quarta-feira, 21 de setembro de 2011

HUMBERTO DE CAMPOS - MEMÓRIAS 1


MEUS ANTEPASSADOS


NADA é mais difícil no Brasil do que estabelecer as origens de uma família burguesa ou supostamente aristocrática, tentando desenhar, na botânica das vaidades, uma árvore genealógica. O que possuímos nesse sentido assenta, exclusivamente, sobre hipóteses. E eu, voltando-me neste momento para o Passado, sem ascendentes que me orientem e elucidem, não me podia sentir em menores dificuldades. Prefiro confessar a ignorância a recorrer à fantasia.
Que espécie de sangue circula e prevalece nas minhas veias? Português? Espanhol? Tupinambá? Ou africano? Os meus antepassados preponderantes vieram depois de Cabral, com as suas velas borboleteando nas ondas, ou já aqui se encontravam, a flecha em punho, o dente aguçado, animados de instintos sanguinários, devorando os seus semelhantes? Combati com a mão deles em Aljubarrota, matei panteras no areal, ou esperei de cócoras, dias inteiros, no refúgio da sumaumeira monstruosa, o tapir ou o índio adversário?

As informações que tenho dão-me direito a vaidades de europeu. Minha avó materna era filha de mãe brasileira e pai português. Pertencia este à família Bruzaca de que usava o nome. Um dos irmãos de minha avó, nascido no Brasil, emigrou para a África, onde fez fortuna artificial e filhos naturais. Ao falecer em 1870 ou vizinhança desse ano, os parentes de Miritiba mandaram à ilha de São Tomé um representante, para assistir ao inventário. Esse emissário voltou trazendo um açucareiro e algumas colheres de prata. Mas a viagem fora, parece, proveitosa a esse procurador, o qual, confirmando o epigrama bocageano, pouco depois do regresso começava a prosperar, construindo uma casa e comprando uma fazenda de gado com alguns sólidos patacões portugueses. Descende, talvez, desse parente remoto e benemérito um poeta africano de nome Bruzaca, que eu encontrava, às vezes, nos meus inícios literários, assinando sonetos, no Almanaque de lembranças, e no Almanaque das senhoras, de Portugal. O mesmo sangue, infiltrado em veias de negros ou de caboclos, ou de portugueses acaboclados pelo ambiente, dava, sob climas diversos, os mesmos frutos de alma e coração. Sob o meu cabelo duro, ou sob a carapinha do meu primo desconhecido, diluía-se ele na névoa dos mesmos sonhos.


Meu avô materno chegou a Miritiba, no Maranhão, vindo de Viana, no norte da Província. Era Oliveira Campos e, pela profissão e nome, devia ser, igualmente, de origem lusitana. Ligava-se, pelo sangue, às principais famílias da região de onde provinha, mas ignoro em que época os seus maiores se fixaram no Brasil. Um dos ramos de que descendia tomou o nome de Conduru, nas campanhas jacobinas pela manutenção da independência nacional, havendo um parente seu que, com esse nome, publicou uma gramática. Professor público, transmitiu os seus honrados e modestos conhecimentos, com o talhe da sua letra, a todos os meninos e meninas da vila em que exerceu o magistério. E a ideia que eu tenho dele, pelas reminiscências de minha mãe, é que era um homem pequeno, miúdo, metódico, manso, e calado. Minha avó, que se chamava Malvina, teve treze filhos, morrendo no parto do último, que, por isso, tomou o nome de Benjamin. Meu avô, de nome Manuel, assumiu o comando da casa e da tribo. Poucos anos depois, porém, sentindo indisposições de estômago, mandou vir do Maranhão um purgativo, em pó. Chegado o remédio, tomou-o. E vinte horas depois morria, deixando nos filhos e na vila a convicção de que fora envenenado por uma troca de medicamentos. Morrera mansamente, como vivera. Deixou na memória da família a recordação que deixam os santos no seu tranquilo trânsito pela terra. Ninguém soube, jamais, se ele sabia queixar-se ou gemer.

Sobre os ascendentes de meu pai, as minhas pesquisas não são mais seguras, embora alcancem um pouco mais longe. No segundo quartel do século passado, chegaram a Pernambuco, procedentes de Portugal, cinco irmãos Veras, os quais, após se terem estabelecido no Recife – onde até há pouco existia o Beco dos Veras, no centro da cidade –, se dispersaram pelo país, como os filhos de Noé depois da confusão em Babel: dois ficaram, parece, em Pernambuco mesmo; um foi para o Rio Grande do Norte; outro fixou residência em Caxias, no Maranhão, onde deixou entre os descendentes o dramaturgo Colaço Veras; e outro foi ter à Tutóia, na mesma Província, casando-se aí na família Gomes de Almeida, que possuía, na região, importantes propriedades rurais. Este último, que se chamava Joaquim, foi o meu avô, pai do meu pai.
Como se teria formado, porém, a família, na outra margem do Atlântico? Veras será um prenome ou um patronímico? Provirá do latim Verus, ou do prenome russo Vera, que corresponde ao da primeira das virtudes teológicas?


As probabilidades são, todas, em favor da primeira hipótese. Segundo se lê no Ementário luso-brasileiro de José de Sousa Menezes, o prenome Vera não era conhecido em Portugal antes de 1860, ano em que foi batizada, ali, com esse nome, a primeira criança. É verdade que, no século XVII, já existia na Argentina, vinda da Espanha, uma família Vera. A esposa do poeta cordovês Luis de Tejada, que fundou no Rio da Prata um convento à sua própria custa, chamava-se Francisca de Vera (Ricardo Rojas, La literatura argentina, v. VIII, p. 771, ed. 1925). Mas é verdade, também, que essa família pode ser perfeitamente de procedência portuguesa. Inocêncio Francisco da Silva, no seu Dicionário biográfico, dá notícia de Álvaro Ferreira de Vera, nascido, provavelmente, nos últimos decênios do século XVI. Natural de Lisboa, Ferreira de Vera escreveu e publicou aí, em 1631, duas obras consideráveis: Origem da nobreza política, brasão d’armas e apelidos, cargos e títulos nobres, e Ortografia ou modo de escrever certo na língua portuguesa, aproveitando, neste último trabalho, “a muita semelhança, que tem a língua portuguesa com a latina”. Achando-se em Madri quando se deu, em 1640, a restauração do trono em Portugal, recusou-se a reconhecer a autoridade real do Duque de Bragança, preferindo permanecer na Espanha, sob a proteção de Filipe IV. Em 1647, informa Inocêncio, ainda vivia ele na corte espanhola. E como a viúva de Luis de Tejada chegou à Argentina em 1667, é provável que se trate de uma descendente, possivelmente filha, do lexicólogo português.


A circunstância de ser o prenome Álvaro um dos mais comuns na família Veras, a ponto de ser encontrado em todas as suas gerações brasileiras, fortalece a suspeita dessa origem, isto é, de que os Veras procedem, ou têm sangue, daquele Álvaro Ferreira de Vera, da informação de Inocêncio. Não deixa de ser, todavia, interessante, que essas dúvidas se levantem, precisamente, no espírito de um descendente possível do homem
que escreveu, para evitá-las, um tratado genealógico. E quem nos dirá se os Veras não pluralizaram esse apelido já em terras do Brasil, por terem emigrado em grupo, e vivido inicialmente reunidos, como se verifica pela nomenclatura do beco do Recife, e por informações obtidas há vinte anos por alguns membros da nossa família, dos seus mais antigos moradores?

Homem empreendedor e inteligente, meu avô conseguiu, em pouco tempo, uma pequena fortuna, em gado, terras de cana, escravos e filhos. Destes, teve doze – como Jacó – sendo dez homens e duas mulheres. Ao falecer, um seu empregado e amigo, português também, de nome Farias, casou com a viúva, com as terras, o gado e os escravos. E desbaratou o que pôde, deixando, ao morrer, a prole do outro na mais elogiável pobreza. Conta-se que esse padrasto de meu pai despertava os enteados, pela madrugada, aos pontapés, mandando-os para os trabalhos da roça. E por lembrança da sua pessoa, por não ter filhos dessa união, deixou no nome dos filhos que minha avó tivera do primeiro matrimônio o seu próprio nome. Daí o nome de meu pai: Joaquim Gomes de Farias Veras. Esse intruso, como se vê, bebeu a água e cuspiu no poço. Morreu tragicamente. Tendo ido a Parnaíba em uma canoa a remos tripulada por escravos, teve aí uma discussão com um filho do coronel Simplício Dias da Silva, homem riquíssimo, senhor da Casa Grande, originando-se a desinteligência numa questão de política ou de mulheres. Farias, perseguido, corre para a sua canoa e sobe o rio Igaraçu, a fim de alcançar a sua propriedade, no delta parnaibano. O inimigo tripula também uma embarcação do mesmo gênero, e sai-lhe no encalço. Cada um leva a sua dúzia de negros robustos, prontos a morrer pelo amo. As duas canoas correm a noite toda, arrebatadas pelos remos dos negros. Ao amanhecer, alcança o português Farias o porto do seu engenho. Ao deitar, porém, o pé na terra firme, a canoa da Casa Grande vem abordando a sua. Um tiro de mosquete derruba-o na praia. Os escravos cercam o corpo do senhor. E trava-se o combate entre os dois grupos de pretos, que se exterminam a faca, e que não cessam a luta senão quando não há mais, do grupo dos perseguidos, ninguém para matar.

Meu avô Joaquim, segundo tradição corrente na região em que viveu, era um rapagão alegre e louro, com ares e hábitos de fidalgo jovial. Metido na sua jaqueta de veludo lusitano, punha nos bolsos desta pequenas moedas de ouro que deviam cair quando ele sapateava. E as moças curvavam-se, sôfregas e contentes, em torno dele, quando ele, o braço erguido, à espanhola, dançava nas salas ou nos terreiros enluarados, nas festas à maneira do Brasil, ou do Reino. Não sei se foi ele, ou se um parente de minha avó, que teve um ataque de catalepsia, e foi enterrado em uma velha capela particular, na Tutóia. O que sei é que ao exumar-lhe, anos depois, os ossos, encontraram o esqueleto retorcido no caixão. A sua sombra percorre, ainda hoje, as regiões onde viveu feliz, perseguindo as sombras daqueles que o sepultaram em vida.


Por esse retrospecto vê-se que, ao contrário do que eu desejara, o meu sangue é, quase todo, se não todo, de origem portuguesa. Nobre ou vilão, ele vem de lá. Se há alguma colaboração do bugre, ela se fez sentir por intermédio da minha bisavó materna, que nasceu no Brasil. Minha avó Malvina apresentava, porém, um claro tipo europeu. Os Veras, irmãos de meu pai, eram, todos, muito louros, patenteando, mesmo, alguns, o tipo de europeu do norte. De modo que, somando todos esses fatores, e especialmente as qualidades negativas, que me caracterizam, eu chego à seguinte conclusão: sou, física, moral e intelectualmente, o produto de quatro ou cinco famílias portuguesas que o tempo e o meio vêm debilitando, e que se aclimatou, sem se integrar, no ambiente americano.


Isso explica, talvez, as tendências disciplinadas e disciplinadoras do meu espírito, a minha paixão pela ordem clássica, e a feição puramente europeia do meu gosto. Tenho horror à insubmissão e à desordem, que assinalam os homens cujos antepassados foram escravos.


Vibram automaticamente, no meu sangue e nos meus nervos, oito séculos de civilização.


DINDINHA


DOS MEUS avós paternos e maternos, foi o único que eu conheci. Era mãe de meu pai, e chamava-se Emídia. Mas todos nós, seus netos, lhe dávamos o tratamento de Dindinha.
Conheci-a em 1893, ao chegar, pequeno e órfão, a Parnaíba. Era uma velha gorda, limpa, alegre e branca. Dava aquela impressão que Fialho de Almeida tivera diante de outra figura feminina, de uma honrada senhora esculpida em toucinho. Estando com todos os filhos sobreviventes em boas condições de fortuna, tinha vida farta e sossegada. Vivia, por esse tempo, com meu tio Emídio, cuja família a tratava com desvelo e carinho. Todos os dias meu tio Feliciano e meu tio Franklin, já encanecidos, iam vê-la e pedir-lhe a bênção. Morava em um quarto espaçoso, que se comunicava com a sala de jantar. Deitada em uma rede branca e de varandas largas, conservava sempre ao lado, armada paralelamente, outra rede, destinada à neta, ou cria caseira, que lhe fazia companhia. O seu maior encanto era escutar a leitura de romances, feita pelas pessoas da casa. Interessava-se pelos personagens dos dramas, como se fossem gente do seu conhecimento e da sua amizade. E assim era que, à custa dos olhos alheios, conhecia quase toda a obra, até então editada, e traduzida, de Júlio Verne, de Ponson, de Escrich, de Alexandre Dumas, de Richebourg, de Adolphe Melot. O seu quarto era, por isso mesmo, um pequeno centro literário, povoado de sombras felizes ou desgraçadas, saídas de romances líricos ou tormentosos, e cuja existência era ali comentada e discutida. Isso atraía as netas já moças, ou pouco mais que meninas, que se alternavam na leitura, transmitindo umas às outras o assunto do capítulo porventura lido na sua ausência.


Nós, os netos pequenos, tínhamos, também, uma atração especialíssima naquele quarto em que a velhice aguardava a mansa visita da morte. É que os meus tios levavam sempre, para a velha mãe, frutas e guloseimas, que ela não raro distribuía pelos visitantes miúdos. Foi ali, no seu quarto, que travei relações com a doce e tenra marmelada portuguesa, que vinha em pequeninas latas redondas, e que era partida em talhadas flexíveis e morenas. Essa marmelada, e algumas frutas, levavam-me a tomar a bênção à pesada senhora duas e, não raro, três vezes por dia.



Não me lembro se, além dessas manifestações de prodigalidade que me seduziam, essa minha avó me dava a mim, seu neto órfão, outra demonstração de carinho. Parece-me que não. Minha memória infantil guardou, apenas, a lembrança da sua figura, do seu quarto, dos seus romances e da sua marmelada. Depois, só me recordo que, indo um dia, à tarde, à casa de meu tio Emídio, encontrei-a com as janelas todas abertas e, na sala, um grande caixão preto, com enfeites de galão dourado. Não havia lágrimas nem soluços. Apenas tristeza, e conversas em voz baixa. Meu tio, vestido de preto, espalhava pela sala e pelos compartimentos próximos uma esquisita mistura de aguarrás e ácido fênico, destinada, parece, a disfarçar o mau cheiro do corpo em decomposição.


Não sei de que morreu, nem como. Parece-me, porém, que foi do coração. Eu tinha oito anos e no cérebro não cabia tudo. Sei, apenas, e com certeza, que, a mandado de minha mãe, fui me sentar na pedra da calçada e que, metido na minha roupinha nova, olhava dali com uma superioridade orgulhosa os meninos do sr. Antônio Martins Ribeiro, morador da casa fronteira, os quais deviam estar com enorme inveja de mim, pois a avó que tinha morrido era a minha, e não a deles.


E assim foi que, embora por pouco tempo, eu tive uma avó.


MEU PAI


QUANDO meu pai morreu, eu tinha seis anos e vinte e dois dias. Mas lembro-me, ainda, perfeitamente, dos seus modos e da sua figura.
Era um homem de estatura acima de mediana, ágil, airoso e elegante. Claro e corado, olhos azuis, cabeleira farta e ondulada, de ouro queimado, quase vermelha; bigode da mesma cor; e umas suíças baixas, que lhe chegavam até ao meio da face. Olhando neste momento o retrato que dele me resta, encontro, entre a sua fisionomia e a de Pedro I, curiosa semelhança. Apenas, em meu pai, os traços são mais finos, graciosos e corretos: o nariz bem feito, e sem as bochechas do primeiro Imperador. Um belo tipo de homem, em suma, no porte e nas linhas – ideia que me é confirmada pelas pessoas que o conheceram.

Guapo, alegre, sempre disposto e em movimento, era o que se chama hoje um tipo esportivo. Bom cavaleiro, fazia constantemente viagens de centenas de léguas, em que consumia semanas ou meses, comprando gado e cereais que exportava para São Luís. Quando permanecia em Miritiba, saía, quase todas as manhãs, em cavalos fogosos e inquietos, nos quais gostava de experimentar a sua destreza arrogante e jovial. Quando eu nasci, tinha ele vinte e nove anos; e trinta e cinco quando morreu, pois que havia nascido em 1857. Na sua casa comercial, jamais saía do interior do estabelecimento pela portinhola a isso destinada: espalmava a mão na tábua do balcão, e saltava por cima com extrema agilidade.


A sua figura me vem à lembrança, hoje, apenas em meia dúzia de quadros, que a memória fixou com tintas claras e precisas, sobre fundo brumoso. Vejo-o, primeiro, em nossa casa antiga, apeando-se do cavalo, o chicote na mão, entrando pelo pequeno jardim que há ao lado, e em que floresce grande roseira, todo-o-ano, sempre enfeitada de rosas. Eu e minha irmã – eu com quatro anos ou cinco, ela com dois ou três – montamos cada um o seu cavalo humano: ela, a negra Bárbara, a sua Babu; eu, a negra Antônia – amas de nós ambos. Entrando no jardim, e encontrando as pretas de quatro pés, e nós montados, meu pai descarregava alegremente o seu chicote sobre as nossas cavalgaduras, que logo se erguem e disparam na carreira, arrebatando-nos nos seus braços amigos... Vejo-o pulando o balcão da loja, num salto rápido e firme. Vejo-o, ainda, chegando de viagem, estirado na sua rede branca e larga, armada no meio do quarto. Minha mãe acorre, solícita, com um prato de carne seca, picadinha, misturada com ovos, preparada na ocasião e de que ele se serve, deitado mesmo, com farinha d’água amarela – ceia da sua predileção e que lhe era trazida todas as noites no quarto, à hora de dormir... E vejo-o no instante mais trágico do seu destino. Ele havia saído a passeio em um cavalo árdego, que exigia espora de fidalgo e pulso de cavaleiro. De regresso, com o animal coberto de espuma, vai estacar diante da porta num puxão repentino das rédeas, quando minha irmã, que tinha apenas dois anos e vestia uma simples camisinha de rendas, sai na carreira de casa e cai, na rua, sob as patas do animal em marcha. Meu pai sofreia o cavalo e solta um grito. Olha para baixo, e vê: a filha está no chão, de braços, entre as patas do animal, que lhe pisam a roupa ligeira. A aproximação de qualquer pessoa é impossível. O quadrúpede resfolega impaciente, mordendo o freio. Um movimento qualquer, e, sentando-lhe uma das patas na espinha frágil, pode matar a menina. Vem, então, a meu pai, uma ideia súbita e desesperada: crava de repente, e com violência, as esporas no ventre do animal, que dá um arranco, saltando longe. A filha estava salva, mas ele estava morto: ao apear-se, muito pálido, pediu um copo d’água. A datar, porém, desse dia, não teve mais saúde. Ano e meio, ou dois anos depois, morria do coração.


Tudo nele era atividade febril, inteligente e irrequieta. Emigrado da Tutóia, onde nascera, chegara a Miritiba ainda rapazola. Antes disso, fora ao Maranhão, tentar a vida. Espírito aventureiro, meteu-se em um navio, que tocava em São Luís, e rumou para o sul, como simples marinheiro e, no ventre do barco, onde avermelhavam as chamas, deu comida às fornalhas famintas. Esteve no Rio de Janeiro como um louro vagabundo de Gorki. E aos dezenove anos encontrava-se, de novo, na sua terra, com um curso completo de ensinamentos do mundo.


Em 1877, achando-se ele, já, estabelecido, teve começo no Ceará o flagelo da seca. Centenas ou milhares de famílias tomaram o caminho do exílio, espalhando-se pelas províncias mais próximas não atingidas pela calamidade. Na sua inclemência, o sol nivelara, ali, os homens de todas as condições. O rico e o pobre tornaram-se, todos, miseráveis. E é uma família outrora afortunada, mas reduzida à miséria extrema, que vai ter, então, a Miritiba.


Era a família Mendonça Furtado, que tivera as suas fazendas prósperas, para as bandas do Sobral ou do Ipu. O chefe morrera em caminho, de dor e de fome. Os filhos homens tinham-se dispersado, na travessia do Piauí. De modo que apenas chegaram aí, como despojos preciosos de um naufrágio que o oceano atira a praias longínquas, duas pobres moças de excepcional formosura, acompanhadas de uma velha senhora aniquilada pelo tormento da vida. Meu pai era jovem e solteiro. E passou a viver com uma das moças. Um seu sobrinho, quase da sua idade, José Veras Machado, filho da sua irmã Felicidade, assumiu a responsabilidade do destino da outra.


Em março de 1880 nascia o primeiro fruto dessa união que a lei considerava ilícita, mas que meu pai, com seu espírito sem preconceitos, achava naturalíssima. Era uma menina, e foi levada à pia por meu pai e pela moça com que[m] vivia.
– O nome da menina? – pergunta o padre.
– Prosérpina – respondeu meu pai.
– É nome de santo?
– Não, senhor. Prosérpina é mulher de Plutão, rei dos Infernos.


O sacerdote propõe outro nome, mas meu pai recusa. E o padre batiza a menina mesmo com esse nome, o qual define, com outros episódios da sua vida breve, o que era, em um ambiente acanhado e de aldeia, o espírito livre e, mesmo, irreverente, de meu pai.


Na mesma ocasião, o sobrinho e companheiro que vivia com a outra moça, batizou, também, uma filha nascida nas mesmas circunstâncias. E deu-lhe, por inspiração do tio, o nome de Eurídice, que igualmente habitava o Inferno grego. Do que se conclui, talvez, que meu pai, meio século antes do filho, e habitando uma remota vila de uma província do norte, mostrava, já, um pronunciado interesse pela mitologia.
Meu pai possuía um gosto inequívoco pelas letras. Não sei, nem posso avaliar, os limites da sua cultura. Lembro-me, porém, que, ao começar a ler, encontrei, entre os papéis de minha mãe, dois velhos cadernos amarrotados, com letras dele. Eram versos que havia escrito: não versos de amor, líricos e piegas, mas dois poemas no metro dos Lusíadas, em oitavas ou décimas rimadas, que eu lia alto, embalando-me em uma grande rede doméstica. Um deles cantava uma viagem a um “sítio São João”, e falava em mangueiras e laranjeiras, num canto virgiliano à natureza mansa da sua terra. O assunto do outro apagou-se na minha memória. Com a minha ida, aos treze anos, para o Maranhão, esses versos, a que minha mãe não emprestava grande importância, desapareceram. A lembrança deles é bastante, entretanto, para que eu reconheça, hoje, que, se o meu gosto pelas letras é hereditário, devo-o, na sua maior parte, a meu pai.

As outras filhas que lhe vieram depois, e das mesmas ligações com a moça cearense, não ficaram mais, todavia, sob o patrocínio de entidades mitológicas, mas sob o de excelentes santos católicos: uma, nascida em 1882, foi batizada com o nome de Lourença; a outra, vinda ao mundo em 1884, tomou o de Raimunda. Nesse ano, morreu a mulher com quem meu pai vivia e tivera essa prole, e que era, segundo o depoimento dos que a conheceram, dedicada e boa.


E um ano depois, a 23 de agosto de 1885, ele casava com uma das filhas do falecido professor Campos, que viria a ser minha mãe.

IV


MINHA MÃE


É DIGNO de nota que eu tenha de meu pai recordações muito mais antigas e precisas do que de minha mãe. Em épocas em que a figura dele me aparecia nítida, concreta, definida, a imagem dela é ainda, apenas, uma nebulosa, uma sombra, uma nuvem sem contorno e sem forma. Isso é, todavia, explicável. Meu pai morreu logo, quando eu era pequeno; as impressões primitivas que eu dele tinha não foram substituídas por outras mais frescas. Ao passo que minha mãe há quarenta e seis anos me acompanha na vida, superpondo o seu vulto e as suas atitudes novas às imagens mais remotas. A memória é um grande museu de fotografias, em cujos muros consagramos determinado espaço a cada criatura querida. Uma vez cheio esse espaço, temos que retirar os retratos mais antigos, pondo no lugar outros mais recentes, da mesma pessoa. Meu pai não deixou retratos bastantes para povoar o trecho de muro que lhe estava destinado no meu coração; de modo que conservei todos, mesmo os mais tênues, que dele tive nos seis anos que passamos juntos na terra.


A ideia mais recuada que tenho de minha mãe é a de fins de 1892, isto é, após a morte de meu pai. É, precisamente, da época em que ela o chorava. Tinham ido os dois a São Luís consultar os médicos e tratar de negócios comerciais, quando ele morreu. Ela regressou sozinha para Miritiba. E é, então, que ela me aparece, e grava-se na minha lembrança. Vejo-a chegada da capital na tristeza da sua viuvez. É um quarto espaçoso e fechado, da nossa casa nova, que meu pai construíra antes de partir. A um dos cantos, uma rede, em que minha mãe se acha sentada, os olhos vermelhos de chorar. Os cabelos negros, longos e soltos. Amigas, sentadas em torno, em cadeiras, ouvem-na contar como se deu o desenlace. Ela conta, e chora.


Minha mãe tinha, então, trinta anos, pois que nascera em 1862. Não me parece que tivesse tido, jamais, algum traço especial de beleza. Morena, longos cabelos negros, olhos castanho-escuros, havia tido varíola, quando menina, possuindo, por isso, a pele marcada, mas muito fina. Estatura regular, dava-me a impressão de perfeição plástica, e de certa graça natural nos movimentos. Creio, mesmo, que não foi a sua fisionomia, mas a sua elegância, a harmonia do seu tipo, que encantou meu pai. Ele era, todavia, mais bonito do que ela; o que não impedia, no entanto, que vivessem felizes, e que ela se conformasse com as extensas e constantes viagens que ele fazia, e nas quais dava liberdade ao seu gênio folgazão e ao seu gosto pelas amáveis cousas da vida. Minha mãe foi, em síntese, na sua mocidade, uma senhora sem altos atributos de graça feminina, casada com um homem moço e bonito, mas que soube prendê-lo com a sua solicitude, com o seu instinto doméstico, perdoando-lhe as faltas, as pequenas e possíveis infidelidades, em nome da harmonia conjugal. O gênio de meu pai, alegre, festivo, brincalhão, facilitava, aliás, a minha mãe, esse sentimento de renúncia e de resignação, que era uma das virtudes específicas das mulheres do seu meio e do seu tempo.


Define esse feitio a sua atitude em relação às filhas ilegítimas de meu pai; após o seu casamento, minha mãe consentiu não só que ele as reconhecesse, mas, ainda, que delas cuidasse. As duas mais novas foram confiadas a duas senhoras das relações de minha mãe; e a mais velha, ficou minha mãe com ela, tratando-a como se fora fruto do seu sangue e do seu leito, e de tal modo, que teve, sempre, nela, em todas as circunstâncias, amiga solícita, filha carinhosa, e companheira dedicada e leal.
Viúva, moça, com dois filhos, e com essa filha que adotara, minha mãe enfrentou a vida com heroísmo sereno e silencioso, e com um tranquilo espírito de decisão. Liquidou os negócios comerciais de meu pai; vendeu as casas, o gado, a fazenda, apurou o que pôde, e pelo preço da liquidação e do custo da vida do interior, não ia além de uma dezena de contos de réis. E com os filhos legítimos e a filha adotiva, mudou-se para Parnaíba, no Piauí, onde já se haviam fixado os seus cunhados e irmãos. Do dinheiro apurado, depositou na Caixa Econômica do Maranhão um conto de réis para mim e minha irmã legítima – pois que a parte das ilegítimas foi em gado, que elas venderam com lucro quando se casaram. Com a parte que lhe coube, adquiriu um terreno, construiu uma casa. E aí passou a viver conosco e com as suas irmãs e irmãos solteiros, trabalhando, lutando, batalhando pela conquista do pão.
Mentalmente, era, talvez, entre as irmãs, o espírito culminante da família. Filha de professor público, e irmã de professor, a quem auxiliara até os 23 anos, idade em que constituíra o seu lar, possuía caligrafia bonita e enérgica, em que fixava os seus pensamentos com clareza e relativa correção. Gostava de romances e modinhas tristes, que cantava baixinho, nas horas de trabalho. Conversava com alegria, e não desdenhava uma risada boa e sadia. Estas foram, porém, se tornando cada vez mais raras, sendo substituídas pelos suspiros. O tempo e a vida fizeram do vinho doce, que extravasava dos cântaros em Caná, o vinagre amargo e ingrato, que encheu a esponja de Cristo no Gólgota.


O resto da sua vida, após a nossa chegada a Parnaíba, acha-se entrelaçado com a minha. As duas aparecerão, assim, unidas, juntas, confundidas, no correr destes capítulos.





XXV



PEDRA DO SAL
HUMBERTO DE CAMPOS, MEMÓRIAS




COM a presença dos meus tios maternos ainda em Parnaíba, em 1895, fomos passar alguns meses na Pedra do Sal, ponto desabrigado e rochoso do estreito litoral piauiense em que fica situado o farol desse nome, e que figura, nas cartas marítimas, sob o nome de Farol da Amarração. Sobre uma pedra, que desafia o mar, levantava-se a torre de ferro, cuja ascensão era feita por uma escada interior, em espiral. Sobre outra pedra, coberta de telha, e caiada, a casa do faroleiro, cuja cozinha era lavada, às vezes, pelas ondas mais fortes. Em frente ao farol, o oceano largo e vário, raramente riscado por um navio costeiro, que se arrastava pela superfície verde como uma lagarta escura e insignificante sobre uma folha de bananeira. À direita e à esquerda as linhas de rochedos altos, que orlavam a praia arenosa. E, para trás de tudo isso, as dunas alvas, ligeiramente vestidas de cajueiros, e em cujas depressões se agasalhavam pequenas casas de palha, humildes habitações de pescadores.
Chegamos aí ao anoitecer, a cavalo. Horas depois chegavam os cargueiros com a bagagem. Muitas famílias de Parnaíba tinham ido veranear ali naquele ano, de modo que nos foi impossível conseguir uma casa me­nos desconfortável. Aque meus tios haviam alugado devia ser coberta, ainda, de palmas de carnaúba, no dia seguinte: de modo que tivemos de nos contentar, por aquela noite, com uma esburacada em torno, a poucos metros do mar. Para podermos dormir, tivemos de amarrar lençóis nos grandes rombos abertos na palha, pelos quais entrava, assobiando como garotos e cortando como navalhas, o vento salitroso e inclemente. Obarulho do oceano, rugindo ao largo e estourando nas pedras, era, mesmo, tão profundo e alto, que se tornava necessário gritar para ser ouvido, a dois metros de distância.
Lembro-me, entretanto, que, nessa mesma noite, minha mãe nos tomou pela mão, a minha irmã e a mim, e saiu a passear pela praia. O oceano rolava e guinava, na sombra, atirando-nos ao rosto seu hálito úmido de gigante bêbado. E o vento gritava, gemia, repuxava-nos para trás as roupas e os cabelos, como se nos quisesse arrastar para longe. Minha mãe caminhava e cantava. Ela que sempre cantara baixinho, levantava, agora, a voz acima das vozes do mar e do vento. Canto de dor e de saudade. Grito de gaivota viúva pedindo ao oceano mergulhado na noite que lhe restitua o companheiro sepultado nas ondas. Lamento de mulher moça e solitária no mundo; gemido de mãe aflita, de andorinha do mar que se vê sozinha, e fraca, e desamparada, numa anfractuosidade de rochedo, cobrindo com as asas frágeis duas avezitas implumes. Vencendo o vento e o mar, a sua voz me chega ao ouvido, em dois versos que nele ficaram em toda a pureza de sua toada nostálgica e dolorida:
Com o sangue das minhas veias
Sete cartas te escrevi...
No dia seguinte, mudávamos para a casa que nos estava destinada. Era um albergue novo, de chão de barro batido, coberto e cercado de palha de carnaúba. Ficava longe do farol, mas dispunha, embora a alguma distância, de praia melhor para banho. Nessa praia, inteiramente aberta, existiam cavaletes mais altos do que um homem, os quais eram sumariamente cobertos de palha e serviam de barraca em que as senhoras mudavam a roupa. O vento era, porém, aí, tão rijo e permanente, que virava e revirava essas pequenas construções, fazendo-se mister ir buscá-las cada dia a grande distância, não obstante o seu volume e o seu peso. E esse vento, que arrastava barracas e assobiava e corria à noite como um louco em liberdade, era o mesmo que me aplicava nas pernas violentas surras de areia, fazendo-me invejar as mulheres de saia longa e os homens de calças compridas.
Situada na última trincheira de dunas, mais perto da várzea que se estendia para o interior do que do mar, a nossa casa possuía nos fundos, a três dezenas de metros, uma pequena lagoa em que viviam alguns peixes miúdos, característicos da água doce e parada. Armado de um caniço que trazia na ponta da linha de costura um anzol improvisado com um alfinete torcido, eu ia, todos os dias, a essa pescaria, voltando com alguns peixes achatados e negros a que davam, ali, a denominação de cará. Certo dia, porém, minha mãe me recomendou que não fosse à lagoa. Era Sexta-Feira Santa, dia consagrado ao jejum e à oração. Dia nublado, escuro, triste, como se o céu inteiro se tivesse coberto de um véu polvilhado de cinza. Uma das minhas virtudes era, no entanto, a desobediência. Ao ver que a família se achava entregue aos cuidados caseiros, tomei o caniço e corri para a lagoa. Alguns peixes beliscaram, mas não vieram. Os peixes sabem, parece, quando os meninos estão pescando sem a permissão dos pais, e não lhes dão o prazer de engolir a isca. Eu insisti, todavia. Se Deus não quisesse que o homem apanhasse o peixe não teria consentido que ele inventasse o anzol. Em determinado momento, porém, senti que vinha alguma cousa volumosa e pesada. Puxei a linha, aos poucos, desconfiado, e com cautela. De repente, emerge a presa. Olho e esfrio. Vinha no anzol uma botina velha!
É desnecessário dizer que abandonei botina, anzol, caniço, e até o meu chapéu de carnaúba, à margem da lagoa, e que desandei na carreira, apavorado, rumo de casa. Chamei minha mãe à parte, e contei-lhe o ocorrido, os olhos fora das órbitas. E ela:
– Eu não te disse? É castigo... Eenchendo-me de terror:
– Quem pesca em lagoa Sexta-Feira Santa, o anzol só apanha sapato de defunto...
Situada perto da várzea, nossa casa era uma das primeiras do arraial, à entrada deste, e o caminho natural de quem vinha de Parnaíba. As pessoas que procediam da cidade, e que eram portadores de encomendas –- café, açúcar, cereais ou carne, pois que aí não havia nenhuma casa de comércio –, chegavam à Pedra do Sal já noite fechada. Mas a aproximação desses emissários, que haviam partido pela madrugada a vender o produto da sua pescaria, era anunciada de longe pelos téu-téus, o indiscreto quero-quero das coxilhas do Sul, o qual é, no norte, o guarda infatigável das várzeas adormecidas. Ao perceberem, com os seus olhos que varam a sombra, vulto de cavaleiro ou de peão, essas aves erguem em bando o seu voo, em gritaria assustada. E com uma precisão tal que, pelo grito delas, se sabia, em casa, em que várzea e a que distância vinha o viajante.
A maior curiosidade do lugarejo marítimo eram, entretanto, os seus rochedos. Havia pedras enormes, de feitios bizarros, de dez e mais metros de altura. Algumas constituíam, mesmo, a reprodução da fisionomia humana. E eu ainda me lembro de uma, grande e alta como uma casa, que possuía dois olhos, e nariz, e a boca imensa, rota em uma das extremidades. A onda vinha de longe, e atirava-se à cara do monstro. Ele bebia-a; engolia-a; mas vomitava-a de novo com asco e com estrondo, repelindo o resto pelo rasgão de pedra, que a água cavara durante séculos.
Na Pedra do Sal, vivi cerca de três meses, dos meus nove anos, sem saber, sequer, se existia, com as suas largas folhas, o livro do Destino. Olhava o oceano durante o dia, e escutava, à noite, gritar assustadora­mente os téu-téus da várzea. Eencontrei, também, ali, a síntese da minha atividade no mundo.
Que tenho eu feito, em verdade, na vida, senão pescar sapato de defunto!

VII

O ÚLTIMO ESTIO DE ATENAS

Enquanto eu, no balcão da Casa Trasmontana, embrulhava açúcar e pesava batatas, ou, no seu tanque, lavava garrafas para encher do mais vermelho e genuíno vinho português, a quinze metros de mim se elaborava, sem que o suspeitasse, a destino literário do Maranhão. Diante da formiga anônima, e sem que ela as ouvisse, cantavam as primeiras cigarras do último estio de Atenas.

O Maranhão ressonava, desde o crepúsculo vesperal da monarquia, quando haviam emigrado para o sul e para o norte os mais belos espíritos que a província então produzira, num fundo sono, vizinho da morte. De súbito, aparece-lhe, cercado da sua glória risonha e nascente, em visita ao seu berço natal, em 1899, Coelho Neto. À sua voz de pastor, as ovelhas se levantam. A juventude maranhense, vencida antes de combater, toma-se de coragem. Um sopro ardente de vida e de esperança congrega os atenienses, que já haviam esquecido os grandes vultos da pátria. E funda-se a Oficina dos Novos, destinada a operar, num milagre, a ressurreição do espírito literário, e que veio a oferecer, efetivamente, ao Maranhão, a sua última geração de escritores com projeção fora do Estado.

Quando, em 1900, eu entrei, como caixeiro, para a mercearia na rua da Paz, germinava, precisamente no edifício fronteiro, a semente que a mão de Coelho Neto lançara. Do meu balcão, ou do meu tanque, nos momentos em que me punha de pé, a fim de reanimar a musculatura cansada, eu via entrar todas as tardes, ou à noite, os lavradores encarregados de fazer fecundar aquela semeadura. Eram eles, além de outros menos expressivos na ação e na figura, Antônio Lobo, Fran Pachêco, Francisco Serra e Antônio Marques, aos quais devia caber, especialmente aos dois primeiros, a missão de galvanizar para as letras, numa tentativa suprema e heroica, o velho Maranhão de Odorico e de João Lisboa, de Gomes de Souza e de Sotero, de Gonçalves Dias e de Henriques Leal.

[...]

(CAMPOS, 1935, p.59-61)

[...]

XIV

A HORA SAGRADA

Foi por esse tempo que surgiu, e verdadeiramente, em mim, a paixão literária. É possível que eu a tivesse trazido do Maranhão, escondida nas camadas subterrâneas do espírito. No discurso com que me recebeu na Academia Brasileira de Letras, na noite de 8 de maio de 1920, Luiz Murat, examinando a passagem da minha oração em que eu atribuía a influência de Coelho Neto à modificação do meu destino, opinou pela falsidade dessa suposição. O sentimento literário estava em mim; e quaisquer que fossem os fatores externos, eu viria a ser, tarde ou cedo, prosador e poeta. O que eu supunha causa desse fenômeno, constituíra, e apenas, um pretexto para a revelação, que se daria, em qualquer circunstância.

É possível que, durante a minha permanência no Maranhão, eu tivesse lançado às leiras profundas do cérebro, ignoradamente, o gosto da criação. Ele ficara, todavia, no subconsciente, como a semente d’anunziana, que os gelos do inverno escondem, mas que germina tempos depois, quando lhe é propício o clima da primavera. O que é verdade é que, um dia, eu me sentei em uma pedra tosca, na ponta da calçada de nossa casa, na parte que dava para o quintal, tendo à mão dois jornaiszinhos literários, publicados em São Luís. Intitulava-se um Os Novos, e era órgão da Oficina dos Novos, associação constituída pela geração moça, orientada por Antônio Lobo e Fran Pacheco. Renascença, denominava-se o outro, e reunia uma dissidência combativa e heroica, sob a chefia de Nascimento Morais. O primeiro era sereno, ponderado, mergulhado em sonho e meditação. Trazia versos de Francisco Serra, Costa Gomes, e outro, cujo nome se me apagou na memória; e prosa de Godofredo Viana, Domingos Barbosa, Viriato Corrêa, João Quadros, e Astolfo Marques. A. J. Alves de Farias, que foi mais tarde, no Rio, diretor do Lloyd Brasileiro e era, então, chefe do distrito telegráfico no Maranhão, assinava uns alexandrinos severos, em que havia tamareiras debruçadas no Deserto. O outro periódico era mais variado e mais vivo. Nascimento Morais, professor de português, criticava a língua d’Os Novos, arremetendo de palmatória em punho contra os rapazes do outro grupo. O que, porém, caracterizava a Renascença era a fartura de sonetos. Nas suas seis páginas amplas, espalhavam-se mais de trinta, cada um dos quais assinado por um poeta novo. Desses poetas, ao que parece, não vingou um só. À semelhança do que sucede, às vezes, as ninhadas de peru, desapareceram todos. Eu, porém, os achava, a todos, admiráveis. O que mais me impressionou foi, todavia, um de nome Otávio Galvão, autor de quatorze decassílabos realistas, de que faziam parte estes, num terceto, que nunca mais me desapareceu da lembrança:

“E, enquanto lá por fora cai a chuva,

A carne agrilhoada de desejos

Treme de gozo ao lado da viúva!”

Nos trinta e dois anos que rolaram sobre essa tarde parnaibana em que, na calçada do quintal de nossa casa, mergulhei na leitura d’ Os Novos e da Renascença, eu li grandes poemas, as obras capitais de quase todos os gênios da Humanidade. Li Homero e Virgílio; Hesíodo e Ovídio; Dante e Petrarca; Ariosto e Tasso; Shakespeare e Klopstock; Lope de Vega e Camões; Schiller e Goethe; Longfellow e Vitor Hugo. Milhões de versos passaram sob os meus olhos, entraram pelo meu entendimento, fixaram-se na minha memória, viveram na minha imaginação. Nenhum deles conseguiu, entretanto, jamais, apagar no meu cérebro esses três decassílabos de Otávio Galvão. Viva eu um século e eles viverão comigo. E quem sabe se, abusando da minha inconsciência, não serão eles as palavras que me virão à boca, profanando a santa hora da minha morte?...

Maranhão Sobrinho colaborava nos dois jornais, emprestando a cada um deles, com um punhado de versos, uma das asas da sua inspiração. Lembro-me, ainda, de dois sonetos seus, que vinham, se bem me lembro, n’”Os Novos”. Tinham por título Símbolos.

Concluída a leitura das duas folhas maranhenses, quedei-me quieto, os olhos perdidos no horizonte, que os coqueiros de Dona Páscoa enfeitavam de aranhas buliçosas. Seria difícil fazer versos? Evidentemente, não; porque, se fosse, aqueles jornaiszinhos não estariam repletos. Quem, porém, me ensinaria a fazê-los?

Resolvi examinar mais profundamente o assunto, consultando os almanaques, viveiro inesgotável de poetas. E levantei-me. O primeiro raio de sol havia tocado a semente. Ia começar, no meu coração e no meu cérebro, o milagre da germinação. Soara, para mim, a hora sagrada.

(Id. ibid., p. 119-123)

(CAMPOS, Humberto de. Memórias Inacabadas. Rio de Janeiro: Livrara José Olympio Editora, 1935)



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