domingo, 18 de maio de 2014

J. G. DE ARAUJO JORGE - HARPA SUBMERSA









" A Paisagem "

Ó tu que és a paisagem que não me pertence
à margem do meu itinerário,
entrevista tantas vezes
mas nunca possuída
nem sequer visitada
senão em meu sonho visionário...

Ó tu que és a paisagem que
me acompanha
todos os momentos
e que margeia afinal o meu caminho
até o remoto, até o adiante, o imprevisível,
a paisagem que me acompanha, mas não me faz companhia
Pois que estou sempre sozinho...

Que adiantaria saltar, se sou viajante
se devo passar apenas, sempre à distância, e inebriar-me,
com a impossível miragem,
se alguém mais feliz chegou, e de mais posses, possuiu-a,
e ergueu a cerca-limite, entre a estrada e a paisagem...

Que fazer, se hei de ser apenas o viajante
que passa, despercebido,
e tu, a impossível paisagem que fica sempre para trás,
como um gesto perdido...





" Acordeon "

Quando te tenho sobre os joelhos
penso que sei tocar acordeon,
e brotam notas dos meus dedos
que eu sei bem que  tu ouves

porque os teus olhos estão dançando um tango.



" Aleluia ! "

Ainda bem que o dia amanhece
ainda bem que há janelas nas paredes fechadas...


Que seria da vida se certas noites se prolongassem
dentro de quatro paredes que não abrissem janelas ?


Esta luz que rompeu como um grito violento
retirou dos escombros de tantos homens abatidos
um homem novo capaz de lutar
e esquecer que morreu.






" Aquarela "

Será fácil te esquecer:
a grande praça entre sombras
as montanhas azuis, aquele banco
que ouviu em uma tarde ainda em crepúsculo
vagas palavras, quase despedida.

Será fácil te esquecer:
aquela doce manhã de ouro e de espera
aquelas ruas com seus homens tristes,
o sol na água parada dos repuxos
um apito, - era o trem, - quem partiria ?

Será fácil te esquecer:
aquela noite azul de estrelas trêmulas
a praça novamente, e tanta gente
sem perceber que apenas dois destinos
se encontravam na praça, - nada mais, -
que nossos dois destinos se encontrava,

Será bem fácil te esquecer:
basta que esqueça o dia, a tarde, a noite,
basta que esqueça o sol, a praça, as ruas
basta, enfim, me esquecer.



"As Duas Mãos..."

À noite, sob os lençóis, nossas mãos cegas se encontram
e um diálogo de ternura e de silêncio
independe de nós.

Mãos insones, que surpreendemos ainda juntas, num diálogo
de ternura e silêncio,
quando a manhã nos expulsa do sonho...

Como Deus expulsou Adão e Eva
do Paraíso...





" Ascensão ? "

Às vezes pressinto que ainda não sou
que apenas estou sendo

Antevejo paisagens porque percebo a escalada
e qualquer cousa me diz que chegarei a olhar-me
em todas as direções,
sentindo que tendo aos meus pés os caminhos revelados,
e as próprias nuvens se conformam em poemas...

Atiro-me ao trabalho com esforço e aventura
sem olhar para trás,
como o alpinista que percebe não ter chegado ainda
ao ponto mais alto
quando poderá plantar o seu marco,
e só então, olhar o mundo.

Às vezes pressinto que ainda não sou
e nessa dura escalada, angustiosa, um pensamento
me amedronta: serei ?

Chegarei ao cimo
ou cansarei ?






" Barco Perdido "

Oh! a vida é uma grande renúncia, partida
em pequenos fragmentos, todo dia, toda hora...
E a ironia maior, é que às vezes, a vida
de renúncia em renúncia aos poucos vai embora...

Tu voltaste de novo... e o doce amor de outrora
trouxeste ainda no olhar, na expressão comovida.
e eis que o meu coração no reencontro de agora
transforma em labareda a chama adormecida...

No entanto, que fazer? Há uma âncora no fundo...
Hoje, sou como um barco sobre o mar do mundo,
barco esquife, onde jaz um marinheiro morto...

Velas rôtas ao vento... os mastros aos pedaços...
E te vejo seguir, e a acenar-me teus braços,
e me deixo ficar, sem destino, nem porto...




 " Barro "

Não me culpes, se não posso tirar deste amor
senão  formas, como louco escultor
diante do barro...

Não  era teu destino ser música
em meu coração.




" Brinquedo "

O amor é como um brinquedo
só dura enquanto na loja

Tambor ou boneca
o amor é imenso enquanto o escolhemos
entre tantos,
em nossas mãos sua existência é o intervalo
entre a sua conquista e uma nova visita
à casa de brinquedos.

Sim, seria eterno amor, se em face dele
deixássemos de ser crianças.

Ou, quem sabe ? se o amor não fosse
um brinquedo.






" Cadeira de Rodas "

Tenho enganado o destino
e traído minha vida
deixando-me ficar – como estou –
nesta cadeira de rodas do meu tédio...

Quanta aventura, quanto sonho  
frutificando em vão,  
quanto amor à espera,
para ser colhido  
e eu a morrer aos poucos           
enraizado a esquecido. . .           
      
Tantos que se vão, sem adeuses
sem nada,
apenas com o seu coração,  
com a coragem de romper cabos  
e amarras  
pela simples alegria de partir. . .
        
Tantos que um dia se libertam afinal      
sem olhar para trás
sem pensar em voltar,
e se perdem, e se encontram,
e renascem das cinzas do que foram
com as mãos cheias de frutos

Oh! a coragem de partir para não morrer
emparedado!
- atirar-se ao mar, como aqueles velhos navegadores
que adivinhavam terras que ninguém sabia
e enfrentavam o mar - o monstro misterioso –
como loucos pigmeus . . .

Oh! a coragem de largar o velho porto onde o casco
se enche de algas e ferrugem,
nem que seja apenas
pelo prazer dos ventos livres
o balanço das vagas encapeladas
a expectativa de paisagens irreveladas.

A coragem de conquistar a vida que se esconde
atrás dos horizontes
que palpita e atrai como uma estrela fugidia,
e que chega, quente e viva, quando a colhemos
sazonada pela emoção da morte que amadureceu
em suas imprevisíveis searas.

Tenho enganado meu destino
deixando-me ficar
paralítico, sem remédio,
nesta cadeira de rodas do meu tédio . . .





" Canção Triste "

Vivemos novamente como dois seres cerimoniosos
quando chego me beijas como a uma amiga na rua,
não te despes na minha frente, tão diferente daquele tempo
em que a tinha em meus braços despudorada e nua...

E um arrepio ainda estremece os meus desejos lassos...
Muitas vezes me pergunto: então isto é o amor?
Quero ser o que fui, prometo que te tomarei nos braços
que te enlouquecerei como antigamente, sem nenhum pudor...

Ao tentar entretanto, percebo o vão desejo,
reconheço que há uma ternura entre o vago e o fastio,
mas não consigo vencer esta estranha distância
e ir além das minhas forças, ressuscitar essa ânsia...

Às vezes penso, em desespero, que talvez se fugíssemos
não sei pra onde, mas pra longe, entre sombras e muros,
se pudesse ser de novo a fresca e imprevista flor,
talvez nos reencontrássemos mais forte e mais puros
e no grande isolamento ressuscitássemos o amor...

Que fazer, meu amor ? Há de soar diferente de outros tempos
minha voz a te repetir: - que fazer, meu amor ?
Sinto que levo nos braços por desesperado caminho
um sonho que em vão floriu e em vão frutificou!

Tu sabes bem que ainda te amo, e eu percebo que me amas,
qualquer coisa ainda há, talvez, para salvar o amor,  
não vamos deixá-lo assim abandonado em meus braços
em meus braços pesados de angústia e de amargor . . .


Talvez ainda viajemos juntos, ainda nos encontremos
para as nossas emoções, se somos jovens e há tempo...
Aterroriza-me pensar que se o deixarmos morrer
seremos também arrastados para a desolação irremediável
e nada restara de nós, quando a última onda o envolver!





" Canto de Ontem "

Vamos, põe teu braço no meu braço, vamos recordar
os velhos tempos
do nosso amor.
Passeávamos assim, e que frias eram as tuas mãos
no momento do encontro,
e que dóceis teus lábios depois da rendição.

Muitas vezes perdi-me em teus lábios e não soube voltar.
Que era o mundo senão um punhado de perspectivas
que saíam do ponto coração
e se perdiam nos teus olhos?

Tanta cousa esperamos e alguma cousa colhemos
mas que triste, amor, este todo-o-dia matando
o que esperávamos jamais ser tocado pelo tempo.

Tu me queres ainda, eu sei que te aninhas, por habito ou por frio
junto ao meu corpo, e esperas.

E eu te quero ainda, muito mais pelo que deixaste
nas raízes mergulhadas
e pelo que representas nas nuvens que se acumulam
do que pelo momento de tédio e ternura, elementos
do nosso coquetel cotidiano...

Vamos, põe teu braço no meu braço, como antigamente,
entrega-me docilmente os teus lábios, e pensa
que eu te beijo há mil anos, num tempo em que seremos
sempre os mesmos
e o nosso amor imortal.






" Canto do Amor sem Tempo "
                        "Porque nunca te estreitei contra mim
   é que nunca te afastas."
                                                                           (Apontamentos de Malte Laurids Brigge.
                                                                                                            Rainer Maria Rilke.)


Cresces no pensamento quanto mais te afastas,
nunca te afastas, nunca, se afinal ressurges
em cada vivo instante - ó flor sem estações,
numa árvore que tem mil profundas raízes!

Para mim, és aquela intangível presença
que construí com o meu louco desejo impossível.
Se não posso tocar-te, hás de acenar-me sempre:
loura estrela que a mão não apaga dos olhos.

Mais alem do desejo - essa fera em tocaia -,
da ternura - esse dote veneno que embriaga -,
paira o amor, e eis o amor, longe de nossas forças,
fruto de ouro da lenda que criamos juntos.

Ah! pudesse eu tocar-te e talvez esboroasses
como um gesto de areia ao abraço das vagas...
Ah! pudesses ser minha, e talvez percebesses
que então, já nunca mais poderias ser minha!

Ah! o amor, como nós o afastamos, no instante
em que julgamos, tontos, loucos, celebrá-lo.
Só depois que o possuímos é que compreendemos
que possui-lo é afinal parti-lo e mutila-lo.

Quem diria? A conquista é o "requiem" do amor,
e o que devera ser eterno e indivisível,
vai sendo mutilado toda vez que um golpe
de prazer, fere e atinge a substancia do sonho.

Só - como estas, assim, estou sempre ao teu lado,
sempre comigo estas -, assim só, como estou.
Que faríamos nós para salvar o amor
se eu pudesse planta-lo em teu corpo, a enraizar-me?

Ah! os braços são alças do esquife imprevisto,
colhem flor sem raiz, colhem astros sem céu.
o meu amor, só tu cintilas em meu sonho
porque enquanto me buscas eu jamais to alcanço!

O destino do eterno atraiçoou nossos planos.
Nossa conspiração frustrada nos endeusa.
E esse amor, que eu quisera estrangular de beijos
sobe como uma chama angelizada no ar!





" Canto e Elegia "

Sejam as palavras a forma da minha dor
ou da minha alegria.

Que este é o destino real dos que trouxeram
a poesia,
existirem apenas no canto,
como a chama no fogo,
como a forma na flor!

Canto e elegia...
aonde eu for.




" Canto Integral do Amor "

Cegos os olhos, continuarias de qualquer forma,. presente,
surdos os ouvidos, e tua voz seria ainda a minha música,
e eu mudo, ainda assim, seriam tuas as minhas palavras.

Sem pés, te alcançaria a arrastar-me como as águas,
sem braços, te envolveria invisível, como a aragem,
sem sentidos, te sentiria recolhida ao coração
como o rumor do oceano nas grutas e nas conchas.

Sem coração, circularias como a cor em meu sangue,
e sem corpo, estarias nas formas do pensamento
como o perfume no ar.

E eu morto, ainda assim por certo te encontrarias
no arbusto que tivesse suas raízes em meu ser,
- e a flor que desabrochasse murmuraria teu nome.





"Canto ou Elegia"

Porque não  me pertences eu te sinto minha.
Sei que estou no teu sono e nos teus movimentos.
Ah! se já tivesse apertado ao meu peito
talvez me pertencesses, - e não fosses minha.

Quantas, quantas julguei possuir, tive-as na posse
e perdi-as no instante em que a taça se esvaziou.
Ah! morremos de sede ! E é água pura que canta
perto de nós, no abismo, esse amor que não temos.

Morro de sede, e sofro... Ó música tão perto
e tão longe na minha solidão ardente!
- Quanto não a ouvirei porque a terei nos lábios?

Quando a possuirei sem notar-lhe a pureza?
E a beberei sem ver, que a estou, lento, matando,
e estou, lento, morrendo, sem saber que morro?




" Canto Primitivo "

Inveja, sim,
do lavrador, do colono,
que violentou o chão e empurrou as florestas
para o cume das montanhas, assustadas
pelo fogo das queimadas ...

Que plantou os toros
e colheu a casa,
simples, sozinha, perfeita. . .
- o sol dançando em torno, - e à janela, vê seu mundo
como um Deus, e olha sem crer a sua mão direita.


Inveja, sim,
da pureza inicial, bárbara e rude
do amor sem sucedâneos,
da beleza da terra sem pudor,
acordando com as colheitas douradas
ao primeiro sol,
e dormindo com as plantações quando as montanhas
                                       [estendem
como franjado xale,
seus véus de sombra sobre o vale.

Ah! ser puro como as plantas,
como a terra,
ter o coração forte como os córregos
que estrugem pelas pedras, nas gargantas
da serra.


E possuir a vida sem complexos
instintiva, sem razão,
como o touro-garanhão que na pastagem
à luz do sol, urrou para os céus
o Canto da fecundação!




" Colóquio Prosaico "

I
Porque as cousas que me cercam se impregnam de poesia
porque lhes transmito minha convivência
e que posso ama-las a senti-las com a perspectiva
da minha emoção.

Oh! felizes são aqueles que encontram os objetos amados
nos seus lugares, ao seu redor,
e possuem o dom de transubstanciar-se em seu próprio mundo
cercado por uma imensa família,
mesmo na solidão.

Seres do nosso mundo
os jarros, os quadros, os livros, as cortinas,
a janela, a cama, a mesa,
são velhos companheiros, formas extáticas de pensamentos,
são velhos confidentes, testemunhas silenciosas
de nossos conflitos,
estatuas de mil figuras e personagens
representando-nos em tantos instantes diversos . . .

Cada um a um monumento múltiplo, onde se agrupam
tantas idéias,
tantas conjeturas a solilóquios,
fazem parte de nossa vida, e se encontram nela, vivos
como a cena nas personagens.

II
Neste apartamento, sem ninguém, só eu não serei estranho,
só eu encontro companhia, pois em suas formas continentes
tenho vivido.

As cousas me conhecem, me olham, me recebem, me aconchegam
principalmente quando estamos inteiramente a sós
porque então nada lhes tolhe a infinita timidez.

Meus livros me esperam - nas margens deixei-me ficar ,-
gravei mudos pensamentos em suas entrelinhas,
ampliei-os, e só aos meus olhos tem tantas páginas
que outros não lerão jamais.

E estes dois jarros simples, se não os encontrasse mais
seria como se mutilassem meu mundo;
estes quadros representam configurações que só minha
imaginação criou
e estão na parede, como a nuvem no céu.

Minha cama, oh! estender-me, horizontal a humilde,
e encontrá-la sempre à espera
sem um reclamo, uma exigência,
branca a macia como um gesto de enfermeira,
minha cama, meu chão de cada noite de cansaço e amor.

Minha mesa - ao seu lado sentei-me tantas vezes diverso
como um deus - capaz de criar mundos sobre suas quatro pernas,
ou simplesmente humano, a receber o pão,
minha mesa, palco onde minhas mãos representam seu destino
na eterna cena que imagino e crio.

Meu radio, meu magico Dr. Fausto, com sua alquimia maravilhosa
a transformar meu silêncio em Scherazade
e se pondo a cantar na minha pause.
Minha máquina, meu instrumento de curiosas e minúsculas teclas
que as vezes parece mesmo tocar antes que lhe encoste os dedos,
e vai guardando em sue branca memória tanta cousa
para além dos limites da vida
ouvindo e repetindo o que lhe digo;

minha maquina, harpa e saxofone, violino e clarim, corda e metal,
lançando palavras mágicas, que eram apenas recôndita e misteriosa vibração,
sempre pronta ao trabalho até na minha insônia.
..............................................................................................................................

Amo as cousas que me cercam, elas tem alma para mim,
vivem comigo a minha vida e partilham do mesmo destino,
e - sobre elas me encontrarei como uma sombra
até que o sol se ponha.





" Convalescença "

Toda vez que escrevo convalesço, estou nascendo
outra vez dentro de mim.

Convalescença
de uma longa enfermidade em que fiquei paralítico
dentro de mim mesmo.

E de repente, posso andar, posso sair, - que misterioso médico –
indicou-me a liberdade e reconciliou-me com a claridade da manhã
e os caminhos que são sinuosos convites acenando?

Estou descendo invisíveis degraus de uma branca escadaria
que dá para um grande parque onde as árvores e os homens dialogam
e brincam como as crianças,
e fazem roda em torno das heras de velhos poetas
escondendo faunos
nas pupilas de bronze.

A criação é uma convalescença, uma janela de hospital que se abre,
dois braços que respiram abarcando o espaço
e dois olhos que começam a cantar como os pássaros

Estes cantos são apenas o ritmo elementar da respiração desopressa
o latejar do sangue nas veias, que arremeda
as águas que estão rolando em algum lugar do mistério.

Fora da arte e da poesia
a vida é uma longa enfermidade, um tédio branco
de hospital, sem esperança.





"Covardia"
O que me falta é a coragem para fazer como Gaugin
e ir pintar as ilhas e as mulheres dos mares do Sul.

Não cair em Jack London
mas pintar pelo menos céus amarelos como os de Van Gogh
e beber absinto como Rimbaud.

O que me falta é a coragem para ir encontro que
marquei comigo mesmo
numa esquina do mundo
para encontrar o destino...



" Desculpa "

Me desculpem, amigos,
se não consigo sujar o sonho,
torná-lo indecifrável e apocalíptico,
se não consigo lambuzar o símbolo,
se não posso turvar a imaginação.

Me desculpem, amigos,
meu jeito é este mesmo de ser poeta,
e a água da minha onda, por mais profundo que seja o mar,
é azul e transparente,
e os peixes tem suas formas, e as algas não tem suas formas,
e as estrelas do mar florescem cinco pontas,
como as palavras que luzem.

Me desculpem, amigos,
se venho assim transparente como o
   fundo de aquário
num parque para crianças e curiosos,
e se vos ofereço estes velhos símbolos de uma velha e
    primitiva poesia
que chegou com os peixes à terra, talvez antes da presença
   do homem.





 " Edelweiss "

Contenta-te com o que já tens, se é tudo o que posso dar-te,
não queiras o coração, - puro Edelweiss das alturas ;
que há muito perdi num sonho que escalou a montanha
e não voltou.

Não percebeste ainda no desespero com que me enraízo
que és a terra onde piso e me vingo
do sonho inacessível.

E depois, - oh! a eterna insatisfação, - não te lastimes!
Se atingisses o sonho, talvez o achasse tão pouco
na palma de tua mão.



" Elegia da Folhagem "

E vieram  uns homens estranhos, empunhando suas armas,
e derrubaram sobre a calçada as ramagens mais altas e belas
das amendoeiras.

As crianças estão brincando sobre a morte da folhagem
e elevam no ar os galhos decepados como inocentes estandartes...

Posso perdoar as crianças,
não perdôo, no entanto, os que perpetram este crime todos os anos
contra as amendoeiras de minha rua
- as amendoeiras de todas as ruas

Como seria bom se elas pudessem subir livremente
e trazer seus ramos até minha alta janela.
............................................................................................

Amanhã, quando o vento vier
as folhas que restarem sussurrarão elegias pela rua,
e ouvindo-as, por um segundo, recolherei meu canto.






" Embriaguez "
                                                      " Ah! como quem bebe se ausenta estranhamente
do ato de beber"
                                                                          (Segunda Elegia. Rainer Maria Rilke)


Que poderíamos esperar, amor, ao fim do brinde
senão duas taças vazias ?

E é inutil reenchê-las... cada nova taça nos afastará mais
do prazer inicial
e nos levará ao esquecimento.

Ninguém recuperará jamais o sabor dos primeiros goles
e as puras alegrias da primeira taça...

Ergamos um brinde à embriaguez,
que ela só, nos faz esquecer o quanto nos afastamos
de nosso amor,
e o quanto o vamos esgotando sem sentir,
a cada novo brinde !




" Esperança "

Ainda resta afinal intacto o coração
e puro o sonho que como a flor singular e misteriosa
fizeste nascer da pedra lisa.

E ainda podemos como os marinheiros nos mirantes
colocar a mão sobre os olhos para atingir a distancia maior
dos horizontes.

Quando há coração e há caminhos
ainda resta a esperança para o amor.




" Estranho Instrumento "

Meu coração, como uma harpa submersa,
jaz no fundo de que ignorado oceano?

Que estranhas correntes arrancam de suas cordas
sons líquidos e redondos que se perdem côncavos
antes de chegar à tona?...

Que peixes cegos tiram notas imprevistas
e se vão tontos na ondulação do canto que despertam
entre espectros calcários e verdes algas trementes?

Que músicas borbulhantes se agitam, nascidas
de que movimentos sem origens, incognoscíveis,
marcando um tempo morto e imensurável?

Meu coração é como uma harpa submersa,
sem dedos, sem cordas, tocando sozinha
uma canção que desvenda os mistérios da vida
para os peixes ouvirem.




" Estudo N°.1 "
( escafandrista )


Me visto com as palavras
como o escafandrista
para descer ao fundo das coisas
e penetrar o mistério onde me encontro

Mas quem traduzirá a visão dos olhos,
se à luz do sol, na fixação, tudo se perde,
e a verdade absoluta continua submersa ?

Cada poema é uma descida ao fundo do oceano:
repentina revelação de algas e peixes
de luz e formas
que a superfície não entremostra.

Ó louco escafandrista,
em vão devassarás as profundezas do oceano,
trazes apenas à tona as tuas narrações - vãs palavras
das expedições ao teu canto!




" Estudo N°.2 "
( a semente )


Plantei-te em meu coração
e  ele consumiu-se inteiro como a semente
e transformou-se em haste, em ramo, em flor...

Consumiu-se inteiro pela glória
humilde de ser seiva
e alimentar este  amor





" Estudo N°.3 "
         ( caminhos diversos )


Quanto mais ando, mais me afasto de mim mesmo...
Seguimos por caminhos inteiramente diversos
e não sei qual de nós tem sido mais pesado ao outro
carregar...

Talvez que ainda me perca de vista,
e me livre deste canto, entoado em hora imprópria
para a surdez do mundo

e que me comove como a uma  criança.



" Estudo N°.4 "
( Sem saída )


     Por que sonhar com verdes horizontes,
ou árvores assustadas
em fuga pelas montanhas
se é impossível sair

Diante de meus olhos, os altos paredões de concreto
apertam meu coração inocente a cumprir uma pena
por um crime ignorado

E uma surda revolta se debate, como um pássaro
sem vôo.




" Estudo N°.5 "
(A posse)


A posse
- esse gozo do amor com que te embriagas,-
é uma estranha roedora que a si mesma se rói...

Por  que querer lutar se não á esperança?...
Por que? Se o mesmo gesto que alcança,
- destrói...



" Estudo N°. 6  "
(tange a harpa )


Restam-me os momentos submersos
quando o espírito tange como uma harpa
e meus olhos se enchem de algas e estrelas nítidas
como cristais

Felizes os homens que encontram profundidade
para mergulhar, e podem estar sós
para multiplicar-se.





" Estudo N°. 7 "
( Digitais )


Sei que sou um artista impuro
nunca serei cristal
nunca estarei totalmente em Duino ou Muzot como Rilke,
quem sabe se apenas o "dono do mundo" de Shelley
"manchado pela clara radiancia da eternidade" ?

Não chegarei ao crime perfeito, - e como desejara -
hei de sempre deixar na minha obra as impressões digitais:
digitais:
um pouco de sangue sobre o meu espírito
trairá sempre a minha vida.

Nunca estarei totalmente só, mesmo no transe,
sinto que nasci para comunicar um pouco mais
do que a mim mesmo
e sou muitas palavras necessárias.

Sou um pedaço de rocha translúcido, onde a marca da terra
ficou em traços indeléveis retida,
e esta é a minha pureza, pureza com todas as sua manchas
de vida.




" Estudo N°. 8 "
( Imortalidade )


É preciso que te encontres na tua obra,
como a pedra na construção.

É preciso que te recries na tua obra
para que subsistas.

Não morrerás se atingires o mistério
com as tuas mãos
e souberes vivê-lo
enquanto cantas.

Sim, não morrerás porque pisaste o tempo
e passaste sobre ele
e te libertaste.




" Estudo N°. 9  "
( Abismo ?)


Cismo:
- cansarei
ou imprevistamente rolarei
no abismo ?




" Fim  do Mundo "

Já esta na hora dos homens saírem como Flash Gordon
para a Lua ou para Marte

Já não há nada de novo se as palavras se repetem
as batalhas se sucedem sem heroísmo,
as palavras se dissolvem,
e se o patriota vai morrer sem que
as bandeiras e os tambores
consigam convencê-lo com seus argumentos e fanfarras!

Já esta na hora dos homens saírem para a Lua
ou para Marte
pois os piores crimes são os cometidos
sem arroubos nem paixão





" Frustração "

Persegui-a com as mãos, como uma criança a um brinquedo.
Era um sonho; era mais: - a alegria que chega,
o prazer que nos toma e nos deixa inebriados,
atirando à corrente, num gesto, os sentidos...

Ah! Povoou minhas noites de sono sem pálpebras;
dançava entre estrelas na distância, - via-a!
Meu destino! pensei, - eis o amor! - É esse sangue
que me queima por dentro e me agita: eis o amor!

E alcancei-a! Eis o mar ao redor atordoante!
Nos meus braços em concha era como uma pérola
escondida, o mistério do oceano a guardar...

E de repente, é estranho! esse vazio, esta ânsia!
Como a posse do amor está longe de amor
e o rumor que há na concha... está longe do mar!



 " Harpa Submersa "

Este retardatário gosto de pureza,
que me vem à boca do fundo coração,
não sei se é tédio ou o sinal de alvoradas renascentes.

Na areia branca onde a onda tenta apagar
vestígios de pés e levar todas as conchas,
me deixo à espera de outra vagas carregadas de conchas
ou de passos que tatuem novas marcas
na epiderme do coração.

Pobre coração marinheiro, tão marcado,
de que canto obscuro desenterras imprevistamente
esta harpa cheia de algas e de sons submersos?



" Imortal "

Me sinto na academia
me sinto "imortal" nesta mensagem que chegou de longe
como um branco pombo cansado e pousou sobre a minha mesa...

Um irmão de Loanda, um irmão negro me manda uma
mensagem de paz
e me aperta ao seu coração, emocionado, e me agradece,
o que julgou ter encontrado
naquela "Estrela da Terra"...

Releio a carta, e um calor me aquece o coração com esta
palavra que vem de longe
e me toca como o sol,
que me fala acima de fronteiras e desconhece oceanos
como a visita pródiga e inesperada de um irmão extraviado
que chegou...

E releio então outras cartas - revoada imprevista que
meu canto acordou - e que justificam
minha poesia além dos lábios, minha poesia nos livros
como flores, que não sei se o tempo despetalará. . .

A do prisioneiro político de Fernando de Noronha,
a que veio do Leprosário
a que chegou da cadeia municipal de Juiz de Fora,
a do poeta de Montevidéu, e as das moças de Taubaté
e de Erechim,
para quem sou maior que Guilherme de Almeida e
Alceu Wamosy.

Me sinto na Academia
me sinto "imortal",
vou rever cem jornais de cem diretores desconhecidos,
de cem pequenas cidades de minha terra,
onde minha palavra ocupou espaço, pensou, a falou aos
homens e aos corações. . .

Ontem o amigo informou que as 10,30, precisamente
as 10,30, através da emissora que ele pegou, de um Estado qualquer,
uma voz pedia licença e comunicava a mensagem que era minha
mas que caiu como a boa semente, e multiplicou-se pelo ar. . .

Me sinto na Academia
me sinto "imortal",
Não sei bem de que academia
nem sei a que morte me refiro
sei que neste momento me sinto como as crianças
e os animais
para quem a morte não é nem mesmo,
uma palavra que se lê.





" Lembranças "

Me lembro das emoções que experimentei então.
Dos ciúmes do teu decote, das exigências do teu cabelo,
do excessivo rubor de tuas unhas
que tanto me preocupavam, tão vermelhas.


Me lembro do meu domínio e do orgulho do meu domínio
pequeno César de esquina
à espera de que tivesses pronta para o baile.

Me lembro da noite toda de par constante
policiando teus olhos e teus gestos,
captando teus sorrisos em todas as direções...

Era tudo tão tolo, era tudo tão besta, meu amor,
mas que estranha poesia a vida pisou
para nunca mais.





" Lenda "

Para que, meu amor, reavivarmos aquilo
que era um "sonho de amor..." uma "sonata ao luar"? ...
Aquele lago azul da montanha, tranqüilo,
onde, faz muito tempo, encontrei teu olhar...

Para que? Se afinal, vai ficar sem resposta
a pergunta que fiz no reencontro de agora...
...........................................................................................

No meu ombro os teus louros cabelos recosta
deixa ver se ainda encontro o doce olhar de outrora...

Tanta cousa passou . . . Eu nem pensava mais
ser possível, de novo, encontrar-te em meus braços . . .
Tão vaga era a esperança e tudo tão fugaz
que eu ja supunha em vão, tentar seguir teus passos. . .

Sem direito a uma esmola, sem direito a nada,
de longe, acompanhei-to o vulto, imaginando
para outrem, a felicidade tão sonhada,
e que um dia eu deixara fugir. . . nem sei quando. . .

E os anos se passando . . . E eu a dizer baixinho,
(sufocando um amargo a constante desgosto)
- que nunca mais seria meu o teu carinho,
nem nunca mais teria o teu rosto em meu rosto. . .

E de repente, o encontro. . . O inesperado, a vida
que nos chega imprevista a nos transborda as mãos...
E te posso colher em meus braços, vencida
e encher, traço por traço, os pensamentos vãos...

Posso apertar-te a mim. . . posso beijar-te a boca...
Teus cabelos tocar... enlaçar-te a cintura...
Para que, meu amor? Se toda essa ventura
se esboroa e se esvai como uma imagem louca?

Para que, meu amor? Se nos falta a coragem
de reatar toda a história um dia interrompida...
Se terás que me ver, de novo, de passagem,
e eu, te olhar, como se olha a uma desconhecida...

Para que? Mas desculpa a pergunta insistente...
Deixa  que  te  confesse ( é um desabafo  meu )
- toda vez que me vires, vago e indiferente,
pensa, que a te esperar, sepulto intimamente
uma vida que é tua. . . e um coração que é teu...






" Líricas  ( várias )"

Alegria
Há um canto de pássaro no raio de luz
que pousou na janela.

Amor
Acidentalmente a abelha aproximou duas flores
na manhã nupcial.

Brinde
Sirvamos na taça
a palavra e a música

Canto
Um pássaro pousou na palavra e deu asas
ao coração...

Carícia
Foram tuas mãos... ou apenas o sol que saiu de uma nuvem
para tocar-me...

Esperança
A face impassível do espelho
ainda se turva...

Inconstância
Já foi rio, hoje é nuvem... e um dia será
flor...

Inquietação
Não são as ondas, não são os ventos...
Nos rios subterrâneos do meu sangue
há velas brancas, desesperadas...

Melancolia
As nuvens eram duas mãos longas, cada vez mais longas
acariciando o poente.

Oração
Este silêncio... este estranho silêncio que canta
na palavra que brota verde da terra...

Pessimismo
Há estrelas no céu, há vermes na terra,
há algas no mar...
Só eu nasci homem...
Poesia...
... quem me levou a este encontro imprevisto
para uma posse impossível?

Pudor
Escapas, nua, dos meus braços
e vais te vestir no quarto ao lado.

Pureza
Brancos pés de criança vão cantando
sobre abismos...

Sensual
Eram dois bicos de aves
só que tremiam sob o teu vestido...

Tristeza
Uma noite obscura adoece
em teus cabelos...





"Marinha nº. 1"

 Desmancha os meus cabelos, como fazes
quando estamos os dois calmos e em paz,
em vazio colóquio - quando estamos
          como dois barcos quietos... junto ao cais...

Quando deixamos para trás o mar,
mar de impulsos, de sonhos e desejos,
quando o teu corpo é um barco ao meu comando
sacudido de ventos e de harpejos...

Já vencemos, os dois, cantos e vagas,
na aventura das horas dionisíacas,
deslumbrados com os próprios temporais...

Desmancha agora, amor, os meus cabelos,
como fazes nas horas de bonança,
quando somos dois barcos, junto ao cais...




"Marinha nº. 2"

Em teus braços, sou como um barco
desarvorado,
por roteiros perdidos...

E o meu desejo é este vento
que levanta procelas
em teus sentidos...
        
Ah! Morrer assim
como um marinheiro,
e mergulhar, e me afogar...
... e encontrar meu destino e meu fim
em teu corpo de mar...




" Marinha nº. 3 "

Para mim, as ruas, as longas ruas,
são negros conveses imóveis
de um navio encalhado
num estagnado porto


Eu, sou um marinheiro morto.



" Marinha nº. 4 "

Quando a minha cidade levantará ferros
e seguirá pelos mares do mundo ?


Ou terei que me atirar às águas e seguir a braçadas
para as ilhas que me acenam no horizonte?





" Marinha nº. 5 "

Está renascendo está ânsia, que julguei superada
como uma onda na praia,
e ela retorna como uma onda nova, encapelada
sobre o coração.

Esta ânsia de fuga sem tocata, de fuga à fatalidade
prosaica do destino
ao tiro burguês que prostrou de tocaia irremediavelmente o sonho
e que não responderá pelo delito.

Sinto que me atingiram em cheio o peito,
- neste líquido quente
ainda pulsa a vida que vem de dentro como as águas dos "geisers"
revelando o coração da terra.

Cambaleio, como bêbedo, meus olhos estão turvos
como espelhos côncavos,
mas meu espirito paira nítido como a estratosfera
inalcançável às nuvens e as perturbações do mundo.

Está voltando esta ânsia, renascendo como gêmula verde de tronco abatido,
entre os destroços da queimada,
e sinto que ainda ascenderei além das nuvens,
como o pé de feijão da história infantil,
e chegarei à asa do avião que me levara como Flash Gordon
para luas surrealistas.

Nas visões da crise nova, Hong-Kong e coqueirais do Pacifico
se misturam aos cais de Hamburgo e às ladeiras de Montparnasse,
e a morena de Hawaii dança sobre meus joelhos, enquanto minhas mãos
deslizam sobre as ancas da mulher perdida de Anvers...

As arcadas de Leandro Arlen viajam pelo mundo num tango
e ancoram num bar da Broadway, onde um japonês de MacArthur
faz um brinde a América com um trago de vodca.

Não sei onde me levará esta onda que cresce, e só desejo
que haja ainda algum penhasco submerso,
para que ao menos possa acabar como os restos de um naufrágio
dando a alguma praia sem nome.




" Musa "

Foste tu que escolheste a palavra e a entregaste
ao poema.

E lhe deste asas, e coração, e sangue, para romper
o silêncio,
e faiscar como um  cristal descoberto pela luz,
ou como a gota d'água  que a face lisa da pedra
porejou

Foste tu que em meu pensamento escolheste entre
tantas palavras
aquela
que seria eleita - sem explicação -
e alcançaria, quem sabe? - a eternidade do canto.

Foste tua que a transfiguraste.



" Interlúdio "

Há uma estranha ternura, há uma estranha meiguice
na expressão de teu rosto e em teu modo de ser.
Criança e mulher... talvez, ainda ninguém te disse
o que, com o meu olhar, confessei, sem querer...

Teu olhar... esse teu olhar adolescente
onde há um misto de sonho e indeciso desejo,
me perturba e emociona inesperadamente
sempre que em meu caminho, eu te encontre, eu te vejo...

Quando vens para mim, e te sinto ao meu lado
a olhar-me nos olhos, terna, fundamente,
teu coração, - bem vejo, - é um pássaro agitado,
a bater em teu peito, as asas, febrilmente.

Que fazer? E essa dúvida atroz me alucina.
Em teus olhos inquietos, há um clarão qualquer.
Devo deixar passar a criança, a menina,
ou devo transformar a menina em mulher?



" Prelúdio N°.1 "
( Paradoxos )


Perdoa, meu amor...
- na alegria imprevista do reencontro
a nos pertubar ,-
este véu de tristeza, vaga nuvem
em meu olhar...


( O amor é mesmo assim, de paradoxo e extremos...)
Perdoa, meu amor,
só agora que te encontro é que me ponho a pensar
no tempo que perdemos...



" Prelúdio N°.2 ( embriaguez ) "

Ah! encher minhas mãos com os teus cabelos louros
assim... nervoso como me vês...
E tomar tua cabeça, e beber, lentamente,
teus beijos, enternecidamente,
até a embriaguez...




" Prelúdio N°. 3 ( razão da noite )  "

Enchi minhas mãos de sol, com os teus cabelos
e eles escorreram como luz entre os meus dedos...

Agora que tenho as mãos vazias,
compreendo a razão desta noite
em meus dias...


" Prelúdio N°. 4 (  tua boca )  "

Na tua boca entreaberta, úmida, viva
colhi o último suspiro do anjo
que expirava em teus olhos...



" Prelúdio N°. 5 (  desejo )  "

Ao toque de tuas mãos, esse desejo que arde
em minha fronte, com a ardência de um sol de verão
serena
oh! minha amada,
( e é doce e misteriosa essa estranha emoção),
como o instante de sombra fresca e amena
quando uma nuvem cobre o sol, e sopra
na folhagem ressecada
a viração...



" Prelúdio N°. 6 ( tua  lembrança )   "

Ficou tua lembrança...
A lembrança de teus olhos vidrados
semicerrados,
de tua cabeça num gesto de criança
recostada em meu peito,
de teu cabelo desfeito...
(de teus cabelos em ondas de ouro
em teus ombros...)

Ficou tua lembrança
como uma flor azul de pólen de ouro,
a romper imprevistamente, de um modo que ruiu
em escombros...




" Prelúdio N°. 7 "
    ( traição do destino )


Foi traição do destino bipartir nossos rumos
como um caminho frente a uma montanha,
para fazê-los de novo se encontrarem
muito tempo depois...

Para quê ? Se cada um de nós podia ser um
isoladamente,
- se tínhamos que ser dois...

Dois, assim
como as margens de um mesmo caminho
que seguem, lado a lado, paralelamente,
até o fim...




" Prelúdio N°. 8 "
( Era uma vez...)


O último anjo entremostrou-se nos restos
de tua timidez...

E eu te contava uma história:
Era uma vez...



" Prelúdio N°. 9  "
( A eleita )


Que importa, se não és?
Foste e serás a eleita,
a lembrança que foi, e há de ser onde eu for...
Que haja pois, se preciso, a renúncia perfeita
se não pode afinal ser perfeito esse amor...




" Novo Mundo "

Da alta janela
posso ver distante o pouso dos aviões
e em suas asas vislumbro restos de paisagens
esgarçadas pelo vento...
Pedaços de outras cidades, portos que apenas adivinho,

mulheres que me sorririam, e que talvez me amassem,
monumentos, pontes, outras ruas e caminhos
vislumbro aos pedaços, nas asas dos aviões

Enquanto isso, costuro em dez horas regularmente
o meu destino
das 8 às 18 horas...

E, ó ironia! -
leio toda tarde, sobre o edifício em frente
o anuncio luminoso: "Novo Mundo"!



" O Bar "

Tu representaste o bar em minha vida.
O bar onde a gente entra para tomar qualquer coisa
- Uma batida, um vermute, -
para reencontrar uma conversa que revolve em lembranças
um passado inconseqüente.

Um bar que faz parte do nosso caminho, como uma
parada de ônibus num cruzamento movimentado
do itinerário,
e por isso eu venho sempre, a chego, a tomo alguma coisa,
às vezes mesmo, tomo muito mais do que devo, repito as doses
converso demais,
e chego em casa com esse ar de quem esqueceu o presente
em alguma esquina
e pulou direto para o futuro.

Tu representas o bar em minha vida.
Contenta-te em te saberes quase indispensável
e seres uma parada em meu itinerário.




" Oh! A Chuva Chegou ! "

Oh! a chuva chegou! Há que tempo
esperava que a chuva chegasse.
Oh! a terra era um brado de angustia!
Oh! o céu que tristeza, meu Deus!

As estradas andavam às cegas
e os riachos mostravam seus ossos,
duras pedras roliças, polidas,
onde as águas minguavam chorando.

Oh! a chuva chegou! Eis a chuva
a cair pelo espaço e a cantar.
Canta, chuva, que a terra te escuta
e parece dançar de alegria.

Canta, chuva, que as arvores todas
se sacodem felizes, lavando
nessa tua cantiga molhada
suas penas cinzentas de pó.

Oh! a chuva chegou, que beleza!
Há seis meses que a chuva não vinha
e eu que tinha as raízes enxutas
esperava esse dia chegar!


Ougo a chuva cantando, ouço a chuva
e por isso me pus a cantar,
tudo canta molhado, na chuva! ,
tudo canta, molhado, no olhar!

Oh! a chuva chegou! Que alegria!
Oh! a chuva chegou! Vou cantar!




" Paraíso Perdido "

Penso isto: penso que devemos fugir para nos mesmos.
Nao são apenas os amigos que nos levam sem reação,
são os cinemas, os teatros, as horas que perdemos nas ruas
quando nosso quarto se fecha silencioso, sem tempo
e esperanças.

Não são apenas as horas que o trabalho me rouba
inapelavelmente, e que não me serão devolvidas.

É a nossa vida, feita sem tempo e de desencontros,
sem pausa para a criação, sem paz para o recolhimento,
sem silêncio para o pensamento, sempre ininterrupta,
passando por nós, enquanto nos deixamos ficar sem alcançá-la...

Penso isto : só a fuga para nos mesmos seria a salvação.
Conheço um amigo pintor que se encontrou em Itatiaia
e ouve o canto dos pássaros e das águas junto às Agulhas Negras.

Meu amor: sinto que vamos chegando à hora em que
devemos voltar ao Paraíso,
ou jamais o reconquistaremos.




" Passando... "

E a minha vida vai passando...
Percebo isto de repente, dentro de casa, num sábado à noite,
o radio esta rememorando Noel Rosa,
"o poeta do samba".

Ha um problema: aonde ir? ao cinema?
Ou talvez à casa do parente que mora aqui adiante
onde a televisão ja ingressou.

Talvez seja a noite fria de julho, esta sala fechada,
enquanto espero minha mulher que se veste,
mas percebo, de repente, que a minha vida vai passando...
passando apenas. . . irremediavelmente passando...

E nem um gesto meu de coragem para a salvar...
Nada . . . e a vida passando... que fazer? passando...

Nem mesmo qualquer vaga emoção que esta palavra - vida!
podia sugerir ...




" Pausa "

Tinha vontade de nesta curva, parar um pouco e te dizer:
vamos olhar para trás, vamos ver a paisagem que possuímos,
o caminho que fugiu de nossos pés
e na pausa, retocar o quadro que parece se esvair
se não lhe dermos novas tintas com as nossas lembranças.

Temos andado demais, despercebidos de nos mesmos e de tudo,
desprezamos as emoções que já, encheram tantas horas
e uma sensação de vazio nos vai tomando pelas mãos
e vai chegando ao coração
como um hálito frio.

Vamos para de conversar. Tenho certeza de que
ao falarmos sobre nós mesmos
revolveremos o calor que permanece e reencontraremos
o prazer
que nos tem abandonado, neste mundo tão cheio de gente
desnecessária e prejudicial ao nosso sonho.

Quem como nós tanto andou e de tão longe vem
repartindo o mesmo sonho
traz certamente no coração o destino da eternidade.




" Poema Bilioso "

O fígado
- esse infame policial - não me entrega o passaporte
para as viagens que eu realizaria...

E me obriga, como um condenado, escutar , dia após dia,
meus entediados passos sem saída no pátio do presídio

Apenas, vez em quando, uma espiadela sobre os altos muros
um rápido olhar para vida distante
onde os homens e as mulheres sonham e se confundem...

Em vão tenho tentando a fuga, ele está sempre presente
e me derruba como um policial a cada nova tentativa...

Ah! não ter fígado!
ter o mundo do ao alcance do sonho,
em doze doses de uísque...



" Por Quê ? "

Por que não hei de colher a flor e o fruto
com uma só mão ?

Por que sempre este duplo gesto, no destino
das coisas bipartidas, se sou um só
e se és uma somente...

Por que serás a flor, hoje serás a flor,
e hei de colher o fruto noutro corpo
que nunca foi botão ?

Ah! se fosses flor e fruto, como outrora,
para que pudesse te colher como dantes
com o mesmo gesto fiel, e a mesma ânsia...



" Presença de Meu Pai "

É tudo imprevisto. De repente, sinto meu pai em mim.
Este jeito de debruçar na janela
era o dele,
e era o dele este ar pensativo que tomei,
e este pigarro, que até minha mãe reconhece,
era o dele, bem sei.

É tudo cousa de um segundo: meu pai esta em mim.
Esta pensando, esta debruçado na janela,
esta no gesto involuntário em que se trai
na entonação da minha voz.

Esta presente. E eu o vejo, e o sinto - estranhamente
e compreendo, de repente, entre surpreso e o incrédulo,
que as vezes, eu sou ele, e em verdade sempre nos encontramos
no meu gesto, no meu riso, na minha voz,
em algum estranho segundo,
a sós.




" Quadra "

Paradoxal, asseguro,
pode ser que esteja errado...
Que pode haver de mais puro
que a humildade do pecado?




" Resina "

Hoje acordei incivilizado, e escreveria um poema reacionário
contra as máquinas e contra o progresso.

Nesta manhã dourada de setembro, enquanto o ônibus me leva,
vejo apenas as árvores que correm como crianças à minha passagem,
e o céu, coo um sonho adolescente, sem manchas de desejos.

Estes estranhos animais que me cercam, a que bufam,
e que fazem estranhos ruídos,
perturbam a serenidade do meu coração,
que hoje sinto, como uma orquídea pendurada no alto ramo,
na entre-sombra luminosa da mata exalando o perfume
da noite que se evolou.

Hoje, meus ouvidos compreenderiam o canto dos pássaros,
adivinhariam a linguagem instintiva
dos animais felizes que nunca atingirão a consciência
da vida e da morte.

Meus olhos quedariam deslumbrados diante do tronco
que um raio de sol transformou numa palheta de verdes imprevistos,
quedariam encantados diante da mesma água imemorial,
a me surpreender sempre com a sua pureza
que as pedras e a terra não perturbam.

Desejaria encontrar-me em colóquio com as coisas
e tenho a vaga impressão
o pressentimento estranho,
de que hoje, seria capaz de desvendar o mistério,
e penetrar com a minha ignorância o segredo da beleza
inacessível a toda ciência.

Hoje me sinto assim, descoberto, como o cerne
de um madeiro exposto ao sol
intempestivamente,
pelo gume do machado que o abateu na floresta,

e esta resina que escorre, silenciosa a hialina
é a poesia surpreendida em sua sombra e em sua força
extravasando o coração da terra.




" Salvamento "

Há muito cheguei a esta conclusão antipoética:
ou por a bomba debaixo do trilho
ou aceitar a apólice de capitalização.

Há de parecer estranho, mas cansei de colher a flor
na mesa do café,
acompanhamento da média ou do chope.
Cansei de ouvir o sonho em gravação
nos discos de meus poemas
frustrados.

Abri a minha "Companhia de Capitalização".
Renunciei à bomba, sob o trilho, abandonei os cafés
e tentarei, como Camões, salvar o poema
do naufrágio...



" Sem Resposta... "

Vale a pena viver ? Quantas vezes nos surpreendemos
na queda
dentro da pergunta prosaica.

E no entanto somos felizes.
E no entanto lançamos nossos galhos para o céu
com frutos, flores e espinhos.
e mergulhamos no chão com segurança
nossas raízes...

Que perguntarão diante da vida, nesses momentos
os infelizes?




" Solilóquio "

A poesia chega forte como uma hemoptise.
Mancha de vermelho o papel  e se transforma em palavra.
Vem em golfadas, depois de longos períodos de ausência.
Rompe a inércia, abruptamente, como um objeto
solto no ar!

Oh! a ânsia de não poder contê-la tantas vezes nas palavras,
vê-la desperdiçar-se, fugir, entranhar-se no chão,
como a água da chuva em terra seca.

Pequeninas e insignificantes taças são as palavras
de que disponho para servir meu pensamento.
Meu Deus!
como hei de conseguir conter nestas taças pequeninas,
feias e opacas, a torrente sonora e clara que não para,
que me afoga?




" Teatro "

Na "boite" pintada como uma marafona vulgar
encontrei a paisagem que procurava
falsa, coo um pepino em um vidro de conserva.

E já era tarde demais para tão pouco
representar um papel que era o da minha vida
perdida:

um drama de Shakespeare
num palco de guignol !




"Tragédia"
Deveríamos ter dito - há quantos anos?
- agora que nos amamos, podemos separar-nos
para que subsista o amor.

Mas não poderíamos adivinhar que fracionaríamos o amor
toda vez que nossas mãos se encontrassem,
e que o mutilaríamos, ao juntar nossas bocas,
e realmente o abateríamos a pouco e pouco, a cada síncope de prazer
no delírio da posse.

Deveríamos ter dito um ao outro - há quantos anos?
- agora que encontramos o amor, permaneçamos em solidão
anjos da guarda de nosso sonho -
e que ninguém o toque, nem nós mesmos, pois nossos desejos perdulários
e nossas ânsias dionisíacas
o levarão à perdição.

Tivemos um Paraíso - há quantos anos?
Hoje caminhamos indecisos, com um gosto amargo nos lábios,
- acidulou-se o fruto que era mel -
E a solução talvez seja um canto e um balaio gregos
em que o amor será uma oferenda, imolado
aos deuses
por nossas próprias mãos!


" Trovas de Amor "


Na despedida, com pressa,
escrever me prometeste. . .
Esqueceste da promessa
ou apenas me esqueceste?

Por ironia maior
sorriste do meu desgosto,
e sepultaste este amor
nas covinhas do teu rosto...

No carnaval de verdade
da Vida, nao tenho nada . . .
Quem dera a Felicidade
nem que fosse mascarada . . .

Fui tudo para este amor
belo, puro, cruel, devasso,
- fui Pirata, fui Pierrot,
fui Arlequim, fui Palhaço . . .

Amor que pintou o sete
e em Carnaval se resume . . .
Foram meus beijos: confeti!
Seus beijos: lama-perfume...

Trata-me apenas por tu
se estamos juntos e a sós . . .
Não ponhas este "senhor"
tão importuno entre nos . . .

Definir a eternidade
é fácil, já a defini. . .
É o instante de saudade
que eu vivo longe de ti...

Tu de Escrava, eu de Senhor,
- eis as nossas fantasias...
E eu, o escravo deste amor
fui seu Senhor alguns dias...

Amor que tudo promete
falso amor das Colombinas . . .
Beijos mais beijos: confeti!
Baraços de serpentinas...

Fantasia eu próprio sou
e há um contraste dentro em mim:
- carrego um velho Pierrot
num atrevido Arlequim . . .

O Maria, concebida
para ser o meu pecado . . .
Nos teus braços, minha vida
é um barco desarvorado . . .

A essa Maria que passa
minha oração já compus:
- Maria cheia de graça !
- Maria cheia de luz!

Dosado, o ciúme é o tempero
que a afeição da mais sabor,
mas se chega ao exagero
é o pior veneno do amor!

Deus pôs no céu três Marias
na mesma constelação,
e na noite de meus dias
mais três, no meu coração.. .

Eis como defino o ciúme
que tanto nos faz sofrer:
- corte de arma cujo game
corta fino... e fica a arder...

Que nao houve antes de mim
outro qualquer me garantes,
mas se amas tão bem assim
como saber o que houve antes?

Este amor nunca se apaga,
é chama que me incendeia,
é espuma a florir na vaga,
é vaga a brincar na areia...

Explica-me tu, querida,
este absurdo, por favor:
- Ser Senhor da tua vida
e escravo do teu amor?!

São céus e abismos profundos
nem eu posso descreve-los:
mergulho em teus olhos fundos
e me afogo em tens cabelos!

Não há remédio: estou doente!
É doença este amor por ti . . .
Não to esqueço, e justamente
por pensar que te esqueci...

Louco de amor, te busquei,
e ao te encontrar, percebi,
- que não fui eu que to achei,
eu, sim . . . é que me perdi . . .

Moeda de estranho valor
que o coração faz cunhar,
quanto mais se gasta, o amor,
mais se tem para gastar . . .

Esquece, amor, meus pecados,
tu me disseste a sorrir,
se nos meus olhos cerrados
só tu me podes possuir . . .

Disto, a ninguém deu a palma:
- eu te conheço melhor . . .
Desnudei-te o corpo, a alma,
sei-te, inteirinha, de cor . . .

Antes verdade isto fosse
dizer que não penso em ti...
Mas basta ver-te, e acabou-se!
Me esqueço que te esqueci...

Louco, aumento esta saudade
aqui, sozinho, a sofrer,
só pra poder ter vontade
de voltar para te ver...

Como que tonta, indecisa,
presa aos bicos dos teus seios,
a tua própria camisa
parece que tem receios . . .


Como o quadro na moldura
como a rosa no botão,
em Deus na criatura
- estas no meu coração.

Rosas tolas, tão vaidosas,
que em belas hastes vicejam...
Vem amor, olha estas rosas,
quero que as rosas to vejam...

Que há de ser esse teu nome
que repito sem querer?
- Substantivo, Pronome,
ou Verbo do meu viver?

Se me amas com tal ardor
e te dizes amadora,
com certeza, meu amor,
já nasceste professora...

E eis a suprema ironia
ao meu coração ferido:
- tu foste trair-me um dia,
mas com quem? . . . com teu marido !

Ontem, de amor tu morrias,
e agora, te sentes farta . . .
A saudade que sentias
só mata no fim de carta . . .

Em contrição te contemplo
deusa a quem vou adorar:
- meu coração é o teu templo;
meu amor, o teu altar!

Quis tornar-me um trovador
para dizer que ela é minha,
mas tudo em vao, - meu amor
não coube numa quadrinha.

Quem espera, desespera . . .
Quem espera, sempre alcança . . .
- Ah, meu amor, quem me dera
esperar... tendo esperança!

Vossos olhos são tão verdes
de um verde-mar furta-cor,
que afinal, por me perderdes
fiquei perdido de amor.

Resta um consolo: pensar
no amor que juntos colhemos . . .
Nem Deus nos pode tirar
aquilo que já vivemos!

Marias que não tem fim ...
. . . das Dores, do Ó, do Socorro . . .
A que diz morrer por mim
e a Maria por quem morro . . .

Eis uma flor que em meu peito
mudou de espécie, em verdade:
era amor... Amor-perfeito,  
e acabou sendo Saudade...

O trovador! Professor
de poesia popular!
Com suas trovas de amor
o povo aprende a cantar!

Sejam de amor ou saudade
de tristeza ou de alegria,
as trovas são na verdade
o ABC da poesia!

Ó meu amor, por quem choro
louco e cego de desejo...
Quanto mais louco, te adoro!
Quanto mais cego, te vejo !

Ah, saudade! Se te pego
me vingo sem compaixão !
Dou-te esta dor que carrego
sozinho no coração!

Vi teu retrato . . . Revivo
um velho amor que foi meu . . .
A saudade é um negativo
de foto, que se perdeu . . .

Foi um amor de verdade,
sei agora, ao ver a flor,
- pois esta flor - a saudade -
só nasce em cova de amor . . .

Teus seios são luas cheias
são ondas de um doce mar,
parecem feitos de areias
nas noites brancas de luar...

Longe o amor, quem pode amar?
Tudo é inquietude, aflição . . .
A saudade e a falta de ar
asfixiando o coração . . .

Maria Clara, Maria dos Anjos, da Conceigao... E aquela que eu chamaria Maria do coragao. . .
Por duas Maria erra
meu viver de déo em déo . . .
A que me perde, na terra,
a que me salva, no céu. . .

Ha tantas Marias, tantas,
que quantas há eu nem sei. . .
Sei que há belas, feias, santas, . . .
...e a Maria que eu amei. . .

Ó Marias . . . Repetidas
simbolizais a mulher,
se há sempre nas nossas vidas
uma Maria qualquer . . .

Deslumbrada, com certeza,
a tua própria camisa
ao descobrir-to a beleza
para um momento, indecisa . . .

A camisa, - quem diria?
parece que também sente,
e ao descer, te acaricia
em dobras, bem lentamente . . .

Belos e cheios, marcados
por teu decote adivinho
teus seios aconchegados
como dois pombos num ninho . . .

Teus seios nus me entontecem
se os tento em vão dominar. . .
- São como o vento!... a eles crescem!
- São como as ondas do mar!

No peito dos marinheiros
nasceu, cresceu, emigrou...
Mas nos porões dos "negreiros"
foi que a saudade. . . chorou!

"Matar saudades..." querida
é uma expressão tão somente,
pois em verdade, na vida,
saudade é que mata a gente...

Sempre fiel e verdadeira
vigia da nossa dor,
saudade! companheira
dos solitários do amor...

Misto de pranto e alegria,
sol e chuva, sonho e dor,
a saudade é o sol num dia
de chuva, - no nosso amor...

Meu "terço" feito de trovas
que em versos fico a compor,
com ele "rezo" e dou provas
de meu culto ao teu amor...



" Uma Janela "

Que ao menos uma janela abrisse para o céu
onde os saveiros tatuassem seus mastros, suas velas
e a fumaça das chaminés desse o tom necessário.

E que à noite houvesse um tango sem pátria
e se ouvisse a Internacional no porre dos marinheiros...
e as mulheres passassem pela rua, displicentes, as mulheres
e os cachorros...

Que ao menos uma janela não batesse suas asas
contra a parede dos fundos de um outro apartamento...





" Uma Janela "

Que ao menos uma janela abrisse para o céu
onde os saveiros tatuassem seus mastros, suas velas
e a fumaça das chaminés desse o tom necessário.

E que à noite houvesse um tango sem pátria
e se ouvisse a Internacional no porre dos marinheiros...
e as mulheres passassem pela rua, displicentes, as mulheres
e os cachorros...

Que ao menos uma janela não batesse suas asas
contra a parede dos fundos de um outro apartamento...




" Viajante "

Sou assim
oscilo como um pêndulo, entre a aventura
que o tempo vai frustrando
e que a imaginação transfere, para onde? para quando?
- e o amor pelo recanto anônimo de minha casa
onde meus livros me cercam todos os dias, e onde todas as coisas
tem gestos de aconchego à minha entrada.

Oscila, entre o ímpeto marinheiro que a vida não destruiu
e o tempo não dominou,
de abrir velas e partir , para onde? para onde?
- e os momentos em que a pausa é um tóxico invencível
e me entrego à raízes, ao chão onde me encontro, e me deito
satisfeito de olhar o mesmo céu.

Oscilo entre o sonho que a imaginação leva,
na sensação de partidas que nunca se deram
e a emoção da chegada, de uma estranha chegada
que encerra alegrias indizíveis
sem que nunca tenha partido...

Na realidade, estou sempre chegando...
por isto, esta alegria
do encontro com a paisagem cotidiana,
- mas como gostaria de chegar realmente
e como seriam as coisas no momento em que voltasse ?

Na realidade, estou sempre chegando,
mas como gostaria de partir realmente...



 " Vício "

Tu nunca bates no meu pensamento à hora de entrar.
Chegas de repente, invade tudo, e é impossível te expulsar
por  que já sou eu que te procuro.

Não escolhes momento. É na hora séria ou na hora triste,
na hora romântica, ou na hora de tédio
por mais que me encontres fechado em mim mesmo
entras pelo pensamento, - clara fresta, vulnerável
às lembranças do teu desejo.

E quando chegas assim, estremeço até regiões ignoradas
e me levanto, e saio, sonâmbulo, a te buscar
e a caminhar a esmo ...

Chegas - como uma crise a um asmático, - e então
preciso de ti
como preciso de ar,
e tenho a impressão de que se não te alcanço, se não
te encontro,
vou morrer, miserável, como um transeunte nas ruas,
antes que o socorro chegue para salvá-lo ...

Depois que consegues atingir meu pensamento
tua posse é uma obsessão,
alcançar-te é um suplício ...
Teu amor para mim - é humilhante a confissão.
não é amor, é vício ...


" Zero "

Neste momento, eu nada devia dizer, sinto que a palavra
virá amarga e sem anseio.

Está certo que vou melhorando, estou vendo a minha sala
o bar de espelhos oferecendo doses de esquecimento.
Talvez que se acedesse ao seu apelo
a palavra viesse leve e sinfonada, como um uísque com soda.

Mas estou sentado aqui, e neste momento
não compreendo nada,
não sei porque tanto esforço e tanto trabalho,
para que tapete no chão, quadro na parede, vitrola recheada
de música.

Sinto-me assim, de repente, como um marinheiro no bar
do centésimo porto
quando surge a terrível interrogação:
afinal, qual a diferença entre o mar e a terra?
qual a diferença entre o convés e o bar?

Estranho este momento, em que oscilamos numa corda
sobre o abismo
como se seguíssemos por um largo caminho monótono,
sem a vertigem da altura que tanto nos perseguiu.


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