mal a tanta fortaleza. 
  

47 - 
Despede nisto o fero moço as setas 
Uma após outra: geme o mar com os tiros; 
Direitas pelas ondas inquietas 
Algumas vão, e algumas fazem giros; 
Caem as Ninfas, lançam das secretas 
Entranhas ardentíssimos suspiros; 
Cai qualquer, sem ver o vulto que ama: 
Que tanto, como a vista, pode a fama. 
  

48 - 
Os cornos ajuntou da ebúrnea lua 
Com força o moço indômito excessiva, 
Que Tethys quer ferir mais que nenhuma, 
Porque mais que nenhuma lhe era esquiva. 
Já não fica na aljava seta alguma, 
Nem nos equóreos campos Ninfa viva; 
E se feridas ainda estão vivendo, 
Será para sentir que vão morrendo. 
  

49 
Dai lugar, altas e cerúleas ondas, 
Que, vedes, Vênus traz a medicina, 
Mostrando as brancas velas e redondas, 
Que vêm por cima da água Netunina. 
Para que tu recíproco respondas, 
Ardente Amor, à flama feminina, 
É, forçado que a pudicícia honesta 
Faça quanto lhe Vênus amoesta. 
  

50 - 
Já todo o belo coro se aparelha 
Das Nereidas, e junto caminhava 
Em coreias gentis, usança velha, 
Para a ilha, a que Vênus as guiava. 
Ali a formosa Deusa lhe aconselha 
O que ela fez mil vezes, quando amava. 
Elas, que vão do doce amor vencidas, 
Estão a seu conselho oferecidas. 
  

51 - 
Cortando vão as naus a larga via 
Do mar ingente para a pátria amada, 
Desejando prover-se de água fria, 
Para a grande viagem prolongada, 
Quando juntas, com súbita alegria, 
Houveram vista da ilha namorada, 
Rompendo pelo céu a mãe formosa 
De Menónio, suave e deleitosa. 
  

52 - 
De longe a Ilha viram fresca e bela, 
Que Vênus pelas ondas lha levava 
(Bem como o vento leva branca vela) 
Para onde a forte armada se enxergava; 
Que, por que não passassem, sem que nela 
Tomassem porto, como desejava, 
Para onde as naus navegam a movia 
A Acidália, que tudo enfim podia. 
  

53 - 
Mas firme a fez e imóvel, como viu 
Que era dos Nautas vista e demandada; 
Qual ficou Delos, tanto que pariu 
Latona Febo e a Deusa à caça usada. 
Para lá logo a proa o mar abriu, 
Onde a costa fazia uma enseada 
Curva e quieta, cuja branca areia, 
Pintou de ruivas conchas Citereia. 
  

54 -
Três formosos outeiros se mostravam 
Erguidos com soberba graciosa, 
Que de gramíneo esmalte se adornavam.. 
Na formosa ilha alegre e deleitosa; 
Claras fontes o límpidas manavam 
Do cume, que a verdura tem viçosa; 
Por entre pedras alvas se deriva 
A sonorosa Ninfa fugitiva. 
  

55 - 
Num vale ameno, que os outeiros fende, 
Vinham as claras águas ajuntar-se, 
Onde uma mesa fazem, que se estende 
Tão bela quanto pode imaginar-se; 
Arvoredo gentil sobre ela pende, 
Como que pronto está para afeitar-se, 
Vendo-se no cristal resplandecente, 
Que em si o está pintando propriamente. 
  

56 - 
Mil árvores estão ao céu subindo, 
Com pomos odoríferos e belos: 
A laranjeira tem no fruto lindo 
A cor que tinha Dafne nos cabelos; 
Encosta-se no chão, que está caindo, 
A cidreira com os pesos amarelos; 
Os formosos limões ali, cheirando, 
Estão virgíneas tetas imitando. 
  

57 - 
As árvores agrestes que os outeiros 
Têm com frondente coma enobrecidos, 
Alemos são de Alcides, e os loureiros 
Do louro Deus amados e queridos; 
Mirtos de Citereia, com os pinheiros 
De Cibele, por outro amor vencidos; 
Está apontando o agudo cipariso 
Para onde é posto o etéreo paraíso. 
  

58 -
Os dons que dá Pomona, ali Natura 
Produz diferentes nos sabores, 
Sem ter necessidade de cultura, 
Que sem ela se dão muito melhores: 
As cerejas purpúreas na pintura, 
As amoras, que o nome têm de amores, 
O pomo que da pátria Pérsia veio, 
Melhor tornado no terreno alheio. 
  

59 
Abre a romã, mostrando a rubicunda 
Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes; 
Entre os braços do ulmeiro está a jocunda 
Vide, com uns cachos roxos e outros verdes; 
E vós, se na vossa árvore fecunda, 
Peras piramidais, viver quiserdes, 
Entregai-vos ao dano, que, com os bicos, 
Em vós fazem os pássaros inicos. 
  

60 -
Pois a tapeçaria bela e fina, 
Com que se cobre o rústico terreno, 
Faz ser a de Aquemênia menos diria, 
Mas o sombrio vale mais ameno. 
Ali a cabeça a flor Cifísia inclina 
Sôbolo tanque lúcido e sereno; 
Floresce o filho e neto de Ciniras, 
Por quem tu, Deusa Páfia, inda suspiras. 
  

61 -  
Para julgar, difícil coisa fora, 
No céu vendo e na terra as mesmas cores, 
Se dava às flores cor a bela Aurora, 
Ou se lha dão a ela as belas flores. 
Pintando estava ali Zéfiro e Flora 
As violas da cor dos amadores; 
O lírio roxo, a fresca rosa bela, 
Qual reluz nas faces da donzela; 
  

62 -  
A cândida cecém, das matutinas 
Lágrimas rociada, e a manjarona. 
Vêem-se as letras nas flores Hiacintinas, 
Tão queridas do filho de Latona. 
Bem se enxerga nos pomos e boninas 
Que competia Cloris com Pomona. 
Pois se as aves no ar cantando voam, 
Alegres animais o chão povoam. 
  

63 - 
Ao longo da água o níveo cisne canta, 
Responde-lhe do ramo filomela; 
Da sombra de seus cornos não se espanta 
Acteon, n'água cristalina e bela; 
Aqui a fugace lebre se levanta 
Da espessa mata, ou tímida gazela; 
Ali no bico traz ao caro ninho 
O mantimento o leve passarinho. 
  

64 - 
Nesta frescura tal desembarcavam 
Já das naus os segundos Argonautas, 
Onde pela floresta se deixavam 
Andar as belas Deusas, como incautas. 
Algumas doces cítaras tocavam, 
Algumas harpas e sonoras flautas, 
Outras com os arcos de ouro se fingiam 
Seguir os animais, que não seguiam. 
  

65 -
Assim lhe aconselhara a mestra experta; 
Que andassem pelos campos espalhadas; 
Que, vista dos barões a presa incerta, 
Se fizessem primeiro desejadas. 
Algumas, que na forma descoberta 
Do belo corpo estavam confiadas, 
Posta a artificiosa formosura, 
Nuas lavar-se deixam na água pura, 
66 - 
Mas os fortes mancebos, que na praia 
Punham os pés, de terra cobiçosos, 
Que não há nenhum deles que não saia 
De acharem caça agreste desejosos, 
Não cuidam que, sem laço ou redes, caia 
Caça naqueles montes deleitosos, 
Tão suave, doméstica e benigna, 
Qual ferida lha tinha já Ericina. 
  

67 -  
Alguns, que em espingardas e nas bestas, 
Para ferir os cervos se fiavam, 
Pelos sombrios matos e florestas 
Determinadamente se lançavam: 
Outros, nas sombras, que de as altas sestas 
Defendem a verdura, passeavam 
Ao longo da água que, suave e queda, 
Por alvas pedras corre à praia leda. 
  

68 - 
Começam de enxergar subitamente 
Por entre verdes ramos várias cores, 
Cores de quem a vista julga e sente 
Que não eram das rosas ou das flores, 
Mas da lã fina e seda diferente, 
Que mais incita a força dos amores, 
De que se vestem as humanas rosas, 
Fazendo-se por arte mais formosas. 
  

69 - 
Dá Veloso espantado um grande grito: 
"Senhores, caça estranha, disse, é esta! 
Se ainda dura o Gentio antigo rito, 
A Deusas é sagrada esta floresta. 
Mais descobrimos do que humano espírito 
Desejou nunca; e bem se manifesta 
Que são grandes as coisas e excelentes, 
Que o mundo encobre aos homens imprudentes. 
  

70 -
"Sigamos estas Deusas, e vejamos 
Se fantásticas são, se verdadeiras." 
Isto dito, velozes mais que gamos, 
Se lançam a correr pelas ribeiras. 
Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos, 
Mas, mais industriosas que ligeiras, 
Pouco e pouco sorrindo e gritos dando, 
Se deixam ir dos galgos alcançando. 
  

71 -
De uma os cabelos de ouro o vento leva 
Correndo, e de outra as fraldas delicadas; 
Acende-se o desejo, que se ceva 
Nas alvas carnes súbito mostradas; 
Uma de indústria cai, e já releva, 
Com mostras mais macias que indignadas, 
Que sobre ela, empecendo, também caia 
Quem a seguiu pela arenosa praia. 
  

72 -
Outros, por outra parte, vão topar 
Com as Deusas despidas, que se lavam: 
Elas começam súbito a gritar, 
Como que assalto tal não esperavam. 
Umas, fingindo menos estimar 
A vergonha que a força, se lançavam 
Nuas por entre o mato, aos olhos dando 
O que às mãos cobiçosas vão negando. 
  

73 -  
Outra, como acudindo mais depressa 
A vergonha da Deusa caçadora, 
Esconde o corpo n'água; outra se apressa 
Por tomar os vestidos, que tem fora. 
Tal dos mancebos há, que se arremessa, 
Vestido assim e calçado (que, coa mora 
De se despir, há medo que ainda tarde) 
A matar na água o fogo que nele arde. 
  

74 -  
Qual cão de caçador, sagaz e ardido, 
Usado a tomar na água a ave ferida, 
Vendo no rosto o férreo cano erguido 
Para a garcenha ou pata conhecida, 
Antes que soe o estouro, mal sofrido 
Salta n'água, e da presa não duvida, 
Nadando vai e latindo: assim o mancebo 
Remete à que não era irmã de Febo. 
  

75 - 
Leonardo, soldado bem disposto, 
Manhoso, cavaleiro e namorado, 
A quem amor não dera um só desgosto, 
Mas sempre fora dele maltratado, 
E tinha já por firme pressuposto 
Ser com amores mal afortunado, 
Porém não que perdesse a esperança 
De ainda poder seu fado ter mudança, 
  

76 - 
Quis aqui sua ventura, que corria 
Após Efire, exemplo de beleza, 
Que mais caro que as outras dar queria 
O que deu para dar-se a natureza. 
Já cansado correndo lhe dizia: 
"Ó formosura indigna de aspereza, 
Pois desta vida te concedo a palma, 
Espera um corpo de quem levas a alma. 
  

77 - 
"Todas de correr cansam, Ninfa pura, 
Rendendo-se à vontade do inimigo, 
Tu só de mi só foges na espessura? 
Quem te disse que eu era o que te sigo? 
Se to tem dito já aquela ventura, 
Que em toda a parte sempre anda comigo, 
Ó não na creias, porque eu, quando a cria, 
Mil vezes cada hora me mentia. 
  

78 -  
"Não canses, que me cansas: e se queres 
Fugir-me, por que não possa tocar-te, 
Minha ventura é tal que, ainda que esperes, 
Ela fará que não possa alcançar-te. 
Espora; quero ver, se tu quiseres, 
Que subtil modo busca de escapar-te, 
E notarás, no fim deste sucesso, 
Tra la spica e la man, qual muro è messo. 
  

79 - 
"Ó não me fujas!  Assim nunca o breve 
Tempo fuja de tua formosura! 
Que, só com refrear o passo leve, 
Vencerás da fortuna a força dura. 
Que Imperador, que exército se atreve 
A quebrantar a fúria da ventura, 
Que, em quanto desejei, me vai seguindo, 
O que tu só farás não me fugindo! 
  

80 -  
"Pões-te da parte da desdita minha? 
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. 
Levas-me um coração, que livre tinha? 
Solta-me, e correrás mais levemente. 
Não te carrega essa alma tão mesquinha, 
Que nesses fios de ouro reluzente 
Atada levas?  Ou, depois de presa, 
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa? 
  

81 -  
"Nesta esperança só te vou seguindo: 
Que, ou tu não sofrerás o peso dela, 
Ou na virtude de teu gesto lindo 
Lhe mudarás a triste e dura estrela: 
E se se lhe mudar, não vás fugindo, 
Que Amor te ferirá, gentil donzela, 
E tu me esperarás, se Amor te fere: 
E se me esperas, não há mais que espere." 
  

82 - 
Já não fugia a bela Ninfa, tanto 
Por se dar cara ao triste que a seguia, 
Como por ir ouvindo o doce canto, 
As namoradas mágoas que dizia. 
Volvendo o rosto já sereno e santo, 
Toda banhada em riso e alegria, 
Cair se deixa aos pés do vencedor, 
Que todo se desfaz em puro amor. 
  

83 -
Ó que famintos beijos na floresta, 
E que mimoso choro que soava! 
Que afagos tão suaves, que ira honesta, 
Que em risinhos alegres se tornava! 
O que mais passam na manhã, e na sesta, 
Que Vênus com prazeres inflamava, 
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, 
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo. 
  
  

84 - 
Desta arte enfim conformes já as formosas 
Ninfas com os seus amados navegantes, 
Os ornam de capelas deleitosas 
De louro, e de ouro, e flores abundantes. 
As mãos alvas lhes davam como esposas; 
Com palavras formais e estipulantes 
Se prometem eterna companhia 
Em vida e morte, de honra e alegria. 
  

85 -  
Uma delas maior, a quem se humilha 
Todo o coro das Ninfas, e obedece, 
Que dizem ser de Celo e Vesta filha, 
O que no gesto belo se parece, 
Enchendo a terra e o mar de maravilha, 
O Capitão ilustre, que o merece, 
Recebe ali com pompa honesta e régia, 
Mostrando-se senhora grande e egrégia. 
  

86 - 
Que, depois de lhe ter dito quem era, 
Com um alto exórdio, de alta graça ornado, 
Dando-lhe a entender que ali viera 
Por alta influição do imóvel fado, 
Para lhe descobrir da unida esfera 
Da terra imensa, e mar não navegado, 
Os segredos, por alta profecia, 
O que esta sua nação só merecia, 
  

87 -  
Tomando-o pela mão, o leva e guia 
Para o cume dum monte alto e divino, 
No qual uma rica fábrica se erguia 
De cristal toda, e de ouro puro e fino. 
A maior parte aqui passam do dia 
Em doces jogos e em prazer contino: 
Ela nos paços logra seus amores, 
As outras pelas sombras entre as flores. 
  

88 -  
Assim a formosa e a forte companhia 
O dia quase todo estão passando, 
Numa alma, doce, incógnita alegria, 
Os trabalhos tão longos compensando. 
Porque dos feitos grandes, da ousadia 
Forte e famosa, o mundo está guardando 
O prêmio lá no fim, bem merecido, 
Com fama grande e nome alto e subido. 
  

89 - 
Que as Ninfas do Oceano tão formosas, 
Tethys, e a ilha angélica pintada, 
Outra coisa não é que as deleitosas 
Honras que a vida fazem sublimada. 
Aquelas proeminências gloriosas, 
Os triunfos, a fronte coroada 
De palma e louro, a glória e maravilha: 
Estes são os deleites desta ilha. 
  

90 - 
Que as imortalidades que fingia 
A antigüidade, que os ilustres ama, 
Lá no estelante Olimpo, a quem subia 
Sobre as asas ínclitas da Fama, 
Por obras valorosas que fazia, 
Pelo trabalho imenso que se chama 
Caminho da virtude alto e fragoso, 
Mas no fim doce, alegre e deleitoso: 
  

91 - 
Não eram senão prêmios que reparte 
Por feitos imortais e soberanos 
O mundo com os varões, que esforço e arte 
Divinos os fizeram, sendo humanos. 
Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte, 
Eneias e Quirino, e os dois Tebanos, 
Ceres, Palas e Juno, com Diana, 
Todos foram de fraca carne humana. 
  

92 -
Mas a Fama, trombeta de obras tais, 
Lhe deu no mundo nomes tão estranhos 
De Deuses, Semideuses imortais, 
Indígetes, Heróicos e de Magnos. 
Por isso, ó vós que as famas estimais, 
Se quiserdes no mundo ser tamanhos, 
Despertai já do sono do ócio ignavo, 
Que o ânimo de livre faz escravo. 
  

93 -  
E ponde na cobiça um freio duro, 
E na ambição também, que indignamente 
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro 
Vício da tirania infame e urgente; 
Porque essas honras vãs, esse ouro puro 
Verdadeiro valor não dão à gente: 
Melhor é, merecê-los sem os ter, 
Que possuí-los sem os merecer. 
  

94 -  
Ou dai na paz as leis iguais, constantes, 
Que aos grandes não dêem o dos pequenos; 
Ou vos vesti nas armas rutilantes, 
Contra a lei dos inimigos Sarracenos: 
Fareis os Reinos grandes e possantes, 
E todos tereis mais, o nenhum menos; 
Possuireis riquezas merecidas, 
Com as honras, que ilustram tanto as vidas. 
  

95 -  
E fareis claro o Rei, que tanto amais, 
Agora com os conselhos bem cuidados, 
Agora com as espadas, que imortais 
Vos farão, como os vossos já passados; 
Impossibilidades não façais, 
Que quem quis sempre pôde; e numerados 
Sereis entre os Heróis esclarecidos, 
E nesta Ilha de Vênus recebidos. 
  
  

CAMÕES, CANTO 10

Canto Décimo
                                                         
1  
Mas já o claro amador da Larisséia 
Adúltera inclinava os animais 
Lá pera o grande lago que rodeia 
Temistitão, nos fins Ocidentais; 
O grande ardor do Sol Favónio enfreia 
Co sopro que nos tanques naturais 
Encrespa a água serena e despertava 
Os lírios e jasmins, que a calma agrava,  

2 - 
Quando as fermosas Ninfas, cos amantes 
Pela mão, já conformes e contentes, 
Subiam pera os paços radiantes 
E de metais ornados reluzentes, 
Mandados da Rainha, que abundantes 
Mesas d’altos manjares excelentes 
Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza 
Restaurem da cansada natureza.  

3 - 
Ali, em cadeiras ricas, cristalinas, 
Se assentam dous e dous, amante e dama; 
Noutras, à cabeceira, d’ouro finas, 
Está co a bela Deusa o claro Gama. 
De iguarias suaves e divinas, 
A quem não chega a Egípcia antiga fama , 
Se acumulam os pratos de fulvo ouro, 
Trazidos lá do Atlântico tesouro.  

4  
Os vinhos odoríferos, que acima 
Estão não só do Itálico Falerno 
Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima 
Com todo o ajuntamento sempiterno, 
Nos vasos, onde em vão trabalha a lima, 
Crespas escumas erguem, que no interno 
Coração movem súbita alegria, 
Saltando co a mistura d’água fria.  

5  
Mil práticas alegres se tocavam; 
Risos doces, sutis e argutos ditos, 
Que entre um e outro manjar se ale vantavam, 
Despertando os alegres apetitos; 
Músicos instrumentos não faltavam 
(Quais, no profundo Reino, os nus espritos 
Fizeram descansar da eterna pena) 
Cüa voz düa angélica Sirena.  

6 -
Cantava a bela Ninfa, e cos acentos, 
Que pelos altos paços vão soando, 
Em consonância igual, os instumentos 
Suaves vêm a um tempo conformando. 
Um súbito silêncio enfreia os ventos 
E faz ir docemente murmurando 
As águas, e nas casas naturais 
Adormecer os brutos animais.  

7  
Com doce voz está subindo ao Céu 
Altos varões que estão por vir ao mundo, 
Cujas claras Ideias viu Proteu 
Num globo vão, diáfano, rotundo, 
Que Júpiter em dom lho concedeu 
Em sonhos, e despois no Reino fundo, 
Vaticinando, o disse, e na memória 
Recolheu logo a Ninfa a clara história.  

8 -
  

Matéria é de coturno, e não de soco, 
A que a Ninfa aprendeu no imenso lago; 
Qual Iopas não soube, ou Demodoco, 
Entre os Feaces um, outro em Cartago. 
Aqui, minha Calíope, te invoco 
Neste trabalho extremo, por que em pago 
Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo, 
O gosto de escrever, que vou perdendo.  

9 -
Vão os anos descendo, e já do Estio 
Há pouco que passar até o Outono; 
A Fortuna me faz o engenho frio, 
Do qual já não me jacto nem me abono; 
Os desgostos me vão levando ao rio 
Do negro esquecimento e eterno sono. 
Mas tu me dá que cumpra, ó grão rainha 
Das Musas, co que quero à nação minha!  

10 -
Cantava a bela Deusa que viriam 
Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira, 
Armadas que as ribeiras venceriam 
Por onde o Oceano Índico suspira; 
E que os Gentios Reis que não dariam 
A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira 
Provariam do braço duro e forte, 
Até render-se a ele ou logo à morte.  

11 -
Cantava dum que tem nos Malabares 
Do sumo sacerdócio a dignidade, 
Que, só por não quebrar cos singulares 
Barões os nós que dera d’amizade, 
Sofrerá suas cidades e lugares, 
Com ferro, incêndios, ira e crueldade, 
Ver destruir do Samorim potente, 
Que tais ódios terá co a nova gente.  

12 - 
E canta como lá se embarcaria 
Em Belém o remédio deste dano, 
Sem saber o que em si ao mar traria, 
O grão Pacheco, Aquiles Lusitano. 
O peso sentirão, quando entraria, 
O curvo lenho e o férvido Oceano, 
Quando mais n’água os troncos que gemerem 
Contra sua natureza se meterem.  

13  
Mas, já chegado aos fins Orientais 
E deixado em ajuda do gentio Rei de 
Cochim, com poucos naturais, 
Nos braços do salgado e curvo rio 
Desbaratará os Naires infernais 
No passo Cambalão, tornando frio 
D’espanto o ardor imenso do Oriente, 
Que verá tanto obrar tão pouca gente.  

14  
Chamará o Samorim mais gente nova; 
Virão Reis [de] Bipur e de Tanor, 
Das serras de Narsinga, que alta prova 
Estarão prometendo a seu senhor; 
Fará que todo o Naire, enfim, se mova 
Que entre Calecu jaz e Cananor, 
D’ambas as Leis imigas pera a guerra: 
Mouros por mar, Gentios pola terra.  

15 -
E todos outra vez desbaratando, 
Por terra e mar, o grão Pacheco ousado, 
A grande multidão que irá matando 
A todo o Malabar terá admirado. 
Cometerá outra vez, não dilatando, 
O Gentio os combates, apressado, 
Injuriando os seus, fazendo votos 
Em vão aos Deuses vãos, surdos e imotos.  

16  
Já não defenderá somente os passos, 
Mas queimar-lhe-á lugares, templos, casas; 
Aceso de ira, o Cão, não vendo lassos 
Aqueles que as cidades fazem rasas, 
Fará que os seus, de vida pouco escassos, 
Cometam o Pacheco, que tem asas, 
Por dous passos num tempo; mas voando 
Dum noutro, tudo irá desbaratando.  

17  
Virá ali o Samorim, por que em pessoa 
Veja a batalha e os seus esforce e anime; 
Mas um tiro, que com zunido voa, 
De sangue o tingirá no andor sublime. 
Já não verá remédio ou manha boa 
Nem força que o Pacheco muito estime; 
Inventará traições e vãos venenos, 
Mas sempre (o Céu querendo) fará menos.  

18 -
Que tornará a vez sétima (cantava) 
Pelejar co invicto e forte Luso, 
A quem nenhum trabalho pesa e agrava; 
Mas, contudo, este só o fará confuso. 
Trará pera a batalha, horrenda e brava, 
Máquinas de madeiros fora de uso, 
Pera lhe abalroar as caravelas, 
Que até’li vão lhe fora cometê-las.  

19  
Pela água levará serras de fogo 
Pera abrasar-lhe quanta armada tenha; 
Mas a militar arte e engenho logo 
Fará ser vã a braveza com que venha. 
- «Nenhum claro barão no Márcio jogo, 
Que nas asas da Fama se sustenha, 
Chega a este, que a palma a todos toma. 
E perdoe-me a ilustre Grécia ou Roma.  

20  
«Porque tantas batalhas, sustentadas 
Com muito pouco mais de cem soldados, 
Com tantas manhas e artes inventadas, 
Tantos Cães não imbeles profligados, 
Ou parecerão fábulas sonhadas, 
Ou que os celestes Coros, invocados, 
Decerão a ajudá-lo e lhe darão 
Esforço, força, ardil e coração.  

21 - 
«Aquele que nos campos Maratónios 
O grão poder de Dário estrui e rende, 
Ou quem, com quatro mil Lacedemónios, 
O passo de Termópilas defende, 
Nem o mancebo Cocles dos Ausónios, 
Que com todo o poder Tusco contende 
Em defensa da ponte, ou Quinto Fábio, 
Foi como este na guerra forte e sábio.»  

22 -
Mas neste passo a Ninfa, o som canoro 
Abaxando, fez ronco e entristecido, 
Cantando em baxa voz, envolta em choro, 
O grande esforço mal agardecido. 
- «Ó Belisário (disse) que no coro 
Das Musas serás sempre engrandecido, 
Se em ti viste abatido o bravo Marte, 
Aqui tens com quem podes consolar-te!  

23  
«Aqui tens companheiro, assi nos feitos 
Como no galardão injusto e duro; 
Em ti e nele veremos altos peitos 
A baxo estado vir, humilde e escuro. 
Morrer nos hospitais, em pobres leitos, 
Os que ao Rei e à Lei servem de muro! 
Isto fazem os Reis cuja vontade 
Manda mais que a justiça e que a verdade.  

24 -
«Isto fazem os Reis quando embebidos 
Nüa aparência branda que os contenta 
Dão os prémios, de Aiace merecidos, 
À língua vã de Ulisses, fraudulenta. 
Mas vingo-me: que os bens mal repartidos 
Por quem só doces sombras apresenta, 
Se não os dão a sábios cavaleiros, 
Dão-os logo a avarentos lisonjeiros.  

25 -
«Mas tu, de quem ficou tão mal pagado 
Um tal vassalo, ó Rei, só nisto inico, 
Se não és pera dar-lhe honroso estado, 
É ele pera dar-te um Reino rico. 
Enquanto for o mundo rodeado 
Dos Apolíneos raios, eu te fico 
Que ele seja entre a gente ilustre e claro, 
E tu nisto culpado por avaro.  

26 -
«Mas eis outro (cantava) intitulado 
Vem com nome real e traz consigo 
O filho, que no mar será ilustrado, 
Tanto como qualquer Romano antigo. 
Ambos darão com braço forte, armado, 
A Quíloa fértil, áspero castigo, 
Fazendo nela Rei leal e humano, 
Deitado fora o pérfido tirano.  

27  
«Também farão Mombaça, que se arreia 
De casas sumptuosas e edifícios, 
Co ferro e fogo seu queimada e feia, 
Em pago dos passados malefícios. 
Despois, na costa da Índia, andando cheia 
De lenhos inimigos e artifícios 
Contra os Lusos, com velas e com remos 
O mancebo Lourenço fará extremos.  

28  
«Das grandes naus do Samorim potente, 
Que encherão todo o mar, co a férrea pela, 
Que sai com trovão do cobre ardente, 
Fará pedaços leme, masto, vela. 
Despois, lançando arpéus ousadamente 
Na capitaina imiga, dentro nela 
Saltando o fará só com lança e espada 
De quatrocentos Mouros despejada.  

29 -
«Mas de Deus a escondida providência 
(Que ela só sabe o bem de que se serve) 
O porá onde esforço nem prudência 
Poderá haver que a vida lhe reserve. 
Em Chaúl, onde em sangue e resistência 
O mar todo com fogo e ferro ferve, 
Lhe farão que com vida se não saia 
As armadas de Egipto e de Cambaia.  

30 - 
«Ali o poder de muitos inimigos 
(Que o grande esforço só com força rende), 
Os ventos que faltaram, e os perigos 
Do mar, que sobejaram, tudo o ofende. 
Aqui ressurjam todos os Antigos, 
A ver o nobre ardor que aqui se aprende: 
Outro Ceva verão, que, espedaçado, 
Não sabe ser rendido nem domado.  

31  
«Com toda üa coxa fora, que em pedaços 
Lhe leva um cego tiro que passara, 
Se serve inda dos animosos braços 
E do grão coração que lhe ficara. 
Até que outro pelouro quebra os laços 
Com que co alma o corpo se liara: 
Ela, solta, voou da prisão fora 
Onde súbito se acha vencedora.  

32 -
«Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta, 
Na qual tu mereceste paz serena! 
Que o corpo, que em pedaços se apresenta, 
Quem o gerou, vingança já lhe ordena: 
Que eu ouço retumbar a grão tormenta, 
Que vem já dar a dura e eterna pena, 
De esperas, basiliscos e trabucos, 
A Cambaicos cruéis e Mamelucos.  

33  
«Eis vem o pai, com ânimo estupendo, 
Trazendo fúria e mágoa por antolhos, 
Com que o paterno amor lhe está movendo 
Fogo no coração, água nos olhos. 
A nobre ira lhe vinha prometendo 
Que o sangue fará dar pelos giolhos 
Nas inimigas naus; senti-lo-á o Nilo, 
Podê-lo-á o Indo ver e o Gange ouvi-lo.  

34 -
«Qual o touro cioso, que se ensaia 
Pera a crua peleja, os cornos tenta 
No tronco dum carvalho ou alta faia 
E, o ar ferindo, as forças experimenta: 
Tal, antes que no seio de Cambaia 
Entre Francisco irado, na opulenta 
Cidade de Dabul a espada afia, 
Abaxando-lhe a túmida ousadia.  

35  
«E logo, entrando fero na enseada 
De Dio, ilustre em cercos e batalhas, 
Fará espalhar a fraca e grande armada 
De Calecu, que remos tem por malhas. 
A de Melique Iaz, acautelada, 
Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas, 
Fará ir ver o frio e fundo assento, 
Secreto leito do húmido elemento.  

36 -
«Mas a de Mir Hocém, que, abalroando, 
A fúria esperará dos vingadores, 
Verá braços e pernas ir nadando 
Sem corpos, pelo mar, de seus senhores. 
Raios de fogo irão representando, 
No cego ardor, os bravos domadores. 
Quanto ali sentirão olhos e ouvidos 
É fumo, ferro, flamas e alaridos.  

37 -
«Mas ah, que desta próspera vitória, 
Com que despois virá ao pátrio Tejo, 
Quási lhe roubará a famosa glória 
Um sucesso, que triste e negro vejo! 
O Cabo Tormentório, que a memória 
Cos ossos guardará, não terá pejo 
De tirar deste mundo aquele esprito, 
Que não tiraram toda a Índia e Egipto.  

38  
«Ali, Cafres selvagens poderão 
O que destros imigos não puderam; 
E rudos paus tostados sós farão 
O que arcos e pelouros não fizeram. 
Ocultos os juízos de Deus são; 
As gentes vãs, que não nos entenderam, 
Chamam-lhe fado mau, fortuna escura, 
Sendo só providência de Deus pura.  

39 -
«Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto 
(Dizia a Ninfa, e a voz alevantava) 
Lá no mar de Melinde, em sangue tinto 
Das cidades de Lamo, de Oja e Brava, 
Pelo Cunha também, que nunca extinto 
Será seu nome em todo o mar que lava 
As ilhas do Austro, e praias que se chamam 
De São Lourenço, e em todo o Sul se afamam! 

40 -
«Esta luz é do fogo e das luzentes 
Armas com que Albuquerque irá amansando 
De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes, 
Que refusam o jugo honroso e brando. 
Ali verão as setas estridentes 
Reciprocar-se, a ponta no ar virando 
Contra quem as tirou; que Deus peleja 
Por quem estende a fé da Madre Igreja.  

41 -
«Ali do sal os montes não defendem 
De corrupção os corpos no combate, 
Que mortos pela praia e mar se estendem 
De Gerum, de Mazcate e Calaiate; 
Até que à força só de braço aprendem 
A abaxar a cerviz, onde se lhe ate 
Obrigação de dar o reino inico 
Das perlas de Barém tributo rico.  

42 -
«Que gloriosas palmas tecer vejo 
Com que Vitória a fronte lhe coroa, 
Quando, sem sombra vã de medo ou pejo, 
Toma a ilha ilustríssima de Goa! 
Despois, obedecendo ao duro ensejo, 
A deixa, e ocasião espera boa 
Com que a torne a tomar, que esforço e arte 
Vencerão a Fortuna e o próprio Marte.  

43 
«Eis já sobr’ela torna e vai rompendo 
Por muros, fogo, lanças e pelouros, 
Abrindo com a espada o espesso e horrendo 
Esquadrão de Gentios e de Mouros. 
Irão soldados ínclitos fazendo 
Mais que liões famélicos e touros, 
Na luz que sempre celebrada e dina 
Será da Egípcia Santa Caterina.  

44 - 
«Nem tu menos fugir poderás deste, 
Posto que rica e posto que assentada 
Lá no grémio da Aurora, onde naceste, 
Opulenta Malaca nomeada. 
As setas venenosas que fizeste, 
Os crises com que já te vejo armada, 
Malaios namorados, Jaus valentes, 
Todos farás ao Luso obedientes.»  

45 -
Mais estanças cantara esta Sirena 
Em louvor do ilustríssimo Albuquerque, 
Mas alembrou-lhe üa ira que o condena, 
Posto que a fama sua o mundo cerque. 
O grande Capitão, que o fado ordena 
Que com trabalhos glória eterna merque, 
Mais há-de ser um brando companheiro 
Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.  

46 
Mas em tempo que fomes e asperezas, 
Doenças, frechas e trovões ardentes, 
A sazão e o lugar, fazem cruezas 
Nos soldados a tudo obedientes, 
Parece de selváticas brutezas, 
De peitos inumanos e insolentes, 
Dar extremo suplício pela culpa 
Que a fraca humanidade e Amor desculpa.  

47 
Não será a culpa abominoso incesto 
Nem violento estupro em virgem pura, 
Nem menos adultério desonesto, 
Mas cüa escrava vil, lasciva e escura. 
Se o peito, ou de cioso, ou de modesto, 
Ou de usado a crueza fera e dura, 
Cos seus üa ira insana não refreia, 
Põe na fama alva noda negra e feia.  

48 -
Viu Alexandre Apeles namorado 
Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente, 
Não sendo seu soldado exprimentado, 
Nem vendo-se num cerco duro e urgente. 
Sentiu Ciro que andava já abrasado 
Araspas, de Panteia, em fogo ardente, 
Que ele tomara em guarda, e prometia 
Que nenhum mau desejo o venceria;  

49 
Mas, vendo o ilustre Persa que vencido 
Fora de Amor, que, enfim, não tem defensa, 
Levemente o perdoa, e foi servido 
Dele num caso grande, em recompensa. 
Per força, de Judita foi marido 
O férreo Balduíno; mas dispensa 
Carlos, pai dela, posto em causas grandes, 
Que viva e povoador seja de Frandes.  

50 -
Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto, 
De Soares cantava, que as bandeiras 
Faria tremular e pôr espanto 
Pelas roxas Arábicas ribeiras: 
- «Medina abominábil teme tanto, 
Quanto Meca e Gidá, co as derradeiras 
Praias de Abássia; Barborá se teme 
Do mal de que o empório Zeila geme.  

51 -
«A nobre ilha também de Taprobana, 
Já pelo nome antigo tão famosa 
Quanto agora soberba e soberana 
Pela cortiça cálida, cheirosa, 
Dela dará tributo à Lusitana 
Bandeira, quando, excelsa e gloriosa, 
Vencendo se erguerá na torre erguida, 
Em Columbo, dos próprios tão temida.  

52 -
«Também Sequeira, as ondas Eritreias 
Dividindo, abrirá novo caminho 
Pera ti, grande Império, que te arreias 
De seres de Candace e Sabá ninho. 
Maçuá, com cisternas de água cheias 
Verá, e o porto Arquico, ali vizinho; 
E fará descobir remotas Ilhas, 
Que dão ao mundo novas maravilhas.  

53 -
«Virá despois Meneses, cujo ferro 
Mais na Africa, que cá, terá provado; 
Castigará de Ormuz soberba o erro, 
Com lhe fazer tributo dar dobrado. 
Também tu, Gama, em pago do desterro 
Em que estás e serás inda tornado, 
Cos títulos de Conde e d’honras nobres 
Virás mandar a terra que descobres.  

54 -
«Mas aquela fatal necessidade 
De quem ninguém se exime dos humanos, 
Ilustrado co a Régia dignidade, 
Te tirará do mundo e seus enganos. 
Outro Meneses logo, cuja idade 
É maior na prudência que nos anos, 
Governará; e fará o ditoso Henrique 
Que perpétua memória dele fique.  

55 
«Não vencerá somente os Malabares, 
Destruindo Panane com Coulete, 
Cometendo as bombardas, que, nos ares, 
Se vingam só do peito que as comete; 
Mas com virtudes, certo, singulares, 
Vence os imigos d’alma todos sete; 
De cobiça triunfa e incontinência, 
Que em tal idade é suma de excelência.  

56 - 
«Mas, despois que as Estrelas o chamarem, 
Sucederás, ó forte Mascarenhas; 
E, se injustos o mando te tomarem, 
Prometo-te que fama eterna tenhas. 
Pera teus inimigos confessarem 
Teu valor alto, o fado quer que venhas 
A mandar, mais de palmas coroado, 
Que de fortuna justa acompanhado.  

57 
«No reino de Bintão, que tantos danos 
Terá a Malaca muito tempo feitos, 
Num só dia as injúrias de mil anos 
Vingarás, co valor de ilustres peitos. 
Trabalhos e perigos inumanos, 
Abrolhos férreos mil, passos estreitos, 
Tranqueiras, baluartes, lanças, setas: 
Tudo fico que rompas e sometas.  

58 
«Mas na Índia, cobiça e ambição, 
Que claramente põem aberto o rosto 
Contra Deus e Justiça, te farão 
Vitupério nenhum, mas só desgosto. 
Quem faz injúria vil e sem razão, 
Com forças e poder em que está posto, 
Não vence; que a vitória verdadeira 
É saber ter justiça nua e inteira.  

59 - 
«Mas, contudo, não nego que Sampaio 
Será, no esforço, ilustre e assinalado, 
Mostrando-se no mar um fero raio, 
Que de inimigos mil verá coalhado. 
Em Bacanor fará cruel ensaio 
No Malabar, pera que, amedrontado, 
Despois a ser vencido dele venha 
Cutiale, com quanta armada tenha.  

60 -
«E não menos de Dio a fera frota, 
Que Chaúl temerá, de grande e ousada, 
Fará, co a vista só, perdida e rota, 
Por Heitor da Silveira e destroçada; 
Por Heitor Português, de quem se nota 
Que na costa Cambaica, sempre armada, 
Será aos Guzarates tanto dano, 
Quanto já foi aos Gregos o Troiano.  

61 -
«A Sampaio feroz sucederá 
Cunha, que longo tempo tem o leme: 
De Chale as torres altas erguerá, 
Enquanto Dio ilustre dele treme; 
O forte Baçaim se lhe dará, 
Não sem sangue, porém, que nele geme 
Melique, porque à força só de espada 
A tranqueira soberba vê tomada.  

62 -
«Trás este vem Noronha, cujo auspício 
De Dio os Rumes feros afugenta; 
Dio, que o peito e bélico exercício 
De António da Silveira bem sustenta. 
Fará em Noronha a morte o usado ofício, 
Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta 
No governo do Império, cujo zelo 
Com medo o Roxo Mar fará amarelo.  

63 -
«Das mãos do teu Estêvão vem tomar 
As rédeas um, que já será ilustrado 
No Brasil, com vencer e castigar 
O pirata Francês, ao mar usado. 
Despois, Capitão-mor do Índico mar, 
O muro de Damão, soberbo e armado, 
Escala e primeiro entra a porta aberta, 
Que fogo e frechas mil terão coberta.  

64 - 
«A este o Rei Cambaico soberbíssimo 
Fortaleza dará na rica Dio, 
Por que contra o Mogor poderosíssimo 
Lhe ajude a defender o senhorio. 
Despois irá com peito esforçadíssimo 
A tolher que não passe o Rei gentio 
De Calecu, que assi com quantos veio 
O fará retirar, de sangue cheio.  

65 
«Destruirá a cidade Repelim, 
Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida; 
E despois, junto ao Cabo Comorim, 
üa façanha faz esclarecida: 
A frota principal do Samorim, 
Que destruir o mundo não duvida, 
Vencerá co furor do ferro e fogo; 
Em si verá Beadala o Márcio jogo.  

66 -
«Tendo assi limpa a Índia dos imigos, 
Virá despois com ceptro a governá-Ia 
Sem que ache resistência nem perigos, 
Que todos tremem dele e nenhum fala. 
Só quis provar os ásperos castigos 
Baticalá, que vira já Beadala. 
De sangue e corpos mortos ficou cheia 
E de fogo e trovões desfeita e feia.  

67 - 
«Este será Martinho, que de Marte 
O nome tem co as obras derivado; 
Tanto em armas ilustre em toda parte, 
Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado. 
Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte 
Português terá sempre levantado, 
Conforme sucessor ao sucedido, 
Que um ergue Dio, outro o defende erguido.  

68 
«Persas feroces, Abassis e Rumes, 
Que trazido de Roma o nome têm, 
Vários de gestos, vários de costumes 
(Que mil nações ao cerco feras vêm), 
Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes 
Porque uns poucos a terra lhe detêm. 
Em sangue Português, juram, descridos, 
De banhar os bigodes retorcidos.  

69 -
«Basiliscos medonhos e liões, 
Trabucos feros, minas encobertas, 
Sustenta Mascarenhas cos barões 
Que tão ledos as mortes têm por certas; 
Até que, nas maiores opressões, 
Castro libertador, fazendo ofertas 
Das vidas de seus filhos, quer que fiquem 
Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.  

70 -
«Fernando, um deles, ramo da alta pranta, 
Onde o violento fogo, com ruido, 
Em pedaços os muros no ar levanta, 
Será ali arrebatado e ao Céu subido. 
Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta 
E tem o caminho húmido impedido, 
Abrindo-o, vence as ondas e os perigos, 
Os ventos e despois os inimigos.  

71 -
«Eis vem despois o pai, que as ondas corta 
Co restante da gente Lusitana, 
E com força e saber, que mais importa, 
Batalha dá felice e soberana. 
Uns, paredes subindo, escusam porta; 
Outros a abrem na fera esquadra insana. 
Feitos farão tão dinos de memória 
Que não caibam em verso ou larga história.  

72 
«Este, despois, em campo se apresenta, 
Vencedor forte e intrépido, ao possante 
Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta 
Da fera multidão quadrupedante. 
Não menos suas terras mal sustenta 
O Hidalcão, do braço triunfante 
Que castigando vai Dabul na costa; 
Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.  

73 -
«Estes e outros Barões, por várias partes, 
Dinos todos de fama e maravilha, 
Fazendo-se na terra bravos Martes, 
Virão lograr os gostos desta Ilha, 
Varrendo triunfantes estandartes 
Pelas ondas que corta a aguda quilha; 
E acharão estas Ninfas e estas mesas, 
Que glórias e honras são de árduas empresas.»  

74 
Assi cantava a Ninfa; e as outras todas, 
Com sonoroso aplauso, vozes davam, 
Com que festejam as alegres vodas 
Que com tanto prazer se celebravam. 
- «Por mais que da Fortuna andem as rodas 
(Nüa cônsona voz todas soavam), 
Não vos hão-de faltar, gente famosa, 
Honra, valor e fama gloriosa.»  

75 
Despois que a corporal necessidade 
Se satisfez do mantimento nobre, 
E na harmonia e doce suavidade 
Viram os altos feitos que descobre, 
Tétis, de graça ornada e gravidade, 
Pera que com mais alta glória dobre 
As festas deste alegre e claro dia, 
Pera o felice Gama assi dizia:  

76 - 
- «Faz-te mercê, barão, a Sapiência 
Suprema de, cos olhos corporais, 
Veres o que não pode a vã ciência 
Dos errados e míseros mortais. 
Sigue-me firme e forte, com prudência, 
Por este monte espesso, tu cos mais.» 
Assi lhe diz e o guia por um mato 
Árduo, difícil, duro a humano trato.  

77 -
Não andam muito que no erguido cume 
Se acharam, onde um campo se esmaltava 
De esmeraldas, rubis, tais que presume 
A vista que divino chão pisava. 
Aqui um globo vêm no ar, que o lume 
Claríssimo por ele penetrava, 
De modo que o seu centro está evidente, 
Como a sua superfícia, claramente.  

78 -
Qual a matéria seja não se enxerga, 
Mas enxerga-se bem que está composto 
De vários orbes, que a Divina verga 
Compôs, e um centro a todos só tem posto. 
Volvendo, ora se abaxe, agora se erga, 
Nunca s’ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto 
Por toda a parte tem; e em toda a parte 
Começa e acaba, enfim, por divina arte,  

79 - 
Uniforme, perfeito, em si sustido, 
Qual, enfim, o Arquetipo que o criou. 
Vendo o Gama este globo, comovido 
De espanto e de desejo ali ficou. 
Diz-lhe a Deusa: - «O transunto, reduzido 
Em pequeno volume, aqui te dou 
Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas 
Por onde vás e irás e o que desejas.  

80 
«Vês aqui a grande máquina do Mundo, 
Etérea e elemental, que fabricada 
Assi foi do Saber, alto e profundo, 
Que é sem princípio e meta limitada. 
Quem cerca em derredor este rotundo 
Globo e sua superfícia tão limada, 
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende, 
Que a tanto o engenho humano não se estende. 
  

81 -
«Este orbe que, primeiro, vai cercando 
Os outros mais pequenos que em si tem, 
Que está com luz tão clara radiando 
Que a vista cega e a mente vil também, 
Empíreo se nomeia, onde logrando
Puras almas estão daquele Bem 
Tamanho, que ele só se entende e alcança, 
De quem não há no mundo semelhança. 

82 -
«Aqui, só verdadeiros, gloriosos 
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano, 
Júpiter, Juno, fomos fabulosos, 
Fingidos de mortal e cego engano. 
Só pera fazer versos deleitosos 
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso 
Nestas estrelas pôs o engenho vosso. 

83 
«E também, porque a santa Providência, 
Que em Júpiter aqui se representa, 
Por espíritos mil que têm prudência 
Governa o Mundo todo que sustenta 
(Ensina-lo a profética ciência, 
Em muitos dos exemplos que apresenta); 
Os que são bons, guiando, favorecem, 
Os maus, em quanto podem, nos empecem; 

84 
«Quer logo aqui a pintura que varia 
Agora deleitando, ora ensinando, 
Dar-lhe nomes que a antiga Poesia 
A seus Deuses já dera, fabulando; 
Que os Anjos de celeste companhia 
Deuses o sacro verso está chamando, 
Nem nega que esse nome preminente 
Também aos maus se dá, mas falsamente. 

85
«Enfim que o Sumo Deus, que por segundas 
Causas obra no Mundo, tudo manda. 
E tornando a contar-te das profundas 
Obras da Mão Divina veneranda, 
Debaxo deste círculo onde as mundas 
Almas divinas gozam, que não anda, 
Outro corre, tão leve e tão ligeiro 
Que não se enxerga: é o Móbile primeiro. 

86 -
«Com este rapto e grande movimento 
Vão todos os que dentro tem no seio; 
Por obra deste, o Sol, andando a tento, 
O dia e noite faz, com curso alheio. 
Debaxo deste leve, anda outro lento, 
Tão lento e sojugado a duro freio, 
Que enquanto Febo, de luz nunca escasso, 
Duzentos cursos faz, dá ele um passo. 

87 -
«Olha estoutro debaxo, que esmaltado 
De corpos lisos anda e radiantes, 
Que também nele tem curso ordenado 
E nos seus axes correm cintilantes. 
Bem vês como se veste e faz ornado 
Co largo Cinto d, ouro, que estelantes 
Animais doze traz afigurados, 
Apousentos de Febo limitados. 

88 - 
«Olha por outras partes a pintura 
Que as Estrelas fulgentes vão fazendo: 
Olha a Carreta, atenta a Cinosura, 
Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo; 
Vê de Cassiopeia a fermosura
E do Orionte o gesto turbulento; 
Olha o Cisne morrendo que suspira, 
A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira. 

89 - 
«Debaxo deste grande Firmamento, 
Vês o céu de Saturno, Deus antigo; 
Júpiter logo faz o movimento, 
E Marte abaxo, bélico inimigo; 
O claro Olho do céu, no quarto assento,
E Vénus, que os amores traz consigo; 
Mercúrio, de eloquência soberana; 
Com três rostos, debaxo vai Diana. 

90 -
«Em todos estes orbes, diferente 
Curso verás, nuns grave e noutros leve; 
Ora fogem do Centro longamente, 
Ora da Terra estão caminho breve, 
Bem como quis o Padre omnipotente, 
Que o fogo fez e o ar, o vento e neve, 
Os quais verás que jazem mais a dentro 
E tem co Mar a Terra por seu centro. 

91 -
«Neste centro, pousada dos humanos, 
Que não somente, ousados, se contentam 
De sofrerem da terra firme os danos, 
Mas inda o mar instábil exprimentam, 
Verás as várias partes, que os insanos 
Mares dividem, onde se apousentam 
Várias nações que mandam vários Reis, 
Vários costumes seus e várias leis.  

92 - 
«Vês Europa Cristã, mais alta e clara 
Que as outras em polícia e fortaleza. 
Vês África, dos bens do mundo avara, 
Inculta e toda cheia de bruteza; 
Co Cabo que até’aqui se vos negara, 
Que assentou pera o Austro a Natureza. 
Olha essa terra toda, que se habita 
Dessa gente sem Lei, quási infinita. 

93 -
«Vê do Benomotapa o grande império, 
De selvática gente, negra e nua, 
Onde Gonçalo morte e vitupério 
Padecerá, pola Fé santa sua. 
Nace por este incógnito Hemispério 
O metal por que mais a gente sua. 
Vê que do lago donde se derrama 
O Nilo, também vindo está Cuama. 

94 -
«Olha as casas dos negros, como estão 
Sem portas, confiados, em seus ninhos, 
Na justiça real e defensão 
E na fidelidade dos vizinhos; 
Olha deles a bruta multidão, 
Qual bando espesso e negro de estorninhos, 
Combaterá em Sofala a fortaleza, Que 
defenderá Nhaia com destreza. 

95 -
«Olha lá as alagoas donde o Nilo 
Nace, que não souberam os antigos; 
Vê-lo rega, gerando o crocodilo, 
Os povos Abassis, de Crista amigos; 
Olha como sem muros (novo estilo) 
Se defendem milhor dos inimigos; 
Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama, 
Que ora dos naturais Nobá se chama.  

96 -
«Nesta remota terra um filho teu 
Nas armas contra os Turcos será claro; 
Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu; 
Mas contra o fim fatal não há reparo. 
Vê cá a costa do mar, onde te deu 
Melinde hospício gasalhoso e caro; 
O Rapto rio nota, que o romance
Da terra chama Obi; entra em Quilmance. 

97 -
«O Cabo vê já Arómata chamado, 
E agora Guardafú, dos moradores, 
Onde começa a boca do afamado 
Mar Roxo, que do fundo toma as cores; 
Este como limite está lançado 
Que divide Asia de Africa; e as milhores 
Povoações que a parte Africa tem 
Maçuá são, Arquico e Suaquém. 

98 -
«Vês o extremo Suez, que antigamente 
Dizem que foi dos Héroas a cidade 
(Outros dizem que Arsínoe), e ao presente 
Tem das frotas do Egipto a potestade. 
Olha as águas nas quais abriu patente 
Estrada o grão Mousés na antiga idade. 
Ásia começa aqui, que se apresenta 
Em terras grande, em reinos opulenta. 

99 -
«Olha o monte Sinai, que se ennobrece 
Co sepulcro de Santa Caterina; 
Olha Toro e Gidá, que lhe falece 
Água das fontes, doce e cristalina; 
Olha as portas do Estreito, que fenece 
No reino da seca Ádem, que confina 
Com a serra d’Arzira, pedra viva, 
Onde chuva dos céus se não deriva.  

100 - 
«Olha as Arábias três, que tanta terra 
Tomam, todas da gente vaga e baça, 
Donde vêm os cavalos pera a guerra, 
Ligeiros e feroces, de alta raça; 
Olha a costa que corrre, até que cera 
Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça 
O Cabo que co nome se apelida 
Da cidade Fartaque, ali sabida. 

101 
«Olha Dófar, insigne porque manda 
O mais cheiroso incenso pera as aras;
Mas atenta: já cá destoutra banda 
De Roçalgate, e praias sempre avaras, 
Começa o reino Ormuz, que todo se anda 
Pelas ribeiras que inda serão claras 
Quando as galés do Turco e fera armada 
Virem de Castelbranco nua a espada. 

102 - 
«Olha o Cabo Asaboro, que chamado 
Agora é Moçandão, dos navegantes; 
Por aqui entra o lago que é fechado 
De Arábia e Pérsias terras abundantes. 
Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado 
Tem das suas perlas ricas, e imitantes 
A cor da Aurora; e vê na água salgada 
Ter o Tígris e Eufrates üa entrada. 

103 -
«Olha da grande Pérsia o império nobre, 
Sempre posto no campo e nos cavalos, 
Que se injuria de usar fundido cobre 
E de não ter das armas sempre os calos. 
Mas vê a ilha Gerum, como descobre 
O que fazem do tempo os intervalos, 
Que da cidade Armuza, que ali esteve,
Ela o nome despois e a glória teve.  

104 -
«Aqui de Dom Filipe de Meneses
Se mostrará a virtude, em armas clara, 
Quando, com muito poucos Portugueses, 
Os muitos Párseos vencerá de Lara. 
Virão provar os golpes e reveses 
De Dom Pedro de Sousa, que provara 
Já seu braço em Ampaza, que deixada 
Terá por terra, à força só de espada. 

105 - 
«Mas deixemos o Estreito e o conhecido
Cabo de Jasque, dito já Carpela,
Com todo o seu terreno mal querido
Da Natura e dos dões usados dela;
Carmânia teve já por apelido.
Mas vês o fermoso Indo, que daquela
Altura nace, junto à qual, também
Doutra altura correndo o Gange vem? 

106 -
«OIha a terra de Ulcinde, fertilíssima, 
E de Jáquete a íntima enseada; 
Do mar a enchente súbita, grandíssima, 
E a vazante, que foge apressurada. 
A terra de Cambaia vê, riquíssima, 
Onde do mar o seio faz entrada; 
Cidades outras mil, que vou passando, 
A vós outros aqui se estão guardando. 

107 - 
«Vês corre a costa célebre Indiana 
Pera o Sul, até o Cabo Comori, 
Já chamado Cori, que Taprobana
(Que ora é Ceilão) defronte tem de si.
Por este mar a gente Lusitana, 
Que com armas virá despois de ti, 
Terá vitórias, terras e cidades, 
Nas quais hão-de viver muitas idades. 

108 -
«As províncias que entre um e o outro rio 
Vês, com várias nações, são infinitas: 
Um reino Mahometa, outro Gentio, 
A quem tem o Demónio leis escritas.
Olha que de Narsinga o senhorio 
Tem as relíquias santas e benditas 
Do corpo de Tomé, barão sagrado, 
Que a Jesu Cristo teve a mão no lado. 

109 -
«Aqui a cidade foi que se chamava 
Meliapor, fermosa, grande e rica; 
Os Ídolos antigos adorava
Como inda agora faz a gente inica. 
Longe do mar naquele tempo estava, 
Quando a Fé, que no mundo se pubrica, 
Tomé vinha prègando, e já passara 
Províncias mil do mundo, que ensinara. 

110 
«Chegado aqui, pregando e junto dando 
A doentes saúde, a mortos vida, 
Acaso traz um dia o mar, vagando, 
Um lenho de grandeza desmedida. 
Deseja o Rei, que andava edificando, 
Fazer dele madeira; e não duvida 
Poder tirá-lo a terra, com possantes 
Forças d’ homens, de engenhos, de alifantes. 

111 
«Era tão grande o peso do madeiro 
Que, só pera abalar-se, nada abasta; 
Mas o núncio de Cristo verdadeiro 
Menos trabalho em tal negócio gasta: 
Ata o cordão que traz, por derradeiro,
No tronco, e fàcilmente o leva e arrasta 
Pera onde faça um sumptuoso templo 
Que ficasse aos futuros por exemplo. 

112 
«Sabia bem que se com fé formada 
Mandar a um monte surdo que se mova, 
Que obedecerá logo à voz sagrada, 
Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova. 
A gente ficou disto alvoraçada; 
Os Brâmenes o têm por cousa nova; 
Vendo os milagres, vendo a santidade, 
Hão medo de perder autoridade. 

113 
«São estes sacerdotes dos Gentios 
Em quem mais penetrado tinha enveja; 
Buscam maneiras mil, buscam desvios, 
Com que Tomé não se ouça, ou morto seja. 
O principal, que ao peito traz os fios, 
Um caso horrendo faz, que o mundo veja 
Que inimiga não há, tão dura e fera, 
Como a virtude falsa, da sincera. 

114 -
«Um filho próprio mata, e logo acusa 
De homicídio Tomé, que era inocente; 
Dá falsas testemunhas, como se usa; 
Condenaram-no a morte brevemente. 
O Santo, que não vê milhor escusa 
Que apelar pera o Padre omnipotente, 
Quer, diante do Rei e dos senhores, 
Que se faça um milagre dos maiores. 

115 
«O corpo morto manda ser trazido, 
Que res[s]ucite e seja perguntado 
Quem foi seu matador, e será crido 
Por testemunho, o seu, mais aprovado. 
Viram todos o moço vivo, erguido, 
Em nome de Jesu crucificado:
Dá graças a Tomé, que lhe deu vida, 
E descobre seu pai ser homicida. 

116 
«Este milagre fez tamanho espanto
Que o Rei se banha logo na água santa, 
E muitos após ele; um beija o manto, 
Outro louvor do Deus de Tomé canta.
Os Brâmenes se encheram de ódio tanto, 
Com seu veneno os morde enveja tanta, 
Que, persuadindo a isso o povo rudo, 
Determinam matá-lo, em fim de tudo. 

117 -
«Um dia que pregando ao povo estava, 
Fingiram entre a gente um arruído. 
(Já Cristo neste tempo lhe ordenava 
Que, padecendo, fosse ao Céu subido); 
A multidão das pedras que voava 
No Santo dá, já a tudo oferecido; 
Um dos maus, por fartar-se mais depressa, 
Com crua lança o peito lhe atravessa. 

118 
«Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo; 
Chorou-te toda a terra que pisaste; 
Mais te choram as almas que vestindo 
Se iam da santa Fé que lhe ensinaste. 
Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo, 
Te recebem na glória que ganhaste. 
Pedimos-te que a Deus ajuda peças 
Com que os teus Lusitanos favoreças. 

119 
«E vós outros que os nomes usurpais 
De mandados de Deus, como Tomé, 
Dizei: se sois mandados, como estais 
Sem irdes a pregar a santa Fé? 
Olhai que, se sois Sal e vos danais 
Na pátria, onde profeta ninguém é, 
Com que se salgarão em nossos dias 
(Infiéis deixo) tantas heresias? 

120 -
«Mas passo esta matéria perigosa 
E tornemos à costa debuxada. 
Já com esta cidade tão famosa 
Se faz curva a Gangética enseada; 
Corre Narsinga, rica e poderosa; 
Corre Orixa, de roupas abastada; 
No fundo da enseada, o ilustre rio 
Ganges vem ao salgado senhorio; 

121
«Ganges, no qual os seus habitadores 
Morrem banhados, tendo por certeza 
Que, inda que sejam grandes pecadores, 
Esta água santa os lava e dá pureza. 
Vê Catigão, cidade das milhores 
De Bengala província, que se preza 
De abundante. Mas olha que está posta 
Pera o Austro, daqui virada, a costa. 

122 -
«Olha o reino Arracão; olha o assento
De Pegu, que já monstros povoaram, 
Monstros filhos do feio ajuntamento 
Düa mulher e um cão, que sós se acharam. 
Aqui soante arame no instrumento
Da geração costumam, o que usaram 
Por manha da Rainha que, inventando 
Tal uso, deitou fora o error nefando. 

123 -
«Olha Tavai cidade, onde começa
De Sião largo o império tão comprido; 
Tenassari, Quedá, que é só cabeça 
Das que pimenta ali têm produzido. 
Mais avante fareis que se conheça 
Malaca por empório ennobrecido,
Onde toda a província do mar grande 
Suas mercadorias ricas mande.  

124 -
«Dizem que desta terra co as possantes 
Ondas o mar, entrando, dividiu 
A nobre ilha Samatra, que já d’antes 
Juntas ambas a gente antiga viu. 
Quersoneso foi dita; e das prestantes 
Veias d’ouro que a terra produziu, 
'Aurea', por epitéto lhe ajuntaram; 
Alguns que fosse Ofir imaginaram. 

125 -
«Mas, na ponta da terra, Cingapura 
Verás, onde o caminho às naus se estreita; 
Daqui tornando a costa à Cinosura,
Se encurva e pera a Aurora se endireita. 
Vês Pam, Patane, reinos, e a longura 
De Sião, que estes e outros mais sujeita; 
Olha o rio Menão, que se derrama 
Do grande lago que Chiamai se chama. 

126 -
Vês neste grão terreno os diferentes 
Nomes de mil nações, nunca sabidas: 
Os Laos, em terra e número potentes; 
Avás, Bramás, por serras tão compridas; 
Vê nos remotos montes outras gentes, 
Que Gueos se chamam, de selvages vidas; 
Humana carne comem, mas a sua
Pintam com ferro ardente, usança crua. 

127 -
«Vês, passa por Camboja Mecom rio, 
Que capitão das águas se interpreta; 
Tantas recebe d’ outro só no Estio, 
Que alaga os campos largos e inquieta; 
Tem as enchentes quais o Nilo frio;
A gente dele crê, como indiscreta, 
Que pena e glória têm, despois de morte,
Os brutos animais de toda sorte.  

128 -
«Este receberá, plácido e brando, 
No seu regaço os Cantos que molhados 
Vêm do naufrágio triste e miserando, 
Dos procelosos baxos escapados, 
Das fomes, dos perigos grandes, quando 
Será o injusto mando executado 
Naquele cuja Lira sonorosa 
Será mais afamada que ditosa. 

129 - 
«Vês, corre a costa que Champá se chama, 
Cuja mata é do pau cheiroso ornada; 
Vês Cauchichina está, de escura fama, 
E de Ainão vê a incógnita enseada; 
Aqui o soberbo Império, que se afama 
Com terras e riqueza não cuidada, 
Da China corre, e ocupa o senhorio 
Desde o Trópico ardente ao Cinto frio. 

130 
«Olha o muro e edifício nunca crido, 
Que entre um império e o outro se edifica, 
Certíssimo sinal, e conhecido, 
Da potência real, soberba e rica. 
Estes, o Rei que têm, não foi nacido 
Príncipe, nem dos pais aos filhos fica, 
Mas elegem aquele que é famoso 
Por cavaleiro, sábio e virtuoso. 

131 
«Inda outra muita terra se te esconde 
Até que venha o tempo de mostrar-se; 
Mas não deixes no mar as Ilhas onde 
A Natureza quis mais afamar-se: 
Esta, meia escondida, que responde 
De longe à China, donde vem buscar-se, 
É Japão, onde nace a prata fina, 
Que ilustrada será co a Lei divina. 

132 -
«Olha cá pelos mares do Oriente 
Ás infinitas Ilhas espalhadas:
Vê Tidore e Ternate, co fervente
Cume, que lança as flamas ondeadas. 
As árvores verás do cravo ardente,
Co sangue Português inda compradas. 
Aqui há as áureas aves, que não decem 
Nunca à terra e só mortas aparecem. 

133 
«Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam 
Da vária cor que pinta o roxo fruto;
Às aves variadas, que ali saltam,
Da verde noz tomando seu tributo.
Olha também Bornéu, onde não faltam 
Lágrimas no licor coalhado e enxuto 
Das árvores, que cânfora é chamado, 
Com que da Ilha o nome é celebrado. 

134 -
«Ali também Timor, que o lenho manda 
Sândalo, salutífero e cheiroso;
Olha a Sunda, tão larga que üa banda 
Esconde pera o Sul dificultoso;
A gente do Sertão, que as terras anda, 
Um rio diz que tem miraculoso,
Que, por onde ele só, sem outro, vai,
Converte em pedra o pau que nele cai. 

135 -
«Vê naquela que o tempo tornou Ilha, 
Que também flamas trémulas vapora,
A fonte que óleo mana, e a maravilha 
Do cheiroso licor que o tronco chora, 
- Cheiroso, mais que quanto estila a filha 
De Ciniras na Arábia, onde ela mora;
E vê que, tendo quanto as outras têm,
Branda seda e fino ouro dá também.  

136 -
«Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta 
Tanto que as nuvens passa ou a vista engana; 
Os naturais o têm por cousa santa,
Pola pedra onde está a pegada humana. 
Nas ilhas de Maldiva nace a pranta 
No profundo das águas, soberana, 
Cujo pomo contra o veneno urgente
É tido por antídoto excelente. 

137 -
«Verás defronte estar do Roxo Estreito 
Socotorá, co amaro aloé famosa; 
Outras ilhas, no mar também sujeito 
A vós, na costa de África arenosa, 
Onde sai do cheiro mais perfeito 
A massa, ao mundo oculta e preciosa. 
De São Lourenço vê a Ilha afamada, 
Que Madagáscar é dalguns chamada. 

138 - 
«Eis aqui as novas partes do Oriente 
Que vós outros agora ao mundo dais, 
Abrindo a porta ao vasto mar patente, 
Que com tão forte peito navegais. 
Mas é também razão que, no Ponente, 
Dum Lusitano um feito inda vejais, 
Que, de seu Rei mostrando-se agravado, 
Caminho há-de fazer nunca cuidado. 

139 -
«Vedes a grande terra que contina 
Vai de Calisto ao seu contrário Pólo, 
Que soberba a fará a luzente mina 
Do metal que a cor tem do louro Apolo. 
Castela, vossa amiga, será dina 
De lançar-lhe o colar ao rudo colo. 
Varias províncias tem de várias gentes, 
Em ritos e costumes, diferentes. 

140 -
«Mas cá onde mais se alarga, ali tereis 
Parte também, co pau vermelho nota; 
De Santa Cruz o nome lhe poreis; 
Descobri-la-á a primeira vossa frota.
Ao longo desta costa, que tereis, 
Irá buscando a parte mais remota 
O Magalhães, no feito, com verdade, 
Português, porém não na lealdade. 

141 - 
«Dês que passar a via mais que meia
Que ao Antártico Pólo vai da Linha,
Düa estatura quási giganteia
Homens verá, da terra ali vizinha;
E mais avante o Estreito que se arreia
Co nome dele agora, o qual caminha
Pera outro mar e terra que fica onde
Com suas frias asas o Austro a esconde. 

142 -
«Até’aqui Portugueses concedido
Vos é saberdes os futuros feitos
Que, pelo mar que já deixais sabido,
Virão fazer barões de fortes peitos.
Agora, pois que tendes aprendido
Trabalhos que vos façam ser aceitos
As eternas esposas e fermosas,
Que coroas vos tecem gloriosas, 

143 - 
«Podeis-vos embarcar, que tendes vento 
E mar tranquilo, pera a pátria amada.» 
Assi lhe disse; e logo movimento 
Fazem da Ilha alegre e namorada. 
Levam refresco e nobre mantimento; 
Levam a companhia desejada 
Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
Por mais tempo que o Sol o mundo aquente. 

144 - 
Assi foram cortando o mar sereno, 
Com vento sempre manso e nunca irado, 
Até que houveram vista do terreno 
Em que naceram, sempre desejado. 
Entraram pela foz do Tejo ameno, 
E à sua pátria e Rei temido e amado
O prémio e glória dão por que mandou, 
E com títulos novos se ilustrou. 

145 -
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho 
Destemperada e a voz enrouquecida, 
E não do canto, mas de ver que venho 
Cantar a gente surda e endurecida. 
O favor com que mais se acende o engenho 
Não no dá a pátria, não, que está metida 
No gosto da cobiça e na rudeza 
Düa austera, apagada e vil tristeza. 

146 -
E não sei por que influxo de Destino 
Não tem um ledo orgulho e geral gosto, 
Que os ânimos levanta de contino 
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino 
Conselho estais no régio sólio posto, 
Olhai que sois (e vede as outras gentes) 
Senhor só de vassalos excelentes. 

147 -
Olhai que ledos vão, por várias vias, 
Quais rompentes liões e bravos touros, 
Dando os corpos a fomes e vigias, 
A ferro, a fogo, a setas e pelouros, 
A quentes regiões, a plagas frias, 
A golpes de Idolátras e de Mouros, 
A perigos incógnitos do mundo, 
A naufrágios, a pexes, ao profundo. 

148 
Por vos servir, a tudo aparelhados; 
De vós tão longe, sempre obedientes; 
A quaisquer vossos ásperos mandados, 
Sem dar reposta, prontos e contentes. 
Só com saber que são de vós olhados, 
Demónios infernais, negros e ardentes, 
Cometerão convosco, e não duvido 
Que vencedor vos façam, não vencido. 

149 -
Favorecei-os logo, e alegrai-os 
Com a presença e leda humanidade; 
De rigorosas leis desalivai-os, 
Que assi se abre o caminho à santidade. 
Os mais exprimentados levantai-os, 
Se, com a experiência, têm bondade 
Pera vosso conselho, pois que sabem 
O como, o quando, e onde as cousas cabem. 

150 -
Todos favorecei em seus ofícios, 
Segundo têm das vidas o talento; 
Tenham Religiosos exercícios 
De rogarem, por vosso regimento, 
Com jejuns, disciplina, pelos vícios 
Comuns; toda ambição terão por vento, 
Que o bom Religioso verdadeiro 
Glória vã não pretende nem dinheiro. 

151 -
Os Cavaleiros tende em muita estima,
Pois com seu sangue intrépido e fervente
Estendem não sòmente a Lei de cima,
Mas inda vosso Império preminente.
Pois aqueles que a tão remoto clima
Vos vão servir, com passo diligente,
Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
E (o que é mais) os trabalhos excessivos. 

152 -
Fazei, Senhor, que nunca os admirados 
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses, 
Possam dizer que são pera mandados, 
Mais que pera mandar, os Portugueses. 
Tomai conselho só d’exprimentados 
Que viram largos anos, largos meses, 
Que, posto que em cientes muito cabe. 
Mais em particular o experto sabe. 

153 - 
De Formião, filósofo elegante, 
Vereis como Anibal escarnecia, 
Quando das artes bélicas, diante 
Dele, com larga voz tratava e lia. 
A disciplina militar prestante 
Não se aprende, Senhor, na fantasia, 
Sonhando, imaginando ou estudando, 
Senão vendo, tratando e pelejando. 

154 -
Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo, 
De vós não conhecido nem sonhado? 
Da boca dos pequenos sei, contudo, 
Que o louvor sai às vezes acabado. 
Tem me falta na vida honesto estudo, 
Com longa experiência misturado, 
Nem engenho, que aqui vereis presente, 
Cousas que juntas se acham raramente. 

155 -
Pera servir-vos, braço às armas feito,
Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Só me falece ser a vós aceito,
De quem virtude deve ser prezada.
Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Dina empresa tomar de ser cantada,
Como a pres[s]aga mente vaticina
Olhando a vossa inclinação divina, 

156 - 
Ou fazendo que, mais que a de Medusa, 
A vista vossa tema o monte Atlante, 
Ou rompendo nos campos de Ampelusa 
Os muros de Marrocos e Trudante, 
A minha já estimada e leda Musa 
Fico que em todo o mundo de vós cante, 
De sorte que Alexandro em vós se veja, 
Sem à dita de Aquiles ter enveja.
 
Fim de Os lusíadas.


terça-feira, 8 de maio de 2018

Américo Antony (1895-1970)



Américo Antony (1895-1970)



A FOR DO CRIME

Nos valados sombrios do Negrume,
De árvores tristes gotejando sangue,
A um atro, ascoso, putrefacto mangue
Nasceste, ó Flor com pétalas em gume!

Com punhais, mostrando-os por costume,
Como a serpente venenosa e langue,
Prostas feroz uma ave incauta, e exangue...
Diabólica em furor como o Ciúme!

Que vale antigo de mudez adversa
Tua corola arquitetou perversa
Para tudo matar, tudo ferir?!

És o símbolo aberto da Maldade,
Perfume da atração na Crueldade,
Antros consecutivos morte a abrir!!!



A FLOR DO REFLEXO

Impressão no cristal, no seu sensório
Da Água a imaginação faz colorida
E material, sensível, mais sentida
Da imagem desse olhar fluido, incorpóreo...

Leitura espiritual no espelho arbóreo
Do lago, que duplica o ramo em vida
E a flor em beijo luminoso, ebóreo
Como intangível ilusão vivida!

Ah! seu pudesse recolher-te a forma
E a cor, mais belas, que as do original,
Pelo banho que as deu a água lustral!

Extrair-te em relíquia onde a transforma
Nesse Visível Real... mas, que se alcança
Só pelas Mãos do Sonho e da Esperança!

        

         VITÓRIA-RÉGIA

Nos campos desta lúcidas devesas,
No abismo em flor dos roseirais mais belos,
Eu vim soltar no adeus das correntezas
As almas dos meus rútilos castelos.

E ouvia a voz das líricas Princesas
Num delírio fatal.. frios cutelos
Cerceando os cantos íntimos, realezas
Da Esperança irradiando em setestrelos!

E assim, uma por uma, em paroxismo
As emoções, no resplendente abismo
Lancei-as todas.  Mas, somente a Dor

Não sucumbiu nos vórtices, e egrégia,
Circundada de espinhos, Grande Flor!
Flutuou, viveu... — Era a Vitória-Régia.



         A FLOR DA EXORTAÇÃO

 Calada voz perdida no Passado
Que cantou em penumbras de cristal
Sensíveis sons de luz do que é encantdo
Nos seres todos da Alma Universal:

Secretos luares do silêncio amado
Tão brandos e potentes, que afinal
Os fluidos regem do que foi criado
Da Luz, dos sons, do intrínseco causal:

Revelai-vos, amebas invisíveis
Dos vossos mundo! órgãos de emoções
Do Todo Eterno que voz fez sensíveis

Da sinfonia que se fez correntes
Trazendo o pego à flor, em corações
De originais idiomas transparentes!...




A Ronda dos cisnes


A memória de Heliodoro Balbi


O lago acorda. E a lua se insinua
Entre o palmar que aljôfares desata.
Há um silêncio de cisma na alva lua...
Passam os cisnes... são gôndolas de prata.

O lago é rosa. A aurora ainda mais nua
Abre as carnes de anêmona ao sol louro...
Há um fervor de volúpia que flutua...
Centelham praias... passam os cisnes de ouro...

O lago é rubro. O sol no poente escalda.
É a glória em gozo extremo, ardente exangue...
Safira é o céu. A selva é de esmeralda.
A água é rubi... passam os cisnes de sangue...

Lago violeta – há uma queixa na bruma
Da distância na mágoa e na ansiedade...
É o crepúsculo abrindo em cada espuma
O lilás... passam os cisnes da saudade...

O lago dorme... mas, ferido de açoite
Das trevas, que os relâmpagos percorrem...
Os cisnes voltam negros como a noite,
Cantam na solidão da noite... e morrem.



Natal

A Dor fez uma via inundada de sangue...
A Renúncia construiu um caminho de Luz...
Dor, que sangrou de um Deus crucificado e exangue,
Renúncia, que irradiou dos braços de uma cruz.
Os crimes mais revéis, guardou-os Ele, o Deus Homem
Como urna de cristal recebendo um monturo,
Para tê-los, depois, das penas que os consomem,
Transmudados no céu do Seu ideal mais puro!

Quem recebe tormento e só dá redenção,
Quem ferimentos sofre, e abre-os como sorrisos,
É Esse que a luz da estrela acende ao coração,
É Esse que a infernos faz reflorescer paraísos!

Caminhantes guiou pelas sendas desertas,
E ergueu, entre espinhais, os passos da Paixão,
E fez, da escravidão, almas soltas, libertas
Voar à excelsa paz da glorificação!


Conduzia-as ao céu quando em terra choravam!
Fazia-as reviver a Deus, quando morriam
De dor, sob a ilusão dos gozos que as manchavam
À ignomínia fatal, quando à expiação desciam.

Esse Condão de Luz que os tempos ilumina,
Atrás do qual a humanidade ainda revive,
É a estrela, que, guiando os três Reis Magos, divina
Ainda no coração de cada Angústia vive!

Ainda abre essa esperança aos seres sofredores
Como, de um fundo abismo, - a boca – é um céu aberto!
Como é, ao peregrino, a estrela num deserto,
E a campa secular, - se engrinalda de flores

E a Luz da Redenção fulgiu sobre um presepe
Com a humildade do Amor criando o Mais Divino 
Em desertos, em mar, em selva, em campo, e estepe,
E em tristes ribeirões ao pulso cristalino!

Ele fulgiu do Eterno, e hoje fulge! – é o Natal
Que a lágrima refaz da Eternidade em Luz!...
Vinde ajoelhar comigo ante a Luz Imortal
Que flue com a Redenção, dos olhos de Jesus!






A Eduardo Ribeiro (O Pensador)


Homenagem ao meu amigo Dr. Avelino Pereira

Fizeste a tua chácara num ermo,
Para “pensar” teus planos construtivos.
Porque sabias que o “Silêncio” é o termo
Mais forte, que aos mortais os torna vivos!

Teus atos tais assim tornaste esquivos
Do “brouhaha” burguês do vício enfermo...
Tinhas projetos novos, redivivos,
Sonhavas construções como Palermo!

Vítima nobre de intenções covardes!
Vós, ideais, a morte, de momento
As asas vos abriu para voardes!

E o que ideastes, - é real, é Eterna Flor:
Olha, as sementes do teu pensamento, 
Hoje, ainda vivem, velho “Pensador”!


Igapó

Há uma escura paragem de saudades
Onde a água esconde as tradições amigas...
Onde a água chora umas canções antigas...
Onde a água geme... e é quase divindade.
Lá o rio oculta amplas fadigas,
E as sombras abrem em flor de suavidade,
E espera, e dorme, e sonha a eternidade
De insetos de ouro, e prónubas formigas...
Teto de selva e leito de água e trevas
Onde aves de mil cores bebem alma
Dos beijos nidiquidrópicos da palma...
Estoar de pólen, luz de água lembrando
Retinas mortas... gerações primevas...
Líquidos olhos de pajés boiando...


A Ronda dos cisnes
 À memória de Heliodoro Balbi 


O lago acorda. E a lua se insinua
Entre o palmar que aljôfares desata.
Há um silêncio de cisma na alva lua...
Passam os cisnes... são gôndolas de prata.
O lago é rosa. A aurora ainda mais nua 
Abre as carnes de anêmona ao sol louro...
Há um fervor de volúpia que flutua...
Centelham praias... passam os cisnes de ouro...
O lago é rubro. O sol no poente escalda.
É a glória em gozo extremo, ardente exangue...
Safira é o céu. A selva é de esmeralda. 
A água é rubi... passam os cisnes de sangue...
Lago violeta – há uma queixa na bruma
Da distância na mágoa e na ansiedade...
É o crepúsculo abrindo em cada espuma
O lilás... passam os cisnes da saudade...
O lago dorme... mas, ferido de açoite
Das trevas, que os relâmpagos percorrem...
Os cisnes voltam negros como a noite,
Cantam na solidão da noite... e morrem.



Cigarras

Cigarras que vibrais os tímpanos de prata
Das tardes tropicais, dos cálidos verões
Vós trazeis o sonhar, vós trazeis as canções
Que, mortas teve um dia, o coração da mata

Renovais vossos sons, despertais a sonata!
Prendei, de novo, ao ramo antigo, as ilusões
Onde floriu o amor nas quentes estações,
Onde o sol, resplandecente, o seu calor desata!
Precursoras de um bem, da esperada alegria,
O cantoras de bronze a vibrar noite e dia,
Que morres quando morre esta querida estância.

Filhas do som, da paz, cantai, núncias da flora!...
Ah!, quem me dera ouvir, mesmo de longe, agora
No inverno da minha alma as cigarras da infância!