domingo, 13 de setembro de 2015

LEILA JALUL



 
 


Memórias
Andantes





Leila Jalul


Memórias
Andantes


- Contos -


Bahia
2015


Memórias Andantes
Copyright © Leila Jalul 2015

leilajalul@gmail.com



Revisão Final, capa e diagramação
André Alexandre

foto de capa e ilustração “tracejado Rio Acre” na folha de rosto
André Alexandre

Foto da orelha
Acervo pessoal




Ficha Catalográfica

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


869.945
J26m

Jalul, Leila -
    Memórias Andantes/Leila Jalul. – Joinville: Clube de Autores, 2015.
    174 p.


Índice para catálogo sistemático:
1. Contos.  I. Título


















Dedicatória



Ao Dr. Abrãao Garcia Mendes, por me devolver o sentido da visão. Com afeto e agradecimentos infindáveis.















Agradecimentos



Agradecimentos especialíssimos ao André Alexandre, Henrique Silvestre, Olívia Maria Maia, Vássia Silveira, Margarete Edul Prado - Maga - e Danilo Laranjeira de Jesus pelo carinho a mim dedicados, até nas horas de impaciência.
Aos meus netos Catarina e Hector, pelas vibrações positivas.





Dar à luz memórias





A metáfora não é nova. Aliás, muita gente se aproveita dela no processo de “parir” uma infinidade de projetos pessoais. Mas, vamos lá. Fazer um livro é bem como gerar um filho. Inclua-se aí as expectativas e enjoos comuns à gravidez… e à escrita.
Este Memórias Andantes começou a ser gerado há três anos.  Segundo Leila, ao se considerar a gestação de vinte e dois meses de uma elefanta, daria para a mesma aliá parir duas vezes e este livro ainda não teria vindo à luz!
Esses três anos são quase um terço do tempo que andamos nos aventurando em livros. Parceria que começou em 2007, aprontando Suindara, com a "Oréa"/Aurélia Hubner e a Simone Pessoa. Desde então, já parimos “Absinto Maior”, “Das Cobras, Meu Veneno”, “Minhas Vidas Alheias” e “Luzinete: Um Angu de Caroço?” Digamos que a gente se completa! Quase farinha do mesmo saco mesmo! Aprendi o jeito especial dela contar suas histórias, faço sugestõezinhas de alteração, reescrevo algo aqui e acolá, faço sugestão de título, pensamos em capas... e fui virando o Sancho Pança de Doña Leila de La Mancha!
Essa gestação de três anos acompanhou momentos difíceis de nossas vidas. Em um hoje loooonge agosto de 2012, pequenas e grandes coisas abalaram nossas brincadeiras literárias. Enquanto trabalhávamos no livro, uma queda na porta do banheiro atrapalhou uma moqueca de lagosta e, descobrimos depois, quebrou a L2 de Leila. E se seguiu uma longa recuperação. E depois veio a deterioração da visão. Como sempre encontra anjos em seu caminho, o Abraão Garcia tem cuidado de seus olhos. Este livro é dedicado a ele!
No que concerne a mim, desde então, a morte de um irmão por causa de um câncer danado, a descoberta de duas hérnias e umas quinhentas atribuições na universidade foram me afastando do livro até este mês. Não fosse a insistência e uma certa fé de Leila em mim, nem sei se ele sairia!
Talvez estas dificuldades, em minha opinião, expliquem a seleção de textos mais dramáticos de todos os livros que fizemos juntos. Ela não concorda que o livro tenha esse tom. Não deliberadamente (será?), foram se reunindo nesse volume, assim aos poucos se achegando, alguns dos heróis e heroínas mais sofredores do universo de referências de Dona Leila: como Líria, que saboreava sorvetes e patacónes nas noites de jogos; ou o João Marcino, que, assumindo a persona de Xixilica, aumentou as vendas de uma loja; sem falar de Felek, aquele cunhado estorvador que todo mundo tem, infernizando a vida de Bertha. 
A escolha de textos é sempre um embate. Alguns rounds eu ganho. Outros, ela ganha de lavada! É claro que há grandiosos empates! Os velhinhos traquinas foi um deles. Texto que ela queria que entrasse no livro. E, quando li, tornou-se uma de minhas certezas. Outras batalhas, teimoso que sou, ganhei com louros! Um dia a gente publica em outro livro o “Enquanto durou…”
Essa criança tem um pouquinho de muitas pessoas. É… Nosso processo é meio promíscuo. Leila danada! Um exame de paternidade pode indicar muitos pais aqui: Juarez Nogueira revisou e indicou textos, Henrique Silvestre também foi um dos pais, lendo entre viagens e aulas (o título é dele! Leila sugeriu Andantes e ele veio com o Memórias, que fez a diferença!), Margarete Edul Prado atendeu de pronto ao pedido para escrever a orelha e Danilo Laranjeira foi dos últimos a entrar na dança, ajudando nas leituras!
É assim que a gente vai construindo nossas memórias. Andando juntos. Pensando já um pouco parecido, às vezes. Quem quiser que nos siga.


André Alexandre
Agosto/2015



Sumário

Dar à luz memórias
Apresentação
O quarto dos papiros e das estrelas do céu de azul royal
Ave de cristal
O palhaço Xixilica
A casa dos avós traquinas
Felek, o colecionador
O diário de Cristhine Asther Rojas Fuentes
Os tempos eram assim
As meninas de Renoir
Titio Callilla
É o seu fim, madame: assim falou Zoroastro
Os pastéis de Dona Dozinha
Reduto dos capetas
Tia Neca, Zé Taveira e São João
Enquanto durou
Lições de Antônio Mulato Benevides
Mortes pré-datadas
Entre versículos e insultos







Apresentação




Para o meu Memórias Andantes, dentre várias sugestões de capa, escolhi esta fotografia do rio da minha cidade. Não apenas pela ideia de movimento que os rios sugerem. Também por isso, claro! O click foi do André Alexandre, o faz-tudo da minha vida errante. Andei muito neste meu rio. Ora subindo, ora descendo, ora atravessando de catraia, ora nadando. Esse meu rio, que não é só meu, já foi cantado em verso e prosa.
É da Olívia Maia, minha querida e boa amiga, o título “Em Rio Que Menino Nada, Raia Não Ferra”. Não concordo muito com a assertiva, mas… É que os meninos da Olívia tinham anjos de guarda mais poderosos que os de outros meninos que sentiram a ferroada.
Às margens do meu rio, sentei e ouvi estrelas. Mesmo perdendo o senso das horas e apanhando quando em casa chegava. Das mesmas margens olhava o movimento dos que, na lida diária, atravessavam de catraia para o trabalho, ou para festas, compras e outras tantas motivações. Tenho no olhar, neste exato momento, duas meninas faladeiras e bem faladas da família Beiruth. O nome de uma era Marcina e a outra… como era mesmo o nome dela? Lembrei, acabei de lembrar. O nome da outra era Violeta, mais conhecida como Viola. Custava-me crer que elas conseguiam sentar nas catraias com seus vestidos de shantung e de rendas brancas para as festas e saraus dançantes do Rio Branco Football Club.
A mesma imagem me veio do Senhor Osvaldo Lima subindo apressadinho as escadarias e distribuindo beijocas para as suas incontáveis fãs. Como era beijoqueiro o Senhor Osvaldo! E como tinha fãs! No caminho inverso da pressa do Senhor Osvaldo, a maciez preguiçosa e indolente dos passos do Senhor Tufic Assmar, exímio jogador de gamão e latifundiário despreocupado com esse negócio de sobrevivência de pobreza de pobre. Eram muitos pra lá e pra cá e pra cá e pra lá, até o aparecimento das pontes. Impossível falar de todos.
Dono de um dote poético espetacular, J. G. de Araújo Jorge falou do meu rio num poema quase épico, intitulado “Poema acre-doce”. Antigo e atual ao mesmo tempo. Não custa transcrever a estrofe primeira. De épicos, bastam meus problemas!

“Onde estás rio Acre?

Por que rio Acre
se suas águas são doces como ‘alfinim’
no mapa de minha infância?”

Ficaria triste o autor se soubesse que, hoje, o seu rio não tem gosto de alfinim. É um rio com gosto e cheiro de merda, ruim de peixe e lotado de entulhos. Coisas da modernidade e da irresponsabilidade de quem há muito vem governando o povo, a floresta, o rio e a si próprio.
O meu rio apresenta transtornos… Ou é filete ou, quando revoltado, destrói parte da cidade que o margeia. Parece vingança! Maldita! Ainda assim, é o meu rio. E nele trafegam minhas lembranças mais remotas.
Quando li “Não Apresse o Rio (ele corre sozinho)”, de Barry Stevens, não pensei no conteúdo. Gostei do título e, só após a leitura, gostei de tudo que li. Barry discorre sobre a Gestalt. Não sei de nada disso. Para mim é uma corrente que estuda as intempéries da mente humana. Nada sei de Lacan, de Freud ou de Jung. Mas sei de rio. Sei do meu rio e das minhas lembranças. Sei de gente e é delas que falo, sem me focar especificamente em suas mentes, em suas taras e sem listá-las nesta ou naquela outra categoria de malucos-belezas. De pirados, também sei, até porque sou piradinha de baladeira. Tem gente doida de pedra, bem sei. Outras nem tanto. Até posso dizê-las normais, se é que sei de conceitos de normalidade padrão. O certo é que as conheci e não as esqueci. Seria traição de minha parte. Por conhecê-las, quero eternizá-las, como me quero eterna, sem desejos de imortalidade.
Minhas memórias andantes tentaram subir em águas turvas com o desejo de desovarem em águas claras. Se subi ninguém sabe, ninguém viu. Meu nome não é Conceição. Trafego nas lembranças que a idade me permite avivar. Meus personagens existiram. Alguns viraram flores, aves e ninhos, no processo que bem descreveu o meu amigo médico e poeta Mário Maia, no seu poema “Eternidade”, que transcrevo para finalizar com pompas e honrarias esta apresentação. Acaso enfeitei o maracá, creiam-me, foi para não desnudá-los e entregá-los para saciar as bocas famintas dos leões. Peço paciência e compreensão. Qualquer semelhança não é mera coincidência. C’est la vie!

“Voltar a ser nitrito e ser nitrato
Transformar-se em inorgânico novamente
Para que as plantas cresçam
e hajam flores…
Para que as aves cantem
e haja ninhos…
E eu serei a planta, a flor
a ave, o ninho…”


Leila Jalul
Junho de 2015





O Quarto dos Papiros e das Estrelas do Céu de Azul Royal






Ali no Tremembé, quase no Alto da Cantareira, eles eram apenas Joky e Mile. Sabia-se dele ser religioso ortodoxo, até pela aparência do trajar. Dela, apenas que morava na mansão. Uma senhora mansão que tinha nos fundos um penhasco e, no penhasco, um plantio de pinheiros canadenses. Dela, da moça Mile, sabia-se nada. Sabia-se quase nada! E já era muito o nada saber…
Joky aparentava uns setenta e cinco anos; Mile, se muito, vinte e cinco. Tinha uma trança que lhe caía até a cintura. Um belo trançado de fartos pretos cabelos. Sua pele era alva. Chapéus de abas curtas, sempre de palha e descidos à frente, cobriam-lhe os pequenos olhos azuis.
Religiosamente, ainda muito cedo, descia a rua. Olhava para o chão. Sorria quando cumprimentada por um ou outro vizinho. Apenas sorria. Do chão não desgrudava os olhos. Da padaria, subindo a rua, voltava com uma bisnaga de meio metro de pão e dois litros de leite em embalagens de vidro. O trajeto era repetido no cair da tarde. A mesma compra: uma bisnaga de meio metro de pão e dois litros de leite em embalagens de vidro.
Era Mile, sempre, quem atendia às batidas no largo portão de madeira. Demorava a abrir. Parecia querer certificar-se se quem bateu poderia e deveria ser atendido. Medo? Raramente, também desconfiado, Joky vinha em seu auxílio. Também medo? O medo deveria rondar aquelas duas criaturas da mansão do penhasco com uma floresta de pinheiros canadenses. Por anos seguidos, invariavelmente às terças e sextas, em torno das seis da tarde, um senhor de óculos austeros, longa barba e roupas escuras visitava os moradores. Batia a aldrava de cobre do portão como se usando um código. Um motorista ficava do lado de fora à sua espera. Por longas horas esperava o senhor de óculos austeros.
A vizinha viu e contou tudo o que aconteceu na tarde de um outono já frio. Sempre era frio no Alto da Cantareira. Fosse verão, até. Dois homens estranhos, jamais vistos na redondeza, esperaram por bastante tempo, meia hora, ou mais, até que adentraram. Estavam numa caminhonete com grandes pacotes que pareciam pesados. O portão só foi aberto com a chegada de Joky e os homens foram recepcionados com reservas. Entraram. Do seu sobrado, a curiosa, esgueirada na janela, com olhos e ouvidos atentos, pôde ver fagulhas de solda e ouvir sons de furadeira.
A vizinha do sobrado entendeu. Os homens só saíram da casa quando deixaram ser avistada uma torre mais alta que os pinheiros canadenses. Serviria para uma rádio PY? Para a comunicação com o mundo? Talvez! Queria ser uma mosca, a vizinha, nem que fosse por momentos breves, apenas para espiar como era a vida de Joky e Mile.
Anos depois, muitos, a mansão foi posta à venda. Os vizinhos Joky e Mile voltariam para Gdańsk, na Polônia. A vizinha do sobrado fez o possível e o mais que possível para arranjar dinheiro. Vendeu o que era seu e, com o que tinha acumulado, comprou a mansão que, por décadas, causara-lhe estado de instigação permanente. Nas negociações preliminares viu que era procedente a atração irresistível. Era uma bela casa. De grandes cômodos, construída em dois níveis, transparecia guardar segredos e mistérios não de uma vida, mas de duas.
Na parte superior, em luz atenuada e indireta, uma grande sala que não servia aos visitantes. Uma sala-biblioteca, com duas imensas poltronas e dois abajures tipo sombrinha. Uma sala de leitura. Sala com livros esteticamente perfilados numa estante de mogno. Organizados sistematicamente, manuseados e guardados com disciplina e amor. Assim lhe pareceu. Na parede principal, num nicho feito sob medida, um quadro da Senhora de Chestochowa de Jasna Gora (Monte Claro), a padroeira da Polônia, feito a bico de pena e colorido com guache. Uma arte! Em destaque, num pedestal de mármore, uma imensa escultura da águia branca, símbolo maior da terra de Lech Walesa. A vizinha não deixou escapar detalhes.
Duas portas, ao serem abertas, revelavam os quartos de dormir de Joky e o de Mile. Móveis de jacarandá no quarto masculino diziam do poder aquisitivo do proprietário. Os criados mudos, de um e do outro, além de um reservatório para água e uma luminária de mesa, deixavam à mostra alguns livros marcados em meio à última página lida e a próxima, o que indicava a avidez pela leitura dos clássicos. No quarto de Mile, uma cama de ferro, tamanho solteirão, era pintada de branco e tinha adornos de bolas de metal prateado.
A vizinha do sobrado viu e contou que os proprietários da mansão, que logo seria sua, liam Tolstói, Máximo Gorki, Dostoiévski, Sócrates e Platão, ao mesmo tempo, nos ambientes onde dormiam. Dormiam acompanhados de bons autores. Talvez, quase com certeza, dessa leitura viesse a educação que mostravam possuir como maior riqueza.
Ainda durante a vistoria do imóvel, um momento foi especial e determinante para a quase garantida futura aquisição. O quarto de Mile possuía uma parede revestida com similares de papiros de tons amarelados, envelhecidos tecnicamente. As outras paredes tinham tonalidade azul marinho. No teto rebaixado, em azul royal, estrelas em material fluorescente cintilavam. Uma lâmpada rotativa de parede jogava fachos direcionados que faziam bailar as constelações ali afixadas. Magia pura! Completando a decoração, parecendo retirada de um rescaldo de incêndio, a fotografia de um homem, uma mulher e uma criança menina. Fotografia antiga, em preto e branco foscos. Bem poderia ser dos avós de Mile e de sua mãe, quando menina.
Um pequeno corredor levava à cozinha. Tudo ali era branco. Um pequeno fogão, poucas panelas e louças de porcelana pintadas por Mile expressavam a pouca gula dos moradores. Um pequeno armário de condimentos e, ao lado dele, um de medicamentos que Joky tomava em horários marcados, anotados com detalhes numa lista afixada no painel da geladeira. Muitas frutas expostas em fruteiras rústicas diziam dos modos e costumes saudáveis.
Saindo da cozinha, com batentes de madeira e corrimão de barras de metal, uma escada deveria ser descida para alcançar o andar de baixo. Um canteiro de ervas para chás estava erguido em prateleiras sobre cantoneiras presas ao muro. Um jardim suspenso de camomila, hortelã, malva e outros tantos de carmelitanas, senes e macelas.
Ao centro do pequeno jardim, rigidamente limpa, uma fonte que jogava jatos iluminados por pequenas lâmpadas azuis, atraía pássaros em busca do refresco do banho e da bebericação de água. Dois pés de rosa menina, em cachos apinhados, adornavam o pedestal losango da fonte.
Um grande salão com portal e janelas de vitrais também azuis, destacava o ambiente que deveria ser chamado de porão. Uma visão divinal da floresta de pinheiros canadenses se descortinava. Uma paz de mosteiro reinava. Era o oráculo de Joky. Ali estavam a aparelhagem de rádio e um grande quadro de mensagens e lembretes vindos de todas as partes do mundo.
Esse oráculo, por anos, pela voz da vizinha compradora, serviu de quartel general para a tentativa de achar os pais de Mile. Se não os pais, algum parente. Avós, primos ou tios que lhe pudessem devolver a alegria perdida. Era no recanto sagrado, também, que, por todo o tempo de residência no Brasil, Joky fazia ligação com os familiares de outros compatriotas que, também no Brasil, cumpriram o forçado exílio. O senhor de óculos austeros servia de mensageiro. Vinham por ele os clamores da comunidade polonesa para a localização dos seus na terra deixada arrasada; através dele saíam os resultados dos contatos. Alvissareiros, ou não.
Pela voz e relato da vizinha, agora moradora da mansão, foi dito ao mundo que Mile, cujo nome verdadeiro não se sabia, fora apanhada por Joky, em estado famélico, numa praça de Gdańsk no período da invasão alemã e da caça aos judeus poloneses. Ela tinha apenas dois anos quando foi recolhida e, por sorte, não habitou os campos de concentração.
Na semana antecedente à viagem, fardos e mais fardos de bagagem foram encaixotados. Na data do embarque, surge Mile com o chapéu de sempre, vestida com a mesma tristeza de antes e sem desgrudar do chão os pequenos olhos azuis. O senhor de óculos austeros os levaria ao aeroporto. Seria ele, por poderes plenos passados por Joky, o encarregado de ultimar a venda da mansão, no que se referisse à transmissão definitiva do imóvel. Não houve festa de despedida. Saíram tão ou mais silenciosamente como enquanto ali viveram.
Pela voz da vizinha do sobrado, agora proprietária da mansão que tinha nos fundos um penhasco e, no penhasco, um plantio de pinheiros canadenses, foi dito que, no apressado do tempo, Mile esqueceu no quarto dos papiros e das estrelas do céu de azul royal, talvez, quase de certo, a sua maior fortuna: a fotografia que parecia ter saído do rescaldo, onde estavam retratados um homem, uma mulher e uma criança que bem poderiam ser seus avós e sua mãe, quando criança.
A vizinha da casa do sobrado não hesitou. No próximo encontro com o soturno homem de óculos austeros devolveria o quadro embrulhado em uma página de presente, cópia similar de papiros, e escreveria num cartão com estrelas prateadas: Para Mile, com carinho.
Na sua primeira noite na casa, cansada pela mudança, uma dúvida pairou em seu pensar: teria sido um mero esquecimento?
No Tremembé, quase no Alto da Cantareira, está firme a mansão. Lá não mais mora a vizinha do sobrado, que se esgueirava para saber dos mistérios e segredos que pairavam sobre Joky e Mile. Os pinheiros canadenses do penhasco ainda estão lá. Parecem velhos e curvados em direção ao precipício. Para além do limite... Para onde tudo vai...




Ave de Cristal

O amor e o coração são aves de cristal que facilmente quebram.
 Leila Jalul






No Bairro da Capela, quadra 16, casa 2, do conjunto Belmonte, a casa de Anice Moscoso era, sem medo de errar, a mais animada. No varandão, sobre a mesa forrada de feltro verde, a jogatina de canastrão, iniciada na noite do sábado, seguia até a madrugada de domingo. Pausas rápidas para as refeições e outras necessidades maiores, incluindo uma pequena reposição do sono.
Havia um ritual estabelecido e rígido. Primeiro, a prisão dos quatro cachorros. Atos sequentes, sem alteração de ordem, a colocação do grande fogareiro onde assaria a parrillada, temperada na véspera e disposta numa pequena mesa à esquerda da anfitriã e o aparelho de som e as fitas de música boliviana, selecionadas de acordo com a variação de humor, noutra mesinha, ao seu lado direito. Ninguém colocava a mão na discografia. Somente Anice. E sem direito a reclamações ou pedidos especiais. Afinal, a casa era dela, o baralho era dela e os discos, também. Num canto, mais ao longe, um frigobar guardava sucos e material para alguns tipos de batidas e coquetéis. Essa parte ficava sob a responsabilidade de Eduardito Moscoso, filho da dona do cassino e que, por seus longos cabelos pretos, era mais conhecido por Rapunzel.
Descrevendo assim, as bocas de Matilde diriam que o cassino estava mais para quartel. Nada disso! O que circulava no ambiente era alegria na conversa e seriedade no jogo. Principalmente honestidade. Essas condições estavam presentes nas viciadas Nailde, Ditinha e Dioneia, cinquentonas bem arrumadas e com dinheiro no cofre. Sendo jogo de apostas, sem direito a crediário, o “four” das quatro não pisava na grama nem dava ré pra trás na hora de “molhar” a banca e “regar” os bolsos (ou bolsas, como mais apropriado). Acaso alguém perdesse mais que o desejado, o Banco Boliviano de Anice Moscoso resolvia, com eficiência, com um préstamo personal en diñero, mediante nota promissória com prazo de vencimento de vinte e quatro horas.
Enquanto as duplas sorteadas na hora (para não dar margem à formação de quadrilha) se abancavam no set, Rapunzel enchia o colchão d’água sobressalente para deitar Líria, sua única irmã, acometida de esclerose múltipla em estado bastante avançado. Somente após cumprido este último afazer, era dada a largada ao jogo propriamente dito.
Deitada de barriga pra baixo, posição mais cômoda, Líria enchia de felicidade o ambiente. Sua noitada de sorvetes estava garantida. Era regra do jogo que a dupla perdedora garantisse o helado de morango, seu preferido, ou de abacaxi, quando na falta do morango.
Na cama de água, sempre risonha, lia revistas trazidas pelas amigas da mãe ou, aqui e ali, um romance feito para moças da sua idade, cheias de sonhos e devaneios. Quando o sereno da madrugada resfriava o ambiente e a umidade se fazia sentir nos ossos, era transportada para seu quarto nos braços fortes de Rapunzel. Somente ele sabia lidar com o transporte daquele corpo de meia lua, em processo galopante de deformação. Braços fortes cingiam as partes altas e baixas do abdome no ato de um traslado sem dor.
Vem, Rapunzel. Quero dormir. Boa noite, meninas! Amanhã tem mais. Não roubem meu helado!

Num modorrento sábado de um morno maio, repetiu-se a encenação que antecedia cada um dos jogos. No entanto, Líria, insistentemente, pedia à mãe que colocasse e recolocasse duas músicas de sua preferência: Ave de Cristal e Sin Ella, na interpretação dos Kjarkas, o melhor grupo de folclore andino. Foi à exaustão, cantando os refrães com a sua fala pouco inteligível. Apesar de toda aquela cantilena repetida até enjoar, todos se deixavam emocionar pela alegria da moça.
Após saborear muitas bolachas de banana verde – patacón – feitas por Dioneia e cantar até a rouquidão, Líria pediu para ser levada ao quarto. Não quis saber de sorvete. Anice, pouco antes, havia terminado de emplacar uma canastra de cabo a rabo (ás a ás), mas, sentindo que a filha não estava bem, suspendeu o jogo e as apostas, como se nada tivesse valido.
As quantias foram recolhidas. Nem a parrillada, que estava ao ponto, pôde ser servida no local. As meninas levaram numa quentinha para suas casas, após a divisão igualitária dos miúdos do chancho.
E na madrugada ainda modorrenta daquele domingo de morno maio a ave de cristal se partiu. Na mesinha, durante a guarda,o velho aparelho de som de Anice, em baixo tom, repetiu, à exaustão, as peças preferidas de sua menina. Líria estava serena e sorridente.

Quinze dias depois, a pretexto de manter viva a imagem de Líria, o cassino reabriu as funções. Com os mesmos rituais e as mesmas regras rígidas.
Afora os helados e os patacóns, tudo ficou igual.





O palhaço Xixilica






Os preparativos para a liquidação da maior loja de materiais de construção e artigos de decoração duraram três dias e três noites. A avenida principal da pequena Mirandolina ficou interditada para que se armasse um portal que permitisse, além da visualização do semáforo, a passagem dos caminhões de lixo, dos cegonhas e dos transportadores de eucalipto e mármore. Nela seriam vendidos pisos de cerâmica a R$ 8,00 e de porcelanato a R$ 25,00. Janelas e portas de madeira deveriam variar entre R$ 70,00 e 90,00. Tudo pechincha de São João! Isso sem contar com a galinha morta dos vasos sanitários e das pias de última geração a R$ 180,00.
João Marcino e Heloneida estavam radiantes com a garantia do trabalho temporário por duas semanas. Ganharam a indumentária de palhaços e de caipiras do dono do estabelecimento. Roupas lindas, jamais usadas em seus shows pelas feiras livres e fazendolas dos arredores. Também os músicos da bandinha ganharam fantasias mais animadas que as cores do arco-íris gay. Na primeira semana seriam caipiras e, na segunda, palhaços. Selecionaram as marchinhas de circo e as populares dos santos de junho e ensaiaram a todo vapor. De 13 a 18 e de 20 a 25 de junho, teriam contrato assinado e pagamento pelos serviços prestados aos proprietários da loja Camelo & Rodrigues Materiais de Construção e Decoração.
Partindo do princípio do “quem é coxo parte cedo”, às seis da matina, perfilados frente ao prédio, estavam todos: músicos e caipiras, aguardando a abertura do comércio. Às oito, pinoteando de um lado para o outro da avenida, ao som das músicas de fogueira, João Marcino e Heloneida se derretiam em abordagens aos passageiros de carros, ônibus e caminhões, quando de suas paradas no sinal. Ela, grávida de uns seis meses, ia numa marcha mais lenta.
O sol esquentou na hora prevista para esquentar. Cuidadoso com a esposa grávida, João Marcino deixava-a descansar no canteiro central, debaixo de três arvorezinhas baixas e de copas frondosas. Logo foram advertidos pelo gerente da loja: o contrato previa o evento defronte ao prédio e não ao lado. Heloneida, forte que era, voltou ao quadrado demarcado, sem reclamar da vida. E repetiram as sessões de caipiras ao sol de segunda a sábado, das oito às doze e das quatorze às dezoito horas, distribuindo panfletos e atravessando a avenida, numa alternância de doer na alma de quem se dispusesse a medir o sacrifício.
No domingo, descansaram. Na segunda, voltaram com a corda toda. Tiraram a roupa de caipira e se montaram de circenses. A palhaça grávida, o palhaço de cabelos brancos e presos num rabo de cavalo e a bandinha barulhenta e desafinada, desta vez tocando músicas de tablado. Preocupado com Heloneida, João Marcino resolveu poupá-la das travessias de avenida. Passaram a obedecer a proporção de uma para três, ainda que escondendo do gerente da loja. As vendas ultrapassavam as expectativas. Quem iria se importar se não havia tempo sequer de fiscalizar o formigueiro que se espalhava na loja com avidez de lobos para o consumo dos pisos de cerâmica simples, dos porcelanatos e das louças sanitárias? O gerente era um só, pois, pois!
Demonstrando cansaço e ainda preocupado com Heloneida, João Marcino decidiu alternar suas travessias a cada três sinais fechados. O gerente não mais disponibilizava as garrafinhas de água mineral, ou de torneira que fosse, como nos primeiros dias. De língua seca, era impossível. Até a bandinha estava mais amolecida e desafinada, principalmente para os tocadores dos instrumentos de sopro.
Às quinze horas do dia 24 de junho, vésperas do final da loucura liquidativa, com a casa cheia, ninguém notou que João Marcino deitou um pouco no chão debaixo das arvorezinhas pequenas e de copas frondosas. Apenas Heloneida sabia que seu homem não deitava por acaso.
A ambulância do SAMU recolheu o corpo sem que o gerente desse conta de que, a seu serviço, debaixo de um sol escaldante, morreu o mais famoso palhaço de Mirandolina. Xixilica era seu nome. Heloneida, esse mesmo, era o de sua esposa.
E, parado o vento, calada a música e o rumor de compradores em promoção, tudo ficou calmo, quase parado. Só o sol continuava seu ofício de iluminar e derreter moleiras.




A casa dos avós traquinas






O trabalho da assistente social Ana Cláudia, todas as noites, era sair na velha Kombi e, na companhia do motorista Pedroca, recolher os pedintes, os cegos e os desabrigados que perambulavam na grande cidade. Como destino certo: a Casa dos Avós, um pequeno abrigo mantido pela Secretaria da Ação Social e cuidado por irmãs de caridade. Os recolhidos a cada noite, inicialmente, eram levados ao albergue, até que fossem avaliados.
Antes de ser albergue, o prédio anexo abrigava senhoras idosas. Mas, desde o “escândalo” de uma tentativa “fracassadíssima” de estupro, elas foram levadas para o outro extremo da cidade. Isso mexeu com a “libido” dos meninos amadurecidos e a casa virou sala de espera da morte.
Alguns idosos, dadas as condições físicas, permaneciam ali e constituíam a razão da obra governamental. No primeiro quarto, de três camas, por mais de uma década, habitaram os velhos Joaquim Moreira da Cruz, Waldomiro Assuero e Malaquias Varela. Os três patetas, como eram conhecidos, desligaram-se das famílias por vontade própria ou pela vontade de Deus. Eram animados e fogosos de recordações. Traziam no peito as marcas e lembranças do tempo em que foram “gente” e, na alma, a sensação do dever cumprido.
No silêncio da noite, o velho Assuero declamava versos de García Lorca, ritmados e cheios de emoção. Saíra da Catalunha ainda moço. Não viu ou viveu a Guerra Civil Espanhola, mas tremia com as lembranças de um grande amor que o deixou a ver navios. Veio ser mecânico de automóveis num país que o acolheu de braços quase abertos. E assim fingiu que viveu. Fingindo. E declamando...

Alma ausente
Não te conhece o touro nem a figueira,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
Não te conhece a criança nem a tarde
porque morreste para sempre.

Joaquim Moreira da Cruz, octogenário, quis esquecer da existência e do que tinha sido o existir. Estava ali, como não cansava de repetir, esperando seu troco para depois partir. Ainda quase lúcido, partiu num dia de frieza aguda, sem os cobertores de carinhos, os que mais esquentam emocionalmente. Partiu quase descoberto, não fosse os dois companheiros de quarto.
Malaquias Varela, inconformado, deixou pra trás seus sonhos de donzela. Tinha alma-mulher sempre ardorosa, exemplo de amante e, quando pensava na morte, só dizia: “Quero morrer envolto em sonhos lindos. Um príncipe virá e tê-lo-ei me possuindo. Minhas carnes vibrarão num gozo eterno. Não quero a morte, quero um riso exagerado e histriônico e uma sensação de ter vivido amado”.
E assim morreu. Veio o mancebo e, numa madrugada, artérias entupidas, entre flanelas mijadas, seu membro estava erguido e um sorriso estampava sua face amarelada e gélida.
Dos três patetas, restava um, somente e único. Calou-se a mulher louca e o octogenário que perdeu o gosto de lembrar seu tempo. Viriam outros. Isso era certeza! O inverno rigoroso sempre será o grande exterminador do futuro dos que têm mais de setenta e, como não poderia deixar de ser, o serviço de “recolha” atingia, na estação, os maiores índices. Ana Cláudia precisava achar dois fujões, pedintes e bastante conhecidos no centro da cidade. Fez campana e acabou encontrando. Primeiro recolheu Nestor Córdoba, viúvo colombiano e ex-jogador de basquete na sua terra. O buraco onde se escondia, uma verdadeira toca, não comportava abrigar suas compridas pernas. O “apartamento” era tão somente uma caixa de alvenaria, rés com chão, onde ficava escondido o registro de água do prédio da loja de materiais de construção. Foi denunciado pelo cobertor vermelho e branco. Não aguentando a garoa fina, submisso, “entregou-se” sem reclamações.
Mais duas voltas na Praça do Comércio, localizou o Vovô Pereba debaixo de camadas e mais camadas de papelão. Os meninos da rua apelidaram-no assim por causa de sua perna arroxeada por uma erisipela. Mas tinha nome e nacionalidade. Vovô Pereba era, talvez, o único francês que perambulava na cidade. Na grande sacola, além de poucas roupas e uma coberta, trazia uma sanfona de oito baixos, surrada, porém cuidada, e sua carteira de identidade, sempre amarrada num saco plástico para não molhar.
Naquela noite não houve reclamações. Os dois choraram no percurso até o abrigo. Um choro de agradecimento. Quando entraram no primeiro quarto, lá pelas tantas, o sobrevivente Waldomiro estava desperto. Ao perceber que “estranhos” ocupariam as camas de seus amigos falecidos, chiou de raiva. Foi necessária a intervenção da freirinha plantonista. Levado pelo cansaço, dormiu. Somente assim, sem xingamentos, Nestor Córdoba e Vovô Pereba puderam tomar suas canecas de caldo fumegante e também gozarem das benesses das camas quentes. Pela manhã, após o cordial bom dia dos intrusos, Waldomiro baixou as armas da antipatia.
A vida transcorria nos conformes e cheia de conformações. A amizade ganhou peso. Nestor Córdoba sacou dos seus pertences as pedras do dominó já desgastadas. Sobre as camas, para não fazer algazarra, às vezes se divertiam até de madrugada. Um barulhinho a mais de entusiasmo era interrompido por Irmã Ludmila e os novos três patetas obedeciam. Já na área externa, outras amizades aconteciam. Somente a sanfona de oito baixos ainda não havia dado o ar de sua graça. Até que um dia, insultado por Waldomiro, Vovô Pereba resolveu provar que não só tocava, como cantava, revelando, a todos, sua alma de Adiós Muchacho e seu sotaque de Frère Jacques. Desembestou num pout-pourri de velhas canções francesas e alguns tangos. Cortou a língua do Waldomiro Assuero abaixo da metade, ou mais um pouco!
Em Ana Cláudia, aquela expressão de musicalidade do Vovô Pereba e os dotes de declamador de Waldomiro Assuero despertaram uma ideia. Com a psicóloga Gláucia, planejaria uma apresentação de fim de ano. Descobririam juntas, fosse como fosse, outros valores entre os internos e iriam à luta. Irmã Ludmila encampou a iniciativa e entrou na onda. Realizariam uma sessão lítero-musical, com cobrança de ingressos e tudo o mais. Uns colchões da casa mereciam troca. Em doze anos de existência, o asilo nunca esteve tão festivo. O depósito de gente antiga foi transformado num puta teatro de homens sábios e experientes pela vida e pelas dores. Com a formação do coral, regido por João Eduardo Milagro, vulgo Velho Duda, o circo pegou fogo. Acabou-se o tempo do “Triste é viver na solidão”. Ensaios, ensaios, ensaios!
Waldomiro declamaria outros poemas de Lorca. O seu “Alma Ausente” já estava gasto pelo tempo e sem a menor graça para os companheiros. No primeiro quarto, trancado, decorava outros. E ai de quem o interrompesse!
Com a aproximação do grande dia, os nervos estavam à flor das rústicas e enrugadas peles. Acessos de tosse pareciam querer inviabilizar a apresentação do coral. Crises renais, taquicardias, mijadeiras noturnas e outros distúrbios de pré-estreia foram a tônica. Irmã Ludmila nunca preparou tantos placebos açucarados em toda a sua vida. Até ela teve que ingerir alguns.
Na sala iluminada, ostentando como cenário uma cadeira e uma mesinha com um jarro florido, foi aberta a festa. Na primeira fila, abancados com certo descaso e pouca fé, estavam o governador e a respectiva primeira dama; o prefeito, o bispo e outras autoridades civis, militares e eclesiásticas. A assistência, a de segundo escalão, ocupava as cadeiras posteriores.
Abriu-se a cortina. De camisa social branca, maestro Velho Duda deu o tom, acompanhado pela sanfona de oito baixos do Vovô Pereba, até então na coxia improvisada no corredor.
― Omm, ommmmm, ommmmmm. Um, dois, três!
De Wagner Tiso e Milton Nascimento, Coração de Estudante. Ninguém desafinou.
“Bravo! Bravo! Bravo!”
Maestro Velho Duda não conteve as lágrimas.
Ana Cláudia, cerimonialista da hora, anunciou:
― Com vocês… para declamar poemas de Federico García Lorca, apresentamos o senhor Waldomiro Assuero!!! Aplausos para ele!
― Aos amigos Joaquim e Malaquias, que partiram antes, e à minha eterna musa, ofereço estes poemas de García Lorca.
E mandou ver: Este é o Prólogo e O Poeta Pede A Seu Amor Que Lhe Escreva. O auditório improvisado quase veio abaixo. A primeira dama do Estado, emocionadíssima, aplaudiu de pé. Waldomiro Assuero, naquele momento, pareceu esquecer a perda dos amigos e do seu grande amor.
Volta o coral do Maestro Velho Duda com peças bastante alegres e apropriadas ao canto coral, e, ao término, foram todos igualmente bem aplaudidos. Só então, com voz embargada, Ana Cláudia comunicou:
― Continuando nossa modesta apresentação, desejando e esperando ter proporcionado alegria aos aqui presentes, traremos ao palco outro querido amigo. Por anos, nesta cidade, foi conhecido como Vovô Pereba. Hoje, recuperado, é um completo artista que já percorreu o mundo com sua velha sanfona de oito baixos, tocando e cantando para transeuntes e amigos de caminhada e desdita. Não existe mais o Vovô Pereba desde que sua ferida física cicatrizou. As outras começam a cicatrizar esta noite… Ao palco, para interpretar, de Carlos Gardel, o tango Silêncio, que diz muito sobre a sua trajetória, apresentamos o Senhor Claude Bousquet! Aplausos!
Vestido de preto, chapéu de feltro da mesma cor e assumindo a cadeira ao fundo do palco, fez a velha sanfona dizer os primeiros acordes da música de Gardel e tema de sua vida e cantou:

Silêncio, é noite, está tudo calmo
A cidade dorme, a ambição descansa
Embalando um berço é uma mãe que canta
Um canto querido que chega até a alma
Porque neste berço está sua esperança
Eram cinco irmãos, ela era uma santa
Eram cinco beijos que toda manhã
Ela recebia em seu rosto amigo
Eram cinco filhos que lhe adoravam.

Silêncio, é noite, está tudo calmo
A cidade dorme, a ambição descansa
Um clarim se ouve, periga a pátria
E em campos de guerra, os homens se matam,
Cobrindo de sangue
Os campos de França.

Silêncio, é noite, está tudo calmo
A cidade dorme, a ambição descansa
Está tudo acabado, renascem as plantas
Um hino à vida, é o que todos cantam
E esta mãe querida, de cabelos brancos,
Fica tão sozinha,
Com cinco medalhas que por cinco heróis
Premiou a pátria.[*]

Sob aplausos, curvou-se e deixou sair da velha sanfona um pequeno trecho do hino da França. Deitou a sanfona na cadeira e, sobre ela, descansou o chapéu de feltro preto tomado emprestado do companheiro Waldomiro Assuero.
Após isso, literalmente, o auditório veio abaixo. Sob uma rajada de assovios entusiasmados, a plateia exigiu a volta do homem da sanfona de oito baixos.
Antes da apresentação final da troupe grisalha, Ir. Ludmila entrou no palco para um breve discurso de agradecimento. Falou dos prós e contras da velhice, do trabalho ali realizado, de suas dificuldades e da satisfação de ser responsável pelo bem estar de “meus velhinhos”. Sem fazer distinção, destacou a potencialidade de cada um dos internos. Na sua visão, eram todos seus irmãos em Cristo, e, na medida do possível, eram felizes. Entre a exposição da rua e a Casa dos Avós, melhor a última. Elogiou, emocionada, o trabalho de Ana Cláudia, Gláucia Maria e José Pedroca, seus auxiliares diretos. Não esqueceu o trabalho voluntário dos geriatras Maria Fernanda e Oswaldo Leme, verdadeiros e necessários amigos da turma ali moradora. Por último, em tom mais sério, agradeceu aos governantes e autoridades por suas presenças e pela manutenção do abrigo. Evitou críticas expressas, tais como o atraso constante dos repasses, por pensar que, para bom entendedor, meia palavra basta e um olhar diz tudo. Finalizando, disse: “Rogo a Deus, na sua infinita bondade, para que, no próximo ano, estejamos novamente reunidos aqui. Todos, se Deus permitir e quiser! E ele há de querer!”.
Abriu-se novamente a cortina. Com pijamas coloridos e chamativos, especialmente confeccionados para o evento, entraram todos. A peça foi ensaiada em dois tempos: a cantada e a falada. O coral interpretaria a música infantil Sapo Cururu, enquanto, no outro extremo do palco, Waldomiro Assuero declamaria, de forma galopante e em superposição ao canto coral, a poesia Sapo no Saco, já interpretada musicalmente por Jararaca e Ratinho. Mais ou menos assim:

Sapo cururu
Na beira do rio
Quando o sapo canta, ó maninha
É porque tem frio
E era o sapo dentro do saco
E o saco com sapo dentro
E o sapo fazendo papo
E o papo fazendo vento
A mulher do sapo
Deve estar lá dentro
Fazendo rendinhas, ó maninha
Pro seu casamento.
Eu agora vai falá é desse noivo Zé Perneta
Que era vesgo de uma perna e de um ôio era maneta
A noiva fazia mala, ele fazia maleta
A noiva tocava trompa, ele tocava trombeta
Sapo cururu
Na beira do rio
Quando o sapo canta, ó maninha
É porque tem frio
Ele escrevia de lápis, e a noiva de caneta
A noiva cortava vara, ele cortava vareta
Ela dormia no carro e o noivo na carreta
Ele fazia carinho e ela fazia careta
A mulher do sapo
Deve estar lá dentro
Fazendo rendinhas, ó maninha
Pro seu casamento.
No dia do casamento, na casa do Zé Fulô
Agora que vô dizê, aquilo foi um horrô
Os dois se recolheram, logo ele estranhô
Ela foi se desmanchando, ele logo se espantô
Sapo cururu
Na beira do rio
Quando o sapo canta, ó maninha
É porque tem frio
Ela foi tirando um olho, depois um braço tirô
Arrancou a cabeleira, ele aí se apavorô
Ele aí tirou uma perna, ela aí logo gritô:
- Minha fia, minha noiva, vê pra mim o que sobrô!!!
A mulher do sapo
Deve estar lá dentro
Fazendo rendinhas, ó maninha
Pro seu casamento.
E era o sapo dentro do saco
E o saco com sapo dentro
E o sapo fazendo papo
E o papo fazendo vento.

Era pra ser assim… Mas deu confusão. Embolou tudo! Os velhos não sabiam se cantavam o sapo cururu ou se falavam o sapo dentro do saco. De olhos arregalados, conferindo o fiasco, Maestro Velho Duda, além de chorar, reclamou desesperado: “Que merda!”.
Que merda coisa nenhuma, Maestro Velho Duda! Foi uma puta apoteose!!! Claude Bousquet deu a maior de suas gargalhadas e Waldomiro manchou a frente da calça do pijama! O governador, por sua vez, também ficou molhado!!! Foi tudo festa! A balbúrdia, o melhor de tudo, não abriu espaço para o discurso do mandatário que, insistentemente, pedia para ser ouvido.
Era madrugada quando Ir. Ludmila, Pedroca e Ana Cláudia, entre um café e outro, viveram o prazer do dever cumprido, a satisfação da festa e o peso da responsabilidade em despertar a vida naqueles que estariam fadados a morrer na solidão.




Felek, o colecionador






Depois de um dia aziago, por toda a noite, entre um gole de café e um cigarro, Bertha fez a retrospectiva de sua vida. Tudo estava chegando ao limite do insuportável. Talvez houvesse até ultrapassado.
De lembrança em lembrança, foi até sua fase menina, ainda na terra natal, onde conheceu as privações do pós-guerra. Lembrou a mãe Casemira fazendo milagres na cozinha e até sentiu o insustentável aroma da fome. A ração recebida do governo e das entidades que operavam com ajuda humanitária, por mais que quisesse esticar, não cobria o consumo. Cinco filhos, quatro netos e o casal, apertados em três cômodos, tinham o conforto da amizade. De nada reclamavam. Se havia macarrão, não faltava o trigo; quando havia trigo, repunha o macarrão. Com jeito, paciência e sem barulho ou blasfêmia, o macarrão triturado virava pão. O pão velho, moído, virava massa que, com receita de família, virava novamente macarrão. Dos ossos da canela bovina, com poucos temperos, Dona Casemira fazia o goulash que a todos alimentava.
Sapatos e roupas novos, por raros, findavam por não fazer falta. Nada tão grave, de fato. Ignorando tamanhos, cores e gêneros, todos usavam as peças disponíveis no armário.
A bebezinha de Afra, de apenas dois meses, para vencer o frio, costumava dormir envolta com o casacão de vigia noturno do avô. Só assim a menina se aninhava, ficava aquecida, dormia e se esquecia de pedir a comida da madrugada.

Tomou outro gole de café e deu asas ao pensamento.

Enquanto o país se restabelecia, lembrou Bertha, tudo foi se ajustando. A comida não mais ficou racionada. Seu pai, com dificuldades e pela metade do salário de antes da guerra, voltou a ser vigia noturno de uma metalúrgica. Afra, a mais velha das irmãs, passou a lecionar em uma escola infantil. Levava sua menina para a creche e, de lá só voltava no cair da tarde. Eram duas bocas a menos na casa de Casemira. Aos poucos, tudo entrou nos eixos. A paz e a união familiar permitiram a travessia.

A angústia trouxe Bertha de volta de suas lembranças. Por mais que tentasse lembrar, nunca se viu tão nervosa como naquela noite. Estava impaciente. E com grandes motivos para tal. Desde que o marido parou de trabalhar, quando migraram para o Brasil, nada mais deu certo.
Vieram os primeiros descontentamentos. Não por causa de dinheiro, nem por conta dos filhos que nasceram na nova terra. A razão principal da tragédia familiar tinha nome e grau de parentesco. Tratava-se de Feliks, ou Felek, como o chamavam. Era o irmão mais velho de Henrik, seu marido.
Por seu gosto, Bertha já o teria mandado para o inferno. Não mais estava suportando a convivência. E quem suportaria? Quem toleraria um doente que, todas as manhãs, ao invés de procurar trabalho, fixava-se na ideia de rápido enriquecimento? Alguém que tinha manias de juntar porcarias na rua como se estivesse angariando gemas preciosas?
Felek, com a aquiescência de Henrik, farejava incêndios e sinistros para, dos rescaldos, juntar objetos que só tinham valia para ele.
E foi nesse farejado que, de certa feita, adquiriu por pouco, mais ou nada, uma partida de alfinetes numa fábrica incendiada. Milhares e milhares de grosas de alfinetes chamuscados e entortados pelo calor de mais de 600 graus centígrados. Caixas e mais caixas de alfinetes para, com a ajuda de Henrik e das crianças, serem desentortados e limpos.
Para Bertha, infelizmente, o incômodo não era apenas a esquisitice de Felek. O que mexia com a sua paciência era ver seus três filhos, abandonando as horas de estudo, serem obrigados a participar daquela loucura. Teria que dar um basta e escolher entre o marido Henrik, Felek, seu cunhado, os filhos ou ela mesma. Estava prestes a enlouquecer.

Mais um tanto de café e mais um cigarro.

Tinha mil razões para decidir entre si mesma e a família. Embora tivesse pedido com modos, passou o tempo e as caixas de alfinetes não saíram do lugar. Não foram aceitas por nenhum comprador. Isso significava noites e noites de trabalho jogadas fora.
Até que, finalmente, foram passadas adiante no escambo da Feira do Passaqui. E, no dia seguinte, chegou Felek, morto de feliz, com um couro de crocodilo de quase quatro metros. Foi a gota d’água! Até então, por mais que tivesse engolido cobras e lagartos, não reclamou diretamente a Felek. Entre estar em conflito com o marido e com os filhos, preferiu um acordo. Na hora do jantar, propôs:
―Henrik, crianças, o que vocês acham do tio Felek ir morar noutra casa? Dobrarei minhas horas de trabalho de costureira e ele fará as refeições aqui em casa. O que acham disso?
― Não, mãe! Tio Felek é muito engraçado! Ele não pode ficar sozinho. Vai morrer de tristeza. Pensa, mãe, tenha paciência com o tio, vai!
Henrik não falou nada. Calado estava, calado ficou. Levantou-se da mesa e entrou no quarto, fingindo-se surdo, mudo e aleijado. E tinha um pouco de razão, talvez. Eram os dois únicos irmãos vivos. Irmãos de vidas tristes e infelicidades compartilhadas.
Somente no outro dia, ao acordar, falou à esposa:
― Faça o que for melhor, Bertha. Meu irmão é um peso morto, sei. E eu, minha querida, embora mais moço, sou mais pesado que ele. Faça o que achar melhor...
Bertha, embora magoada, não queria contrariar o marido. Para Henrik e para as crianças, pareciam normais estas e outras teimosias do distinto cunhado. Coleções de caixas de fósforo, aparelhos de barbear descartados, envelopes rasgados, revistas antigas, sacos de padarias, conchinhas do mar, selos e, por último, uma centena de vidros de maionese onde guardava os pregos que catava nas demolições e construções. Todos separados pelo tamanho das polegadas e expostos na estante da sala ou em qualquer lugar que tivesse uma vaguinha.
Pelo marido, pelos filhos, faria qualquer coisa. Faria o trabalho da casa, costuraria para a fábrica, viraria as noites para aumentar o orçamento, mas, já que todos se voltaram contra ela, faria uma exigência: Felek deveria despachar o couro do crocodilo. Aquele couro de bicho morto, embora velho e curtido, cheirava mal. Quando entrava na cozinha, ao preparar as refeições, o cheiro de carniça que exalava fazia com que Bertha sentisse ânsias.
Aproveitando outro momento de paciência, quase desistindo de tudo, junto aos familiares, incluindo Felek, explanou seu pensamento acompanhado da exigência. E o mundo veio abaixo.
― Não, mãe, não faça isso! Tio Felek vai ganhar uma fortuna de dinheiro com ele. Ele até disse que vai dar o dinheiro todinho para a senhora. Por favor, mãe!
Depois desse apelo das crianças, Bertha ficou enojada quando viu o risinho de vitória nos lábios de Felek. Velho safado! Nojento!
Ao entornar o décimo cafezinho e de fumar outro tanto de cigarros, pensou como Valeska, Veruska e Henrik Filho se virariam na sua ausência. O esposo, sabia ela, era a parte mais fraca da família, porque doente. Mas, se tirou a noite para tomar uma decisão, a decisão seria tomada. A garrafa de café estava quase vazia quando terminou de fazer sua mala. Fumou o último cigarro e saiu como saía todas as manhãs para a fábrica. Dessa vez para não mais voltar.
Já fechando o portão da rua, olhou para a casa, como para se despedir dela e viu Felek na janela. O sorriso irônico estava estampando sua cara maliciosa. Virou-se bruscamente e tomou o caminho da fábrica.
O dia não foi produtivo. Errou feio enquanto costurava duas camisas de punho. Ficou irritada. Em meio aos pensamentos e às imagens e vozes que disparavam em sua cabeça, conseguiu consertar os erros.
Entre, talvez, o quarto cigarro e o terceiro café, decidiu-se por um caminho diferente do planejado. Findo o turno, pegou sua mala e tomou a condução de volta para casa. Lá estava Henrik preparando o jantar e aguardando as crianças chegarem da escola. Felek, para variar, estava na rua. Talvez derrubando latas e catando seus objetos de estimação.
Bertha, dirigindo-se ao quarto do cunhado, foi ensacando as suas preciosas coleções. Passou na sala, catou os vidros de maionese recheados de pregos e, por último, passou na cozinha e desgrudou da parede o fedido couro de crocodilo. Em silêncio, fez três viagens até o portão carregando os trambolhos de Felek e depositou todos eles na carroceria de uma camionete de frete. Feito isto, pagou o motorista, pediu que ele desse um fim naquela carga maldita e voltou para ajudar o marido no término do jantar. Logo chegariam as crianças e o ladino Felek. Com certeza trazendo mais umas sacolinhas repletas de “achados valiosos”.
Naquela noite não se pronunciou palavra durante o jantar. E em nenhuma outra noite ou dia que se seguiu falou-se sobre o episódio. Bertha respirou fundo e, para agradar o marido e os filhos, mudou a forma de tratar o cunhado Felek. Mas, nem por um momento dali em diante, deixou de cuidar do conteúdo das sacolinhas trazidas das ruas.





O Diário de Cristhine Asther Rojas Fuentes






Mal anoiteceu, o primeiro grito. Logo um segundo, abafado, e… um terceiro, cortado ao meio.
Ethienne nem deu tratos à bola. Parou, parou! Já estava cansada de ouvir gritos na casa da conhecida. Não podia dizê-la amiga. Por qualquer motivo ela se assustava. Até quando uma mosca pousava em seu braço era motivo de faniquitos. Mas aqueles gritos soaram diferentes. Soaram, sim. Nada podendo fazer, desligou-se por completo. Ethienne só ouvia e registrava o que queria ouvir. E registrar, consequentemente!
Pouco antes das oito, outro grito. Este foi mais doído. E mais curto. Logo as luzes da casa foram todas apagadas e Ethienne mais nada ouviu. Reinaram silêncio e escuridão. Pensou chamar Ricardo, ex-médico e marido de Cristhine. Desistiu. Fosse um mal estar, ele cuidaria. Fosse uma cólica, medicaria. Fosse mais grave, conduziria a esposa para o hospital mais próximo. Por volta das onze, ainda mais abafado, um gemido e nada mais. Não se atreveu a oferecer ajuda. Nem tinha curiosidade tão aguçada para assim agir. Mais cedo, usou o telefone e não foi atendida. E foi dormir sem dar tratos à bola e sem registrar o que não gostaria ter ouvido. E fim!
No outro dia, passado o vento, tudo voltou a parecer normal. Do jirau, antes das cinco da manhã, os cumprimentos de sempre.
― Oi, Cristhine! Passou bem a noite?
― Sim, Ethienne. E você?
Passaram bem a noite. As duas. Ethienne evitou falar dos gritos abafados. O casal era jovem e bem poderia ter brincado de “acha eu”. Nesta brincadeira, nos costumes antigos, o marido procurava a mulher através de pistas deixadas com roupas espalhadas nos diversos cantos da casa. Havia erotismo na tal brincadeira. O ato de amor só se concretizaria quando fosse achada a calcinha e no exato lugar onde fosse encontrada. Se na sala, na sala. Se no chão do banheiro, no chão do banheiro. O assunto morreu aí. Não era curiosa e sabia do bom que era trepar.
Cristhine Asther era de origem sueca. Seus pais, geólogos, migraram para a Bolívia, instalaram-se em Oruro e trabalharam nas empresas de pesquisa e exploração de minério pertencentes a Dom Patiño, o Rei do Estanho. Ele, sim, o mesmo que originou Walt Disney a criar o personagem Tio Patinhas, que nadava em piscinas de moedas de ouro. As minas de Potosí não tinham fundos. E Patiño não tinha preguiça. E aliou-se a bons sócios, inclusive. E adquiriu o direito de explorar minas e mais minas. E foi dono da Bolívia. E impiedoso com os mineiros...
Tempos depois, quando Cristhine ainda era mocinha, foi morar em La Paz. Foi ali que a menina conheceu Ricardo Rojas Fuentes, estudante de medicina. Ali casaram. Contra a vontade dos pais de ambos. O choque cultural era mais que evidente. E a educação, idem.
Neste período, na década de 40 o império de Simon Patiño, já nas mãos de Antenor, seu filho, declinava. Declinava não é bem o termo. O governo boliviano decidira nacionalizar as minas. Até os dias de hoje, entretanto, o nome do cholo Simon Iturri Patiño, o imperador, faz o maior sentido no país hermano. Há os que o adoram e os que o odeiam. E, do fundo das minas, ainda ecoam lamentos dos que sucumbiram.
Ricos, ainda, os pais de Cristhine voltaram para a Suécia. Insistiram para que a filha e o marido os acompanhassem. Que nada! Ricardo empacou e, em nome do laço do casamento, fez com que a menina também ficasse. Grávida de poucos meses, apaixonada, deixou que os pais voltassem sozinhos.
Miséria pouca é tiquinho; desgraça muita é vizinho ruim, diz o dito. Descoberto em falcatruas no estado boliviano e por erros no desempenho da profissão, Ricardo foi cassado nos seus direitos políticos e profissionais. Os grandes chefes militares não perdoavam! Fora o lixo boliviano! Por la pátria, compañeros! Viva Bolívia, nuestra pátria querida! Gritos de guerra eram ouvidos por las calles. De norte a sul, de leste a oeste.
O lixo Ricardo Rojas Fuentes bandeou-se de mala e cuia para o Brasil. Ainda tentou exercer a medicina, no que foi impedido, felizmente! De genro de um auxiliar direto do império de Simon Patiño, o Rei do Estanho, virou o Rei das Saltenhas. E foi no Brasil, na região fronteiriça, que nasceu Juan Simon Patiño Asther Rojas Fuentes – o Juanito. Nasceu sem pernas e com apenas tocos de braços. A talidomida havia feito mais uma de suas vítimas. Por prescrição do próprio pai. Sem culpas, diga-se. Fossem condenados todos os médicos que se valeram da talidomida...
Juanito, segundo Ethienne, foi a criança mais querida e bem tratada pela mãe. Do pai, em dobro, teve o desprezo. Durou pouco o menino. Não resistiu às fragilidades da época. E o casal ainda estava jovem.
As finanças estavam de mal a pior. As saltenhas, embora saborosas, não geravam a fortuna do estanho e nem eram compatíveis com os honorários médicos. Muito trabalho e pouco ganho. Vida difícil! Por mais que Cristhine se desdobrasse. Tinha tremores de cansaço e maçãs do rosto em brasas. De sol a sol, debaixo do calor infernal amazônico, o forno de barro assava as empanadas famosas e representativas da gastronomia boliviana.
Os ventos sopravam os dias. Vez por outra, entre brisas, Ethienne ouvia coisas. Deviam vir da brincadeira do “acha eu”. Não, não era. Era improvável que ainda mantivessem tanto tesão para o esconde-esconde. Há muito não se brincava mais disso. Deixou de ser moda. Havia, isto sim, sessões de tortura na casa vizinha. Certa ocasião, não tolerando mais tantos maus-tratos, confidenciou com Ethienne sobre as atrocidades do marido.
Um dia, luzes apagadas e muitos gritos, Ethienne sentiu-se na obrigação de chamar a polícia. Arrombada a porta, sobre a cama, deformada, estava Cristhine. Seu rosto desfigurado parecia uma bola de carne moída. A agressão foi tamanha que roubou-lhe os sentidos.
Em flagrante, sem desculpas, o Rei das Saltenhas foi levado pelos policiais. No mês seguinte, com a ajuda das autoridades brasileiras, Cristhine embarcou para junto de seus pais, em Gotemburgo, na nórdica Suécia.
Os relatos narrados em um cuaderno de apontamentos de Cristhine, nunca mostrados ao mundo, dizem, com passagens encobertas por tarjas pretas, do sofrimento de um ser humano que, por anos, experimentou períodos de terror e sofrimento. Saiu da escravidão com a altivez própria das mulheres verdadeiramente dignas. Entre receitas com a utilização de calabazas, choclos, maiz, papas e frijoles, as razões que levavam o marido a fazê-la a mais humilhada das criaturas: a fortuna dos seus pais. Ele a queria a qualquer custo.
Na última narrativa sobre torturas sofridas, estavam os planos sórdidos de Eduardo Rojas Fuentes: Cristhine deveria pedir uma viagem até onde eles estavam e lá, sem deixar rastros, ele mesmo daria fim aos dois. Herdeira única...
Ethienne ficou aliviada. O Rei das Saltenhas, torturador por vocação, cumpriria o seu degredo. Os reinados acabam. Até o de Simon Patiño, cuja memória causou orgulho aos seus herdeiros. Com uma diferença: a história de Cristhine é verdadeira. É real. A de Simon Patiño, sabe Deus! Sua biografia oficial mais parece fantasia. Biógrafos da época, entretanto, dizem de outra faceta do bilionário, não bem ao estilo de Walt Disney.
Das minas de Potosí ainda ecoam gemidos e uivos de dor. Na alma e no coração de Cristhine reina a paz. Não quis viver às custas dos pais e, corajosamente, empenhou-se em ter seu próprio meio de vida. Em Gotemburgo, até pouco tempo, era a rainha das saltenhas e delas sobreviveu. A iguaria fez mais sucesso que a sopa de urtigas com couve e era o que ela bem sabia fazer.
Do repulsivo Eduardo Rojas Fuentes, felizmente, Ethienne nada mais soube. “É o inferno o seu merecido lugar”, assim responde quando perguntada.




Os tempos eram assim…






Quem viu Marinês aos 55 anos, em seu último de vida, por mais que tenha sido amigo íntimo, ainda que desde a infância, não a reconheceria. A tristeza no seu rosto parecia impressa com ferro em brasa. Ode marcar o gado.
E foi bonita, mimosa e faceira a menina Marinês… Tinha viço, carisma e alegria quando Manuel a conheceu. Filha de gente da alta, ainda assim, não garantiu direitos de viver suas próprias escolhas. O pai, um empresário forte da construção civil e a mãe, uma juíza de direito do interior, não hesitaram em dá-la como caução da grande dívida acumulada pela desordem financeira do casal. Marinês tinha apenas 16 anos… A dívida dos pais chegava a quinhentas vezes isso. Tão grande quanto o amor de Manuel pela menina, a bela menina, cujos dentes pareciam mais um colar de pérolas.
Os tempos eram assim…
Tempos de grandes obtusidades…

Numa reunião entre o pai, a mãe e o presidente da câmara cível, ficou decidido: a partir da sentença favorável aos réus, Marinês passaria a pertencer ao desembargador Carlos Rosas pelo menos três vezes por semana, à exceção do mês em que sua legítima esposa e os três filhos, então residentes em João Pessoa, viessem a estar com ele. Marinês deixou de ser gente e passou a ser uma espécie de coisa dada em pagamento. Abriu-se a margem para que a tristeza se instalasse e encardisse seu jovem espírito.
Quando quis se revoltar, estava tarde, bastante fora de tempo. Prevaleceu a lei do mais forte. Conseguiu sair das garras do seu dono ainda bem jovem. Desiludida e amarga, irremediavelmente amarga. As chagas da vergonha ficaram nela impregnadas e Manuel já estava vivendo uma vida de esposo e pai.
Os tempos eram assim…
Tempos do império das maldades…

Para os que conheceram Marinês, doeu a visão do seu final. Num American Bar de periferia, sobre o palco iluminado com luzes roxas de cabarés sem classe, ela tombou. Estava cantando a música Molambo quando caiu com um estranho engasgo. A próxima música seria Devolvi. Músicas de lamentos e reveladoras das dores dos amores mais profundos. No chão, com luzes direcionadas e precisas, através da boca entreaberta mostrava dentes apodrecidos e amarelados, infinitamente distantes de serem aquelas pérolas que ostentou na mocidade.
Entregue ao álcool e às noitadas sem freios, fez da voz e das baladas tristes as únicas alternativas de continuar respirando. Do amor, não mais sabia. Sabia, sim, ser suicida de morte em doses homeopáticas. Sabia...
Tornou-se um molambo. Um molambo qualquer.
Sem julgamentos, somente Manuel chorou na sua despedida e, sobre o caixão barato, ao lado de uma rosa, deixou uma fotografia de Núbia Lafayette, a cantora preferida de sua eterna amada.
Os tempos eram assim...
Tempos de atraso...





As meninas de Renoir






A vida de Maria Francisca Teixeira Frias, pode-se afirmar, foi um inferno. Dureza! Desde que perdeu o pai, aos onze anos, e a mãe, aos treze, virou órfã rejeitada. Os parentes não a queriam como parente, mas como serviçal. Conheceu muitos patrocinadores da porrada. Era destemida, ainda assim. Amadureceu a pulso, nadando contra a maré.
Obrigada a trabalhar para manter-se de pé, saudável e tanto quanto possível sem perder o imprescindível candor juvenil, conheceu o lado infame e cru da existência. Bonita, prendada, voluntariosa, enérgica e odiada pelos parentes, teve que ser três vezes forte para não ser engolida. Pelo tio e tutor, Éllio Frias, num voar de horas, teve dilapidados os bens deixados pelos pais.
O seu primeiro emprego, ainda menor de idade e sem baixar a cabeça, foi como vendedora de bananas. Num pequeno boteco de janela levadiça, deu os primeiros passos na trilha do saber o que era o bem e o mal e na do viver com o que fosse fruto do seu trabalho.
Vender bananas rendeu-lhe economias. Estudou nas horas vagas e aperfeiçoou sua educação. Não é demérito vender bananas ou melancias. Roubar, sim, pensava. Naquele boteco de nove metros quadrados, com paciência, entendeu as suas perdas sem lamentar. Entre bananas, livros de filosofia, gramática, direito e literaturas diversas, formou-se aos vinte e cinco anos. Sem dinheiro para anel, baile e convites, virou bacharel em Direito. Estava preparada para novos desafios da vida e, por concurso, dentre mais de trinta candidatos, tornou-se assessora jurídica de uma empresa pública. Ainda assim, pretendia chegar mais longe. Juíza, talvez!
Preparada, consistente e de opiniões fortes, não demorou muito a criar desafetos. Como é sabido, quase em sua totalidade, as empresas públicas costumam semear safadezas para colher vantagens e comodidades. O antes admirado conteúdo de Maria Francisca e a perfeição de seus pareceres e despachos foram jogados para escanteio. Por vezes, e não raras, foi tentada ao convencimento de mudar os parágrafos e criar desvios na lei para justificar erros da diretoria e do conselho diretor. De imediato, contra dispositivos estatutários e necessidades, outro assessor, dispensado de concurso, foi empossado para a mesma função. Maria Francisca, a despeito de sua seriedade, foi empurrada para um canto escuro do prédio, sem acesso a livros, informações e convívio.
Acostumada ao limitado espaço territorial do seu boteco de vender bananas e sem medo do bicho papão do obscurantismo, passou a acumular provas concretas sobre os descaminhos do seu colega tampão e sobre os atos de sabotagem e desvios do primeiro escalão. Nas horas de folgas forçadas, que eram muitas, lia com avidez. Sentia-se, no entanto, um peso morto. Ganhar sem trabalhar não estava nos seus projetos. Acontece, e ninguém pode duvidar, o ostracismo adoece. Não seria diferente com a moça Maria Francisca.
Doente, resistia ao fardo das dores. Chovesse canivete, transbordassem os oceanos, no horário de entrada, batia o ponto e se recolhia ao bureau entre o arquivo morto e o almoxarifado geral. E foi aí que, numa manhã quente, desfaleceu. As colegas Emília e Regina Célia, únicas entre muitas, por acaso e bondade, ao passarem para a saudação do convencional bom dia, encontraram-na desacordada. Juntada do chão foi conduzida ao pronto atendimento.
Na enfermaria, já desperta e posta para hidratação e acalmamento das dores, sentiu-se confortada ao ver as amigas. Sabedora de que o seu caso era grave, revelou estar precisando de ajuda. Na descrição de sua doença ela dizia que, no período pré-menstrual, sentia como se estivesse prestes a colocar um enorme ovo. Um ovo de avestruz, reforçava para que se fizesse entendida.
Numa segunda-feira sem luz, impecavelmente vestida, Maria Francisca foi levada ao consultório do Dr. Arnaldo Gueiros. Escoltada por Emília Abdul e Regina Célia Gouvêia, dada a fraqueza. Ali, friamente, após apalpada minuciosamente, ouviu o diagnóstico que, traduzido para o português correto, rebuscado e castiço, significava que a paciente estava atacada por uma histeria própria das virgens inconformadas com a ausência de atividades sexuais. Que precisava de homem, pois, trocando em miúdos.
Emília e Regina entreolharam-se. Ensaiaram um riso amarelo até. Contiveram-se. Seria maldade! De que valeriam dois risinhos perversos para ajudar na cura de Maria Francisca? Afora arranjar-lhe homem, melhor ver o que poderiam fazer para curar a histérica e neurastênica virgem.
Prontificadas e resolutas, nada mais conveniente que partir à busca de outro parecer. Um médico pode errar sozinho. Ouvidos dois, as chances de erro diminuem. Qual nada! Dr. Adler Murad, sem delongas e apalpados, reforçou o “tenho dito” do colega: a paciente Maria Francisca Teixeira Frias sofria de distúrbios mentais provenientes de “frescuras crônicas” de virgens revoltadas e contrariadas com o próprio destino. Tudo psicológico! Tudo psicológico e do mundo das luas.
Munida do laudo e prescrições, no centro de atendimento aos doentes mentais, Maria Francisca Teixeira Frias foi submetida a várias sessões do tratamento radical, à época, aplicável ao caso. Nada mais a dizer. A sensação de expulsar o ovo de avestruz, a cada período que antecedia a menstruação não parou com o tratamento incorreto e desumano. Era persistente e insuportável. Como admitir ser psicológico?
Passados quase dois anos, sem progresso, Emília e Regina Célia, em nome da misericórdia e dos sentimentos cristãos, decidiram fazer o que era de praxe: uma cota entre amigos. Fosse para Maria Francisca ser salva, fosse para ser enterrada, cada amigo ou inimigo íntimo da exímia funcionária contribuiria com míseros três por cento do seu salário para que ela pudesse buscar, num centro mais adiantado, a resolução da postura do ovo de avestruz. Morte ou cura! Não havia nem mais, mais, nem menos, menos, e nem deixar para depois de amanhã. Além das dores e dos gritos, o seu aspecto físico minguado era deprimente.
O arrecadado rendeu mais que o esperado. O presidente da empresa, no afã de ficar bem na fita, ofereceu uma moto modernosa e possante para ser levada a um jogo de bingo entre os empregados, no que foi seguido pelos demais diretores. Talvez para retirarem os pesos de suas consciências, todos eles acompanharam o gesto e ofereceram uma prenda. Boi, bicicletas e aparelhos de TV, aumentariam o bolo da subscrição em benefício da saúde da funcionária exemplar.
E rendeu! Tanto rendeu que, retirado o valor da passagem só de ida, da hospedagem e do necessário estimado ao tratamento e despesas com acompanhante, sobrou o suficiente para a compra de roupas de banho, calcinhas de renda e camisolas plissadas para durante o internamento. Morresse ou vivesse, deveria ser com dignidade.
No seio da tacanhice, nada foi tão dorido para Maria Francisca que a divulgação do seu processo doentio. De ética e de sentimentos, os que faziam piadas de mau gosto, nada sabiam. Nos salões de beleza, nas feiras e nas celebrações, quaisquer que fossem, era tida como louca e olhada com desprezo. Seu nome era sinônimo de chacota. Sentia-se como se fosse mil zeros à esquerda. Um nada! Um grão de merda! No escondido, chorava.
Na maior cidade do país, bem atendida e diagnosticada, caiu nas mãos de um cirurgião renomado. Maria Francisca Teixeira Frias, em tempo ainda apropriado e suficiente, retirou do útero um tumor maior que uma laranja. Um tumor possante em termos de diâmetro e putrefação. Ao que ela chamava de ovo de avestruz. O que a fazia desfalecer. O que a fez tomar choques no gabinete da loucura. A reboque, que desgraça pouca é tiquinho, uma histerectomia completa. Trompas, útero e ovários foram extirpados.
O pensamento da época, hoje questionável e até vergonhoso de se declarar, era o de que determinados órgãos não vitais, quando passíveis de estrago e contaminação, deveriam passar pelas degola. Era comum entre membros da sociedade médica ligada à saúde da mulher afirmar que, passada a idade da procriação, eles – os órgãos –só serviam para alojar o não bem-vindo câncer. A teoria mudou. Dizer isso por dizer e em voz alta, na atualidade, é como fazer apologia de um pensamento mutilador do corpo feminino.
Dos trinta e sete quilos que envergava antes da viagem, a doente mental tão propagada e vilipendiada voltou aos mais de sessenta, compatíveis com sua idade e altura. Não escondia a felicidade. Não precisou de psicólogos ou psiquiatras. A amizade e o carinho de Emília e Regina Célia lhe emprestaram suprimentos. Pele limpa, corada, pôs em mente que as dores e lamentos fariam parte de um capítulo acabado.
Daquele emprego público, nada esperou. Ficou na geladeira. Não por muito tempo. Estudou com afinco e prestou concurso para juiz de direito. As mazelas, por sorte, não diminuíram sua capacidade de pensar. Na primeira fase, obteve nota máxima. A segunda, com louvor, tirou de letra.
Restava-lhe, então, acertar as contas com os que quiseram-na crer histérica e louca. Esses, sim, estavam na lista suja e precisavam de uma lição. Imaginava-se encontrando os médicos e cuspindo em suas caras. Imaginava-se aplicando bordoadas nas suas fuças.
Não, não e não! Retribuísse na mesma moeda perderia a razão e a decência. Vinganças não combinavam com o seu modo de ser e com sua educação. Preferiu a beleza do perdão. E perdoou. Havia outra maneira de enfrentá-los: o caminho da lei e da justiça.
O processo contra os dois médicos rendeu-lhe uma pequena fortuna. Perda irremediável de órgãos por descaso profissional: o juiz considerou que foram negligentes, imprudentes, imperitos e mais outro tanto de motivos condenatórios listados nos códigos, nas orientações teóricas da prática da medicina e no Código de Ética Médica.
Maria Francisca recebeu pelas mutilações internas, pelo tratamento de choques, por direitos futuros – gerar filhos foi um deles – e, por último, pelas vergonhas e humilhações experimentadas e sofridas. Sentença dada, sentença cumprida. A vingança aconteceu através do baque em suas contas bancárias, não obstante os recursos e esperneados.
Num último ato, contra o presidente e diretores da empresa onde trabalhava, fez chegar ao Parquet as provas que pacientemente colheu. O escândalo e a queda dos seis picaretas foram inevitáveis. Junte-se ao episódio, além da vergonha, a obrigação de devolver bens e valores desviados.
Cumprida a missão, sentimentos de vingança enterrados, chegou o tempo e foi chamada a assumir suas novas atividades na magistratura, onde permaneceu por muito tempo e onde conquistou respeito, admiração e reconhecimento dos colegas de toga.
Hoje, melhor que nunca, idosa que esteja a antes sofredora Maria Francisca Teixeira Frias, princesa de nascença, escrava por destino e salva no soar do gongo, desfruta do pequeno castelo que construiu para viver. Ao invés do boteco de vender bananas, usufrui de seus brincos dourados e de suas camisolas plissadas. Quem passa na larga avenida e desvia o olhar pode vê-la na janela da primeira torre, tal qual uma menina de Renoir, a ler seus livros de direito, filosofia e outras literaturas.
Duas coisas mantêm fincadas no seu proceder: o refinamento e o senso de justiça. Não foi vencida. Fez a carreira imaginada. Justificou a que veio. Aposentada, elegante e discreta, enterrou o passado e sobre ele não joga flores e nem acende velas. Como na música dos Novos Baianos: Acabou chorare!
Emília Abdul e Regina Célia Gouveia foram e ainda são sua família e amigas nas horas do chá, do carteado, da música clássica e da leitura. Uma amizade que atravessou os tempos. E lá se vão mais de cinquenta anos. No castelinho, como os de bonecas, dois aposentos foram destinados às amigas-irmãs e beneméritas. É no jardim de inverno, junto ao laguinho das carpas de cores vibrantes que se reúnem para colocação dos papos em dia. Vistas juntas, matraqueando sem parar na alegria dos finais de tardes, parecem três meninas. Três meninas de Renoir.





Os pastéis de dona Dozinha






Desde que saiu de sua terra, por mais que tenha se esforçado, Dona Violeta Cardoso não achou mais rumo nem prumo. Seu estado passou a ser depressivo, a viver sob fortes medicações e a cultuar a tristeza. Deixou amigos e irmãos longe, o que afastou de vez a alegria. A idade lhe pesando toneladas.
Em terras novas, perto de seus filhos e netos, sentia-se desesperadamente só. Sentia que os filhos, depois que formam família, viram outra entidade. Via de regra, assim o é.
Os dias de Dona Violeta, na lerdeza das medicações, resumiam-se a ficar numa cadeira na cozinha, onde marcara território, ou no quarto, dormindo a perder de vista. Uma situação quase vegetativa. Aqui, acolá, atacada por algum tipo de aborrecimento ou de saudade, chorava silenciosamente.
Alguns dias antes, um dos seus meninos terminou a construção de sua bela mansão envidraçada e para lá mudou-se cheio de entusiasmo. Não se tratava de uma simples mansão, mas uma mansão com três cozinhas, assim dispostas: a primeira e mais completa, nos moldes das construções americanas, é integrada com o grande salão de estar. Um balcão de mármore que serve de bar, iluminado com lustres coloridos, guarda o painel onde estão embutidos fornos elétricos, geladeira e freezer de aço inoxidável e um fogão que não levanta chamas, desses para lá de atuais. Tudo de extremado bom gosto e modernidade.
A segunda cozinha, menos luxuosa, faz parte da área da piscina. Ali estão uma churrasqueira elétrica e todos os elementos necessários à feitura de grandes churrascadas. É o copiado tal de espaço gourmet.
Por fim, lá no fundão, junto com a lavanderia, está a terceira cozinha, também dotada de todos os equipamentos e eletrodomésticos. Segundo os donos da casa, é nela que a empregada cozinhará e fará a “sujeirada”, evitando, desta forma que circule pelo corpo da casa não somente o cheiro da comida, como o da empregada, também.
Embora assustada com a suntuosidade, Dona Violeta Cardoso nada falou. Nem elogios, nem críticas. Desgostosa, bastante envergonhada ficou quando soube que uma das serviçais havia sido demitida “por justa causa” pelo simples fato de, na hora do lanche, haver oferecido uns salgados e um copo de refrigerante a um braçal quase idoso que carregava os objetos mais pesados da mudança. Esse simples gesto, no severo julgamento dos donos da casa, foi interpretado como um enxerimento próprio das mulheres da vida e que não sabem o que é se dar ao respeito. Daí a demissão.
Ao tomar conhecimento de tudo, ainda na cozinha, Dona Violeta chorou. Não sabe se de vergonha, de tristeza ou de revolta. Nada falou e, quando recolheu-se ao quarto, passou a lembrar um tanto de sua vida, de sua história e de sua mãe. Eram tantas as dificuldades…
Durante toda a noite, sem ter com quem desabafar, lembrou-se do quanto eram chuvosos os meses de outubro, novembro e dezembro, na cidade onde nasceu. O mercado ficava desabastecido de tal forma que, mesmo tendo dinheiro na mão, não havia o que comprar. Dona Dolores, ou Dozinha, como era chamada, sempre dava um jeito. Previdente, para aguentar um tanto do inverno, mantinha na despensa uns enlatados de fiambre, apresuntado e corned beef, da Wilson, salsichas da Swift e camarões salgados da Leal Santos.
Noite longa, teve tempo e não deixou de recordar dos pastéis ocados de Dona Dozinha, servidos aos domingos. A massa era bonita, os fritados enormes, mas a carne era rala. Por ideia própria, Violeta arrumou um jeito de enchê-los com o arroz de xerém, lambuzado com manteiga de nata e banana frita. Bastava abrir um buraco na quina do pastel e, com uma colherinha de chá, colocar aquela pasta no seu interior. Aí, sim, o “de vento” tornava-se um pastelão. Bastou isso e todos os seus irmãos passaram a imitá-la. Só de lembrar o fato, salivou e até pareceu sentir o cheiro bom da fritura dos pastéis de sua mãe.
Quase sempre o almoço virava uma festa. As lembranças vinham aos borbotões e Violeta até sorriu quando lhe veio à mente o dia em que Cristina e Norma, mãe, filha e lavadeiras da casa, aproveitando a estiagem chegaram com as roupas lavadas no justo horário do almoço. Dona Dozinha, sem pestanejar, deu um dos seus pastéis para Cristina e pegou um dos de Violeta para a Norma. Naquele mesmo domingo, por sorte, Cristina presenteou Dona Dozinha com uma franga de primeira pena e a tadinha (da franga), virou uma bela canja para o jantar. Como eram bonitas as lavadeiras que caminhavam léguas com as roupas cheirando a raiz de priprioca ou a colônia vim-de-cá. O que ia sujo de lama voltava limpíssimo à custa da força dos seus braços e destreza das suas calejadas mãos.
Já amanhecia o dia quando Violeta voltou a lembrar e lamentar o fato ocorrido na mansão envidraçada e que resultou na demissão sumária da serviçal que ofereceu salgados e refrigerante ao braçal idoso que ajudava nas tarefas mais pesadas.
Neste momento sentiu vontade de, na primeira oportunidade que tivesse, contar aos netos sobre os pastéis de sua mãe e na grandeza que representa a divisão do alimento. Fizesse isso, talvez até pudesse evitar que as crianças passassem a crer que a pobreza é criminosa ou que a bondade reside nas pessoas bem aquinhoadas e que possuem mansões envidraçadas que dispõem de três cozinhas. Não, não é possível fazer isso. Desde sempre já foi avisada pelos pais que a educação das crianças é exclusiva deles, sem interferências de avós.
Na casa de dona Dozinha, com uma cozinha só, que dispunha de um fogareiro de barro feito num tambor de óleo e uma trempe de ferro, apesar das poucas opções e da falta de ter o que comprar, havia o espírito da solidariedade e o respeito ao próximo, por mais pobres que fossem esses próximos. Seria bom contar isso para os netos. Mas...
Antes de entregar-se ao sono, cansada da tristeza e da viagem que fez no tempo, Dona Violeta pareceu ouvir sua mãe Dozinha dizendo a tão repetida preleção de que “o pouco com Deus é muito; o muito sem Deus é nada”!
E estava certa!





Reduto dos capetas






Clara, és tu?
Não, meu bem. Quem está falando é a Indira Gandhi. Fale, Zé Fabiano!
Tens um tempinho para conversarmos? Já chego aí.
Clara e José Fabiano são amigos desde a adolescência. Na era dos “bichos grilos”, relembram com saudade, até curtiram um paz e amor juntos. Andaram bebendo umas gororobas estranhíssimas, o tal “chá de champignons”, mas escaparam com vida. Hoje, sessentões, mantêm a mesma amizade, embora não mais vivam um pendurado no pescoço do outro e se visitem somente de vez em quando. Daí, como de se esperar, a ligação do amigo deixou Clara em estado de total felicidade.
Anda pra dentro, coisa feia! Que bons ventos te trazem aqui?
Os ventos do desespero, amiga. Entrei numa fria daquelas. Já te conto.
Agora, não! Vamos para o quarto que a cama é lugar quente. Vamos?
José Fabiano, desde os tempos do Reduto dos Capetas, nome que deram à chácara da comunidade alternativa, era um estudioso do esoterismo: tarô, baralho cigano, runas, i ching, e mais um tanto de instrumentos de difícil leitura. Adorava fazer massagens e outras terapias orientais, principalmente o shiatsu e o do-in. Na tenda onde dormia, não raramente, havia filas para uma consultinha básica. Não ganhou dinheiro, mas sim, uma legião de amigos que lhe entregava donativos e prestava grandes favores.
Já no quarto, sobre a grande cama, Clara esperou o “tratamento” mais aplicável ao seu estado físico e mental. Foi o artifício que encontrou para deixar José Fabiano mais calmo até que, de forma menos galopante, contasse sobre os ventos da desgraça que o trouxeram até sua casa. Ela conhecia o amigo até pela voz. Sabia de sua ansiedade.
Relaxada, cheia de massagens védicas, abriu espaço na cama, puxou-o para o lado, pegou sua mão e vergou o ombro para ouvir o chumbo grosso prestes a ser disparado.
Clara, lembras da Berenice? A Berê?
Evidente! Até sou madrinha de uma das filhas dela.
Da Maria Olívia ou da Suzaninha?
Da Maria Olívia.
É dela que quero falar. Tens visto tua afilhada nos últimos anos?
Não. Se encontrar aquela garota na rua... Vai passar batida. O que tem a minha afilhada a ver com os ventos da tua desgraça?
Tudo, minha amiga. Tudo! Ela não é mais uma garota. É um mulherão e um tiquinho mais. Vou te contar: sabes bem do respeito e admiração que tive, tenho e terei para com as mulheres. Nunca dividi casa com nenhuma delas por não querer abrir mão da minha privacidade e, menos ainda, invadir a delas. Minha opção em não ter filhos foi dita repetidas vezes para as que eu amei e que me amaram, antes mesmo que se estabelecesse a ideia de formar casal. Assim foi com Ivani, com a Ellen e com a última, a Selena. Somente a Ellen não aceitou esta decisão e, sem rusgas, decidiu buscar em outro homem os seus desejos de maternidade, no que foi bem sucedida. A morte de Ivani significou um pouco a minha própria morte. Foram dezenove anos de total carinho. De Selena, posso dizer que os interesses e a visão de mundo dela não me tocaram e que a recíproca foi verdadeira. Terminou quando acabou.
Clara percebeu, durante a lembrança da morte de Ivani, que José Fabiano embargou a voz e apertou mais fortemente a sua mão. Pediu-lhe um time antes que entrasse no assunto dos ventos da desgraça.
Enquanto preparava dois drinques providenciais, na verdade um traçado de Rum Montilla - carta ouro, Licor de Menta e folhas de hortelã, pensou no quanto talvez fosse difícil um relacionamento com o amigo. Seus gostos e atividades, quase de certeza, não deveriam agradar plenamente uma mulher, fosse mais nova, fosse mais velha. Na Universidade, onde estudou e até hoje trabalha como orientador de mestrandos e doutorandos nos estudos das civilizações antigas e na história da arte (principalmente a dos povos dos antigamentes), não deveria ser fácil estabelecer uma linguagem comum numa relação a dois. Para completar, a “esquisitice” é, ainda, amante de música de câmara, daquelas que fazem dormir. Por tudo isso, há que se entender que não são assuntos que muitos dominem e apreciem. E ele vibra. Vibra tanto quanto um adolescente entusiasmado com a informática. O amigo é quase um nerd de antiquário, pensou Clara. E daí, se é isso que o Zé Fabiano aprecia?
De volta ao quarto, sem reservas, convidou-o a recostar-se numa imensa almofada de tecido indiano, como nos remotos tempos. Tomando os drinks, em bebericos, recomeçaram as confissões de adolescentes.
E a Maria Olívia, filha da Berenice? Que aconteceu com ela?
Parecendo aguardar que o álcool agisse nos seus neurônios para encorajá-lo, deu um suspiro longo, fechou os olhos e falou:
Ela é louca! Estou diante de uma louca que vai me fazer mais louco que ela. Sabes que escrevo meus artigos na revista da universidade e tenho um espaço semanal que posso utilizar com textos meus e dos alunos. Há três meses, exatos três meses, fui procurado por uma docente do curso de Geologia. Era a Maria Olívia. Trazia nas mãos um texto sobre a recente descoberta de um sítio arqueológico aqui mesmo na região. Mandei-a entrar na minha sala e, após uma rápida espiadela, decidi marcar novo encontro para uma discussão mais detalhada. O texto não estava nada bom. Nem parecia ser de autoria dela, mas de uma principiante no tema e na escrita.
E foi aí que tudo começou? Agendaste com a mocinha para ir à tua casa pra conhecer melhor o dinossauro, foi assim?
Nada disso! Quis mesmo, isso sim, livrar-me dela o mais rápido possível. O que não falta na minha mesa são textos bons de alunos da minha área. Temas relevantes, digo mais. O próximo a ser publicado será o de um doutorando que estabeleceu um comparativo entre a produção artística dos povos indígenas das Américas, cheio de riquezas e que especifica muito mais do que já foi dito sobre o assunto.
E nem avisaste isso para a moça? Talvez ela entendesse e não se sentisse dispensada de primeira. Falta de tato, hein?
Na segunda vez que esteve comigo, pra não gastar tempo, não discuti o texto. Prontifiquei-me a encaminhá-lo ao editor. E só. A reação dela me tomou de assalto. Ao invés de agradecer e zarpar fora, agarrou-me pelo pescoço, juntando seus lábios aos meus. Ela babava. Empurrei-a. Com delicadeza, mas…
Maria Olívia fez isso? Que loucura, amigo!
Fez muito mais. Transtornada por completo, caiu num choro assustador e disse aos berros que me amava, que estava apaixonada, que lia tudo o que eu escrevia e que meus textos levavam-na à loucura. E ali mesmo, no centro da minha sala de trabalho, teve o que posso comparar a um frenético orgasmo. Custou-me acalmá-la, até que se foi completamente desgrenhada e com ares de louca de pedra. Não pude saber o que se passou fora da minha sala. Naquele mesmo dia viajei para um congresso na Colômbia. Passei cinco dias conhecendo gente de notabilidade mundialmente reconhecida. Cinco dias no paraíso que não me deixaram tempo de pensar em mais nada. Como parte da programação, estive em Usme, sul de Bogotá, no local onde estudantes colombianos fazem a varredura num cemitério indígena que remonta a 1500 anos. Somente ali, quando senti uma lâmina fria na espinha, é que o fantasma de Maria Olívia se fez presente, quebrando o encanto da visita.
Uia!!! É mais grave do que pensava…
Na minha volta, com farto material, dirigi-me para o auditório. Lá, com meus orientandos, outros discentes e alguns professores do curso de história, passaria slides e distribuiria cópias dos temas tratados no conclave. Sorri para a turma que me aguardava com interesse pelas novidades científicas e pelas novas abordagens no estudo dos povos e culturas milenares. Tudo estava no clima, até que descobri, sentada na primeira fila, a minha surtada paixão e tua afilhada Maria Olívia. Mal deitei o material sobre a mesa, fora de controle, ela correu em minha direção e grudou-se em mim como se um carrapato fosse. O coração dela batia tão acelerado que podia ouvi-lo. A sensação foi de que se fundia às batidas do meu, a esta altura, tomado de pavor. Senti-me nu diante dos meus amigos. Havia histeria nos olhos e nas demonstrações de alegria que ela queria fossem verdadeiras e bem aceitas.
Jesus Cristo! E tu? Como escapaste desta?
A plateia entendeu minha agonia. Aleguei uma indisposição, recolhi o material e saí.
E depois?
Não pensei muito e fui ao encontro da Reitora. Bem recebido, fiz um relato bastante detalhado da nada fácil situação. Depois procurei Berenice e, da mesma forma, pedi ajuda. Por ser mãe dela, acreditei, a questão poderia ser solucionada. Ledo engano! Berenice não fala com a filha faz mais de dez anos. Da reitora, entretanto, veio o apoio. Não sei o que foi feito ou dito, mas, pelo menos no território da universidade, não senti mais nenhuma perseguição ou qualquer forma de esbarrão.
Uia!!!
Uia, coisa nenhuma! Passei a ser vigiado e seguido fora da escola. Nos bares, nos restaurantes e até nas proximidades do meu prédio. Telefonemas mudos feitos em orelhões, sms passados de lan-houses e celulares de amigos sem que estes soubessem. Uma miséria! Caixas de chocolates caríssimos me foram entregues por meninos de rua que transitam nas proximidades da instituição e ramalhetes de rosas vermelhas e cravos foram deixados na portaria do meu prédio. E mais… e mais… Um sem fim de peripécias bem próprias de uma psicopata, sociopata, louca varrida ou qualquer outro tipo de pata que se atravessou no meu plácido caminho. Estou vivendo um inferno.
Zé Fabiano, queres conselhos? Queres colo? Queres o quê? Já conversaste com esta maluca para explicar que não tens nenhum interesse por ela?
Conversei. Levei-a ao shopping, sentamos na praça de alimentação e, de forma paternal, contei-lhe um tanto da minha vida e da amizade com a mãe dela nos bons tempos da juventude hippie; disse-lhe que podia ser feliz na companhia de outro homem que não eu e que aquele assédio incômodo estava atrapalhando a minha rotina e o meu trabalho. Disse-lhe mais e muito mais. Ela só chorava e tentava segurar minhas mãos e meus braços. Pediu-me um beijo. Implorou, até.
Não saíram da estaca zero?
Não. Ao levantar da cadeira, disposto a encerrar a conversa, veio a tacada final. Com muito ódio no olhar, abriu a bolsa, mostrou-me uma arma branca com cabo de madrepérola, mais ou menos do tamanho de um canivete suíço e avisou-me que se mataria. Que daria um golpe na jugular ou cortaria os pulsos.
Pare, pare, pare! Quando foi isso?
Ontem.
Pois bem, agora chega! Amanhã mesmo irás a um posto policial. Registrarás um boletim de ocorrência. Fernando Alves Gama, meu advogado, te acompanhará e instruirá nos passos e procedimentos a seguir.
Mas…
Zé Fabiano, não tem mais nem menos! Maria Olívia será convidada a prestar depoimento e o delegado abrirá o necessário inquérito. Não sairás da minha casa até segunda ordem. Cancelarás todos os compromissos. Comunicarás a ausência à reitoria e aos teus alunos. Alegue doença ou qualquer outra coisa. O certo é que daqui não sairás.
O clima pesou. A noite foi passada em agonia. Clara bem que tentou fazer umas gracinhas, falando que iria preparar um kit suicídio para a doida da afilhada e recitando trechos do poema de Drummond "E agora, José?"
Até ensaiou uma estrofe:
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

A tensão não permitia gracejos. Nos rápidos cochilos, assustado, Zé Fabiano dava pinotes no vazio. Já manhã, por volta das nove, fizeram contato com o advogado e este, sem se fazer de rogado, às dez horas, no saguão do prédio, aguardava o novo cliente.
Na volta da Delegacia foi que Clara ficou sabendo dos detalhes mais graves do caso. Na presença do advogado, disposto a encontrar solução e proteger sua vida é que Zé Fabiano revelou ter sofrido duas tentativas de homicídio praticadas pela insana Maria Olívia: a primeira por atropelamento, numa rua quase deserta e outra, mais grave, numa fechada em seu carro, quando na descida da serra.
Chamada a prestar depoimento, como não poderia deixar de ser, Maria Olívia negou os fatos e, pior ainda, quis inverter a situação. O certo é que, por precaução, foi designado um policial à paisana para dar proteção a Zé Fabiano e outro para seguir os passos de Maria Olívia.
De volta ao seu ninho, mais tranquilo, Zé Fabiano pôde encerrar suas atividades docentes e viver sua vida dentro da normalidade tão desejada nos últimos meses. Clara despreocupou-se. Não por completo, mas…
A trégua durou pouco. Na véspera do ano novo de 2009, sorrateiramente, Maria Olívia atacou outra vez. Desta vez pra valer! De posse de uma arma de fogo, após horas de campana, seguiu Zé Fabiano, quando este se dirigia a um clube campestre para participar de uma confraternização com os amigos. Ainda no estacionamento ele foi atingido por dois tiros, ambos de raspão. Pra não morrer, jogou-se ao chão e fingiu-se morto. Com o rabo do olho, aliviado, viu sua tenaz perseguidora sair em disparada. Dali, acompanhado por dois amigos, foi diretamente para o PS, onde passou pelos necessários procedimentos e, em seguida, rumou ao encontro do delegado.
Nesta mesma noite, em horário adiantado, Maria Olívia foi detida. O bico da arma ainda cheirava a pólvora e o agente não quis saber de conversa mole. Dois dias depois, liberada, foi encontrada morta em seu apartamento. Ao lado do corpo, além da arma branca - a mesma mostrada na praça de alimentação do shopping -, um bilhete encerrando sua trajetória de delírios, dizia: Zé Fabiano, morri te amando. Maria Olívia.
Alguns poucos dias mais, depois de arriada a cortina, uma ligação já esperada por Clara.
Clara, és tu?
Não, Luiz Fabiano. É a Princesa Isabel. Estás vindo?
Chego já! Arrumaste meu quarto?
Não. Arrumaremos juntos. O Reduto dos Capetas tem que ficar com a nossa cara. Paz e amor, bicho!
Só paz! Só preciso de paz. Muita paz!
O assunto Maria Olívia foi arquivado em definitivo. Entre um chazinho de canela e outro de camomila, o sossego fez casa de morada. Os champignons há muito aposentados. A marijuana, idem. Na vida nova não há sinais dos momentos undergrounds, exceção apenas para alguns discos de Eduardo Gudin e um enorme pôster de Janis Joplin.
Na brincadeira das brincadeiras, já lá se vão três anos de harmonia e companheirismo no novo Reduto dos Capetas. Clara sabe tudo dos astecas, cherokees, maias, kulinas, katukinas, ashaninkas, kaigangs e guaranis. Sabe muito da cultura útil das velhas civilizações e aprendeu a gostar de música de câmara e de trovadores de todos os tempos e lugares. Para ela, mais que tudo, vale a companhia. E o Zé Fabiano, sem querer, querendo, encontrou a mulher da sua vida. Cada um no seu quadrado, como sempre quis deixar claro.





Tia Neca, Zé Taveira e São João

Danei a faca
No tronco da bananeira
Não gostei da brincadeira
Santo Antonio me enganou
Sai correndo
Lá pra beira da fogueira
Ver meu rosto na bacia
A água se derramou[†]




O Recanto da Serrinha, do velho Antonio João de Campinas e de Dona Constância, virou reduto das grandes comemorações juninas nas redondezas do Riozinho das Antas.
Por ter nascido no dia de Santo Antonio, ainda no início do século passado, o chefão e bom nordestino começava pelo novenário, já no primeiro dia, só dando por encerrada a festança no morrer do mês. Ficavam as saudades…
Os filhos, Adonay e João Alberto de Campinas, pessoas de forte influência na cidade, traziam amigos e mais um magote de gente da classe alta. Quem fazia a festa, mesmo, eram os sitiantes e os filhos deles. O povo da cidade só comia e apreciava de longe, quase por imposição das relações de amizade. Essa gente melindrosa não se mistura facilmente. E nem gosta de aluá!
Na cozinha, suando que nem chaleira, Sebastiana Preta, ainda que manquitolando sobre a perna menor que a outra uns vinte centímetros, comandava as quituteiras de acordo com as ordens de Dona Constância. Com olhos de lince e sorriso de gavião, ela espiava o ponto do mungunzá (ou chá de burro, como chamava), a corada do guisado de capelão ou guariba e o acerto do ponto das demais iguarias dos santos de junho. “Comidas pra inglês nenhum ponhar defeito”, dizia a dona da casa.
Tia Neca e Zé Taveira, viúva e filho do finado Aldenor Taveira, assumiam o terreiro. A lenha das fogueiras era “ponhada” em lugar seco e coberta com uma lona de caminhão para não ficar enjambrada com a umidade. “Fogo bom é fogo pipocante e sem fumacê”, asseverava Tia Neca, vaidosa e consciente de sua relevante função. Quando elogiada pelo dentista Dr. Calixto ou por outro visitante pela beleza do fogaréu, alargava o sorriso de dois dentes e, abraçada ao filho, dizia:
Seu dotô, eu e Zé Taveira num queremo omilhar o Aldenor, nem depois dele mortinho e enterradinho. Era dele a função de atiçar o fogo pra alegria e viço dos santo. Enquanto viveu, foi vaqueiro e responsavi de fazer arder os pau. Agora, nas memória e nas honra dele, é eu e esse menino aqui, o meu Zé. Ele só tem doze ano maise já se declara como homi e pau pra toda obra.
Doutor Calixto, escutando aquela prosa, virou-se para Tia Neca e reclamou:
Pois bem, Dona Neca, todas as crianças estão brincando, menos seu menino Zé Taveira. Deixe ele ir brincar com os garotos. Não prenda ele, tá certo?
A resposta veio da ponta do bico e bem do seu jeito:
Tudo bem, ele vai, mais só adispois de fazer o que tem que ser feito. Minhas pernas não atura mais ir pra lá e pra cá pegá pau pra atiçar a fogueira. No final, fique tronquilo. Ele vai se desbaldá de brincá e fazê zoeira. Deixe o Padre Antunes sair, tás me ouvindo? O padre disse pra nóis que os santo fica triste quando o fogo não alteia e fica murcho, vosmicê entende? Ele ainda me avisou que, sem fogueira, na outra festa os santinho fica aborrecido, não passa nem na frente da casa e zarpa pra outras banda.
Por volta das duas da manhã do dia 24, foi-se a comitiva da cidade. Quase não havia mais comida nem aluá e, só então, Zé Taveira pôde ir para a corrida da caça ao boi fujão. A corrida consistia numa variação do esconde-esconde. Um menino era o boi e saía em disparada para um esconderijo. Os outros, feito malucos, procuravam encontrar o fujão. Quem encontrasse ganhava prenda. A prenda da vez era uma bola de futebol, das legítimas, patrocinada pela esposa do Dr. Calixto. O Zé Taveira, que conhecia cada palmo das terras, mas nunca havia possuído uma bola, aloprou na busca. Desabou com gana e não passou pela cerca de arame farpado.
A pancada foi grande demais e, quando voltou do impacto, tascou a cabeça num toco de pau de aquariquara e desmaiou. Não achou o boi fujão, mas ganhou a bola. Na impossibilidade de ir até o hospital da cidade, a sangue frio, Dr. Calixto remendou a boca do moleque e deu uma olhada no seu coco para ver se não tinha afundado. A bola, assim, virou uma espécie de moeda de enganar besta e anestesiar curativos. Deu certo!
Cinco anos depois desse acontecido, já em 1975, com o olhar perdido da bobeira, Tia Neca não mais cuidou de atiçar os “pau” da fogueira. Seu menino Zé Taveira, engraçado e “enfeitiçado” por Nina Rosa, uma moça velha de seus trinta e lá vai pancada de anos, largou a mãe e foi viver com seu rabo de saia bem longe do Recanto da Serrinha. Desde então ela não quis mais saber de fogueira. Numa cadeira de balanço, ao lado de Seu Antonio João de Campinas e do Dr. Calixto, agarrada à bola ganha por Zé Taveira, ela escutava a música preferida do falecido marido Aldenor.
Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Como no céu vai sumindo
Foi numa noite, igual a esta
Que tu me deste o teu coração
O céu estava, assim em festa
Pois era noite de São João
Havia balões no ar
Xote, baião no salão
E no terreiro
O teu olhar, que incendiou
Meu coração.[‡]

 Do nada pro nada, deu um pulo e berrou a plenos pulmões:
Zé Taveira, garoto encapetado, te achega aqui seu danado! Ocê num vai correr atrás de boi ninhum! Toma, pega tua bola e brinca aqui perto d’eu e de teu pai! Anda, diabo!
Violenta, arremessou o brinquedo de estimação do filho, ganho na noite em que perseguiu um boi fujão, rasgou a cara e quase teve o crânio afundado.
A bola quicou no terreiro, uma, duas, três e mais vezes. Até que parou...




Famosos e Reencarnados






Desde novo, ainda em Baturité, onde foi dado à luz, Seu Thomé Avelino dedicou-se ao estudo de biografias, textos bíblicos e assuntos ligados à mitologia. De filósofos, personagens do Grande Livro, reis, rainhas, imperatrizes e figuras mitológicas, sabia tudo. Citava Platão ao padeiro como se falasse de um velho conhecido do Ceará. Inclusive sobre a sexualidade do filósofo. Se duvidassem, daria detalhes dos particulares de Hipócrates como se este fosse um dos vaqueiros de suas fazendas de gado.
Casado com Zuleika (nome nobre, exaltava Thomé), batizou os onze filhos, por ordem cronológica como: Regina Vitória, Thor, Sócrates, Catarina, Cassandra, Fernando de Castela, Nabucodonosor, Napoleão, Ísis, Hilquias e Maria.
O tratamento em casa, principalmente com as meninas, era com deferências e honrarias. Sua Alteza Regina Vitória, por ser mais velha, achava tudo aquilo muito louco. Já adulta, não esquecia o mico que pagou na festa de 15 anos, (ul)trajada com um modelito do século XIX, cheio de babados e frufrus. Na sua lembrança, a coroa improvisada, mais parecia um solidéu, ornado com pérolas baratas e que, em nada, combinava com o vestido. Por ser a mais velha, recaiu sobre seus ombros o peso das alucinações paternas.
Dos irmãos, não tinha inveja. Exceto de Maria. Os outros, a depender das idiotias do pai, também pagaram preço. Não tão alto, mas pagaram. Maria, não. Não era princesa, nem imperatriz, menos deusa de coisa nenhuma. Não era filha de Príamo e Hécuba, nem tinha premonições. Era Maria, por descuido, ainda bem! No dia em que foi registrar a caçula, o gado das fazendas estava caindo como peças de dominó e Thomé não pensava noutra coisa. Só na aftosa. E ficou Maria, quando, na verdade, deveria ser Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana - a louca! Não houvesse acontecido o incidente com as vacas e com os bois, Thomé estaria morto. O gênio de Maria, bipolar e impiedoso, não deixaria por menos.
Felizmente, reconhecia Regina Vitória, ainda que seus irmãos carregassem esses nomes, nenhum levava a sério as explicações dadas pelo pai. Thor, por exemplo, fazia galhofa dos trovões. Nas tempestades, quando moleque, corria para o terreiro e tomava altos banhos de chuva. Afinal, ao Deus dos Trovões, não era permitido temer estalicos de bufas vindos do céu. Nabucodonosor, por sua vez, estava pouco se lixando para a Babilônia e seus suspensos jardins. “Não gosto de flores, nem no chão, nem penduradas. Odeio samambaias!”, dizia, rindo-se do pai. Hilquias, o menino santinho que virou ateu, nada tinha a ver com sua origem bíblica e seu significado hebraico de ser a porção de Javé. - “Só se for a porção dos culhões” - admitia.
Regina Vitória, dentre a ninhada de irmãos, foi a única que não quis casar. Por opção. Mesmo! Em casa, assumiu a responsabilidade das fazendas e dos pais - idosos, a esta altura. Vendo que os velhos Thomé e Zuleika, dia após dia, perdiam a noção do tempo e da realidade, resolveu anotar alguns depoimentos deles. Um dia, talvez, escrevesse sobre a história de um bravo cearense e sua analfabeta companheira. Munida de caderno e caneta sempre ao alcance de suas mãos, entre uma e outra refeição, fazia perguntas.
―Pai, por qual razão você nos colocou estes nomes tão feios? Feios, não! Exóticos! Por quê?
―Rainha Regina Vitória, minha filha, não são nomes feios, menos ainda exóticos. A Rainha Vitória, que dominou o império britânico no perío…
―Não, pai, isso eu já sei. Quero saber se você não pensou que a gente poderia sofrer gozação na vida toda. Que a gente poderia ser infelizes? Responda!
―Regina Vitória, minha rainha, você já foi uma reencarnação de Messalina. Voltou como escrava e está na sexta ou sétima fase de retorno ao mundo dos vivos. E não terminará como Vitória. Ainda terá de vingar a sua vida escrava. Voltará como mãe de seus antigos donos. Fará com eles pior do que a si fizeram. Seu irmão Thor, em vidas anteriores, foi carrasco. Na morte de Jesus, ele esteve presente. Depois, viveu um pintor dinamarquês que foi assassinado. Voltou como boêmio das noites francesas, seduziu mulheres e contraiu doenças do mundo até morrer debaixo de uma ponte, na companhia de miseráveis. Ainda reencarnou como astrólogo. De seus irmãos, infelizmente, é o que mais voltará. Ele não se redimirá tão facilmente. Leia sobre a lei do carma, minha rainha! Só nela encontrará respostas para as suas dúvidas e poderá entender seu velho pai.
Quando percebia que o pai estava cansado, titubeando, ou brigando com a memória, Regina Vitória encerrava os questionamentos. Era a vez de ir “entrevistar” a mãe.
―Mãezinha, como você se sentia quando papai escolhia os nossos nomes? Não achava esquisito?
―Não, minha querida. Todas as vezes que ele dizia os nomes que queria dar pra vocês, eu achava lindos. Concordei com todos. Escute: da vida, você desconhece os mistérios. Não sei dar grande explicação. No campo da espiritualidade, não sei. Minha vida atual pertence ao mundo da ignorância, mas, em outras vidas, já fui mãe e, também, amante do seu pai. Ele pode explicar os detalhes para você. Apenas uma coisa eu lhe peço: perdoe seu pai e, se possível, me perdoe também. Ele tem coração mole. É um pote de manteiga derretida de amor por vocês.
Aquela breve resposta de Zuleika deixou Regina Vitória pensativa e intrigada. Decididamente, no outro dia, esclareceria a confissão. Somente o pai seria capaz de desvendar os fatos. Os mistérios, seja lá!
―Pai, quem você foi em vidas passadas?
―Onde quer chegar, Regina Vitória?
―Apenas quero saber. Posso?
―Minha filha, fui duas vezes papa. Primeiro, fui Urbano II, o fundador das Cruzadas. Tempos de guerra, minha filha. Tempos difíceis. Essa dor que sinto no ombro é resultado da estocada de uma lança. Fui atingido por um herege. Depois, muitíssimos anos depois, já no século XVII, reencarnei como o Alexandre VIII. Antes de ser este papa, meu nome era Pietro. Lembra-se quando eu gostava de fazer a citação latina "Tu es Petrus et super hanc petram ædificabo ecclesiam meam”? Sempre mantive essa frase na minha cabeça. Já fui Pedro, minha rainha! Tenho mais de dez reencarnações. Numa delas, fui amante de uma renomada cafetina europeia de nome Arethusa, hoje, no corpo de Zuleika, sua querida mãe e minha atual e magnânima esposa.
―Vá devagar, papai!
―Depois de ter sido duas vezes ligado à igreja, não retornei ao mundo para um aperfeiçoamento de minha fé. Pelo contrário. Naveguei no mundo do pecado. Você, Regina Vitória, quando Jade, foi minha filha e fruto do meu amor pela cafetina Arethusa. Já nos cruzamos antes, entende? Saiba, desde já, que sua passagem pelo mundo não terminará na presente vida. Você voltará. Seu cuidado conosco não encerra sua obrigação aqui na terra. Mais duas vezes e sua missão neste fedorento mundo estará cumprida. Depois, irá para um recanto de purificação de almas e encontrará, à sua espera, o verdadeiro Hilquias, um anjo de bondade, que lhe conduzirá ao céu, ao verdadeiro reino de Javé. Antes disso, haverá sofrimento. Amortize suas dívidas, pois!
Regina Vitória, satisfeita, ou não, lacrou as páginas do caderno. Deu-se por feliz em cuidar de Thomé Avelino e Zuleika, pais de sua vida no aqui e no agora. No mundo fedorento, no dizer de Thomé. É feliz solteirona. Sempre que pode, nas reuniões com amigos, conta as graças e traquinagens senis do velho pai. Como piada, por exemplo, a reação dele ao ver Fernando Collor na televisão pela primeira vez, quando afirmou: “Minha filha, esse menino já foi meu filho. Ele descende da linha direta do anjo Lúcifer”. Um dia, junto aos irmãos, quando contou essa passagem, Nabucodonosor, gargalhando, perguntou:
―Regina Vitória, papai não falou para Vossa Alteza Reverendíssima se alguma das vidas passadas dele não pertenceu a Alois Alzheimer? Também foi um rei!!! Rei dos gagás!
―Posso perguntar, Nabucodonosor. Agora, me responda você, sem gaguejar, por que o nome de sua filha é Sissi? Tem a ver com a imperatriz? Não poderia ser Romy? Hein?
―Taí uma boa idéia para batizar minha próxima filha!
Nas fazendas, chifres lustrosos, os reprodutores Nostradamus e Natanael gozavam de plena saúde, para alegria de Regina Vitória e felicidade das vacas de Thomé Avelino. Muita gente famosa ainda dependia do dinheiro do velho cearense que foi duas vezes papa e amante de uma cafetina europeia que se chamava Arethusa. Se nas outras vidas foi provido, nesta agora é provedor. Como manda a lei do carma!





Lições de Antônio Mulato Benevides






De tanto bater roda naquele trecho, de cor, salteado e até de olhos fechados, Antônio Mulato Benevides sabia de cada curva, cada buraco e dos caminhos onde os bichos atravessavam a pista mais comumente e de forma inesperada. Já lá se iam vinte e cinco anos de pneus furados, calor massacrante, chuvas impiedosas, atoleiros a perder de vista e quase intransponíveis, poeira maldita e passageiros desnorteados.
A hora de parar se aproximava. Seu espinhaço não mais respondia a uma freada brusca. As pernas arroxeadas anunciavam uma trombose a qualquer momento. Era hora de parar, sim, mas antes deveria treinar dois novos motoristas para a renovação do quadro da empresa. Ensinar, precisamente, não o caminho. Este e outros, inclusive os descaminhos, qualquer um poderia aprender sozinho. Deveria, isto sim, dizer das armadilhas e dos percalços. Regras básicas de defesa e de ataque, inevitáveis e necessárias à arte do bem viver de um trotamundos.
Pé de Chumbo e Pega à Unha, como eram conhecidos Odonias Firmino e Joel de Souza, acreditando, ou não, prestavam atenção ao que dizia Mulato Benevides. Às vezes, pelo pecado do excesso, eram tantas as marolas e tão detalhadas as fantasias que, em coro, apenas diziam: “Conta outra, Benevides!” Durante a viagem, de forma sacana, se revezavam nas perguntas cretinas.
Conte, vamos!
Ó, bando de otários, vou contar não. Rezem para que nunca aconteça com vocês o que já aconteceu comigo. Nesta BR, eu já vi caboclo peludo atravessando a estrada em noite de lua cheia. Já vi mulher parindo menino com cabeça do tamanho de um coité grande e sem dar um único gemido. Vi índios segurando sucuri de quase oito metros e com um bezerro na pança. Vi de tudo, moços! Mais até do que precisava ver.
Vá dizendo, vá!
Eu já carreguei o menino Zezé de Camargo quando ele começou a cantar.
Virgem Maria! E ele cantou pro senhor ouvir?
Não, seu bestalhão, ele cantava pra quem quisesse ouvir. Até hoje sou fã desse menino pelo tanto que era humilde. Se um dia encontrar com Zezé, pergunte se ele já cantou na praia da Base e na balsa do Madeira.
E o Roberto Carlos? Carregou?
Não, quem carregou o Roberto Carlos foi teu pai, filho duma égua! E nas costas! Cabra besta! Só burro carrega alguém no lombo, ouviste bem?
Qual foi o pior passageiro que o senhor já transportou nesta vida?
Ó, rapaz, já carreguei até defunto. O pior dos piores entre os piores, entretanto, foi uma mulher. O castigo dos castigos e o maior desgosto que já passei na minha vida. Deixem chegar ali na balsa que eu conto. É uma longa história.
Era bonita ou bruaca e requenguela?
Era uma mulher. Uma mulher... Espera chegar à balsa, demente! Não sabes que o apressado come cru!
A fila de espera para a travessia do Rio Madeira era quilométrica. Os passageiros desceram para comer os “brebotes” gordurosos e os três motoristas ficaram na cabine conversando. Pelo fato de serem responsáveis pelas vidas que conduziam, eram terminantemente proibidos de ingerir “quebes” de macaxeira e arroz. Na maioria deles havia bactérias e todo tipo de porcarias próprias das comidas de beira de estrada. Naquelas bandas, sim. Isto posto, só biscoitos Maria e bolachas Cream Cracker. Para engolir com refrigerantes ou sucos naturais.
Desembucha, Benevides! Como é que era a sua mulher fatal? Loura, linda, morena, magra, gorda, nova, velha, sorriso Colgate ou desdentada?
Vejam, a dona era de meia idade e forte, tipo setenta e cinco a oitenta quilos bem distribuídos. A BR-364 ainda era (e é!!!) um inferno de piuns, mucuins e carapanãs. Peguei o carro em Vilhena, tão logo depois da vacinação contra a febre amarela, e o colega antecedente me avisou que tinha uma passageira trabalhosa e impertinente, com destino a Rio Branco. Ela queria fumar quando as janelas estavam fechadas e descompunha quem tentasse sentar na cadeira vazia ao seu lado. Era bonita a danada!
Passou ela no toco e no rolo?
Fazendo de conta que não ouviu a insolência de Pega à Unha, Antonio Mulato Benevides continuou.
A dona acendeu um cigarro bem na hora em que um senhor de idade entrou e sentou-se ao lado dela. Tossindo e espirrando como se tivesse cheirado rapé, o velhinho foi à cabine para fazer a reclamação. Parei o carro, fui falar com ela e o desaforo veio na hora: “Negro filho da puta, quem você pensa que é? Por esta e por outras razões é que não gosto de preto nem de pobre! Ô raças vagabundas!”. A “zinha” era negra como eu, fiquem sabendo!
Pega à Unha, revoltado, vociferou:
Benevides, homem, mas tu foste muito frouxo demais da conta! Eu teria jogado esta égua na beira da rodagem e metido o pé no acelerador.
Não é assim, meu caro! Houvesse um posto policial eu teria tomado a decisão acertada e registrado uma queixa. É assim que deve ser, e assim é de lei. O comandante do navio, o do avião, o condutor de veículos coletivos, seja trem, seja ônibus, é o responsável por manter a ordem e a segurança, ouviram? Não havia posto policial e tive que continuar. Agora, por favor, não interrompam mais. D’uma encarrilhada só, eu conto o fim do drama.
E continuou:
Durante a travessia da balsa, vocês sabem, nem que seja a mãe de vocês, pode ficar a bordo. Jamais esqueçam essa regra de segurança! É sempre melhor tirar um afogado de dentro de um rio do que tirar um afogado de dentro de um ônibus afogado num rio, entenderam? E a dona queria porque queria ficar lá dentro, mas, sem alisados e com voz grossa, obriguei-a a descer. Lasquei-me de cabo a rabo, mas cumpri minha obrigação. A dona desceu e, na rampa de pranchas de madeira, enfiou a canela numa das brechas e ficou engatada.
Bem feito! Deus é justo!
Cala-te, Pé de Chumbo! Posso acabar? Tu queres ser motorista, açougueiro, carrasco ou Deus?
Nestas horas, juro, só queria mesmo ser era doido!!!
Pois bem, o grito de dor que a dona deu, nem que eu viva duzentos anos vou esquecer. Foi um verdadeiro esturro de fera ferida…
E seguiu contando:
Corri, meti meus braços debaixo dos sovacos dela e puxei-a pra cima. A canela já estava roxa e sangrando. Juntei-a do chão, carreguei aquele monte de quilos para o ônibus e fui fazer um primeiro socorro. Peguei minha toalha de banho no encosto da cadeira, tirei as pedras de gelo da minha frasqueira de água e embrulhei a perna da distinta. Rapazes, ela se urinava de tanta dor. Ainda assim ela me xingava de negro filho da puta, corno e de veado pra baixo! A diaba blasfemava contra Deus e contra todos. Confesso que nunca ouvi tantos palavrões duma boca só! Minha coberta de lã, para que o mijo da braba dama não escorresse pelo ônibus inteiro, lhe serviu de fraldas. A cada mijada, debaixo de gritos, eu parava o carro, descia e torcia a coberta para recolocá-la debaixo da bunda da sofredora e irascível criatura. Quando cheguei ao primeiro local que tinha telefone, ainda cumprindo minha obrigação, liguei para a empresa e pedi que fosse mandada uma ambulância para a rodoviária a fim de encaminhá-la para atendimento. Também dei o número do telefone da casa de uma irmã da madame para que fosse aguardá-la e providenciar internação e tudo o que fosse necessário. É assim que vocês têm que fazer numa situação dessas. Esqueçam as raivas, ofensas e tudo o mais.
E pode ter mais?
Pode! Pega à Unha e Pé de Chumbo, entendam de uma vez por todas: aqui nesse finzão de trecho e de mundo, sem lei e sem ordem, tudo pode! Tanto é que, ao retirar a senhora acidentada de dentro do ônibus e colocá-la dentro da ambulância, a irmã dela cuspiu na minha cara e, por ser influente na cidade, através de um político, conseguiu que eu fosse dispensado da empresa.
Nesse momento a fisionomia de Benevides mudou. Mãos crispadas, olhos avermelhados pela retenção das lágrimas e parecendo ter trazido o ontem para o agora, disse aos futuros motoristas que o escutavam atentamente:
Ao chegar em casa, encontrei minha esposa muito doente. Ela veio a falecer logo em seguida, e, creiam, sem que nada disso soubesse. Paguei o preço por ser negro e honesto em total silêncio. Meses depois fui recontratado pela mesma empresa que agora emprega vocês. Espero que tenham a mesma sorte e a mesma serenidade que tive no cortar estradas e lidar com gente e animais. Honrem a profissão.
O restante da viagem foi com pouca prosa e muitos pensares. Pé de Chumbo e Pega à Unha entenderam o pranto e a dor de Mulato Benevides. Sequer pediram para escutar os CDs com as músicas do seriado Carga Pesada e os da Sula Miranda, reverenciada rainha dos caminhoneiros e viajantes das estradas deste bravo e esburacado país.
Em Vilhena, no ponto de apoio, a janta foi tranquila, mas não tanto. Pega à Unha mexia-se na cadeira como se tivesse pregos na bunda. Captando as razões, ouviu de Mulato Benevides:
Pergunta logo, homem! O que queres saber mais?
O que aconteceu com a mulher? Ficou sabendo de alguma notícia dela?
Não sei. A vida dos passageiros não importa. O próprio nome já diz que são passageiros, que passam… Espero que ela tenha sido muito feliz e arranjado dinheiro para só viajar de avião.
No outro dia, pela manhã cedo, embarcaram para a viagem de volta. Conferidos os passageiros, bem na primeira poltrona, Mulato Benevides viu uma índia com duas crianças. A “mais” grandinha tinha cara de capeta e, antes mesmo da partida, já estava dando uma ideia do que poderia aprontar. Não deu outra!
O moleque fazia cooper, salto com vara e salto a distância no estreito corredor do carro. Era um atleta. Depois tropeçava, caía, levantava e abria um berreiro enlouquecedor. Uma melequeira danada escorria da boca e do nariz do cabeça de bagre olímpico. Ainda assim, corria novamente, se esfregava nos passageiros, limpava o nariz na capa das poltronas, até que, exausto, deitou no colo da mãe e dormiu. De repente, danou-se a vomitar e a chorar.
Pega à Unha, vai ver o que está acontecendo ali e cuida! Tens que limpar o carro! Ninguém aguenta pixé de vômito. Cuida!
Logo eu, Benevides?
Sim! Depois o Pé de Chumbo, se precisar, vai atender o pajé mirim. Cuida, homem!
Ao voltar para a cabine, cara de poucos amigos, foi recebido pelos colegas com galhofas e piadinhas. Benevides, muito sério, olhando para o ajudante roxo de raiva, faz a pergunta pronta e ajustada para a hora:
Queres dirigir?
Por qual motivo?
Ora, ora. Para que possas parar o carro, jogar o indiozinho filho d’uma égua na beira da rodagem e pisar no acelerador!!! Não é assim que pensas?
É o que dá vontade! Bom seria poder estrangular!!! Vida de merda!
Calma, amigo! Muita calma!
Daí pra frente, muito esperto, o indiozinho ainda fez umas danações. Nada que atrapalhasse o trânsito e a audição da música Fogão de Lenha, nas vozes dos arrepiados canarinhos Chitãozinho e Xororó, e muitas outras dos novos e velhos cantantes que sabem da vida errante, inclusive as dos filhos de Francisco, Roberta Miranda e as do eterna cara de sofrença, mais conhecido por Amado Batista.
Estava cumprida a missão de Antônio Mulato Benevides.





Titio Callilla






Estamos num dia qualquer do ano de 1960 d.C.
Tarde cedo, na velha banheira da casa do dentista Dr. Angelim, cedida para que morássemos eu e mamãe, escutei um grito rouco chamando meu nome. Fechei a velha torneira enferrujada, pulei fora do banho e, sentada no vaso sanitário de tampa amarelada pelo tempo, fiquei a bater queixo. Estaria louca?
A chamada do grito rouco soou novamente, mais desesperada, até:
― Sumaia! Sumaia!
Só mamãe estava em casa, dormindo e roncando em sua rede branca, coberta tão somente por uma pequena toalha xadrez que lhe escondia os seios. Acordei-a aos pulos, segundo ela, mais branca que uma vela, e disse-lhe firmemente:
― Mãe, titio Callilla morreu! Gritou por mim um grito de muita dor. Levante, vamos até a casa dele!
Mal acabei de falar, ouço a voz de Joshua em tom aflito. Abri a porta e fui falando:
― Titio morreu? Fala, Joshua, ele morreu? Como?
Joshua baixou a cabeça, triste e envergonhado como nunca o tinha visto. Deduzi, sem dificuldades: titio, viciado em sexo que era, morreu de quatro no ato, fazendo amor. Deixamos mamãe entregue à sua preguiça, com os peitos de fora, e zarpamos para os cômodos onde moravam titio e Joshua a três quadras dali.
A expressão “ninho de amor” nunca foi tão cabível para dizer daquele ambiente onde viviam os pombinhos Callilla, de quase 60 anos, e Joshua, de apenas 18, mal e mal completados. Tudo cheirava a almíscar e alfazema. A mesa pequena, forrada com toalhinha branca de crochê, estava impecavelmente arrumada para o lanche. Um raminho de lilases dentro de um copo d’água, dois pratos de sobremesa de cerâmica barata, dois jogos de talheres de alumínio e duas taças verde-garrafa de cristal grosseiro.
Devido à solteirice, e para não criar indagações, dormiam em camas separadas. Sobre as camas, além das cobertas com dobraduras especiais, os robes de chambre de cores neutras. No chão, entre as camas, uma passadeira de feltro marrom. Sobre ela e lado a lado, as fofas pantufas dos apaixonados.
Encontramos o morto despido e ainda morno. Sua compleição gigante impediu que o franzino Joshua pudesse sozinho vesti-lo e colocá-lo sobre uma das camas. Não foi a mais bela cena que vi. Nem nos filmes havia visto! Da região do prazer, uma imagem bizarra. Aquilo se assemelhava a uma camélia azulada e murcha. Limpa, porém.
Desviramos o corpo, esticamos suas pernas e, após vestir nele uma camisa social de listras, adquirida nas Lojas Garcia e ainda com o selo e alfinetes nas mangas e colarinho, entrelaçamos suas mãos sobre o abdome. Uma calça de gabardine preta, do tempo que era mais magro, foi, a bastante custo, vestida. Conseguimos, eu e Joshua, deixá-lo decente e bem apessoado. Meias e sapatos pretos não nos exigiu esforços. Empoamos seu rosto para tirar o grosso da oleosidade e aspiramos um perfuminho for men por todo o seu inerte corpo. Ao final, deixei sobre a cama a boina que titio mais usava. Deveria levá-la junto, fosse para onde fosse. Era sua marca registrada. Pronto! Estava pronto! Pronto para chegar ao Reino.
Durante toda a ritualística da preparação Joshua chorou. Em várias passagens, muitas até, beijava o rosto de titio Callilla. Uma demonstração de afeto que nunca havia presenciado. Nem em filmes. Com aquela meiguice, não! Era a maior e mais pura demonstração de ternura de um menino por um velho.
― Joshua, vá chamar o Niasi Sharife e o Elifas Chaar. Diga-lhes do acontecido e peça-lhes que providenciem o restante do serviço funerário. Fizemos a nossa parte. Contenha o choro e não dê explicações desnecessárias. Pense que titio morreu por ter chegado a sua hora e que da hora ninguém pode passar.
Puxei a cabeça de Joshua até meu colo, beijei sua testa e ordenei que fosse encontrar os amigos e conterrâneos de titio.
Nenhum homem foi tão bem atendido no depois da morte como o velho Callilla. No salão onde funcionava uma espécie de clube libanês, em alto estilo, foi velado, elogiado por sua destreza no jogo de gamão e, enfim, pela sua bondade. Poucos parentes compareceram. Aliás, além de mim e de mamãe, mais ninguém. Se apareceu, duvido muito, entrou e saiu como um relâmpago. Do único irmão vivo, meu avô Anuar, foi a falta mais sentida, notada e comentada com sotaque de repreensão. Por quê? Era a pergunta que não queria calar!
No final da manhã do outro dia, debaixo de uma fina garoa, o corpo de titio Callilla desceu para a clausura eterna de uma gaveta. Joshua estava para além do choque. Estava em letargia. Nem chorava, nem de mim desgrudava. Passamos no ninho de amor, pegamos alguns dos seus pertences e fomos para minha velha casa. Deixei-o descansar, assimilar a morte e sentir o vazio da perda.
Somente quase na hora de dormir é que decidi abordá-lo. Tomou um caldo de frango reforçado com aveia feito por mãe Fayma, bebeu uma dose de Maracujina e desabou em pranto. Refeito, perguntou-me quem tinha sido titio Callilla. Estava ávido por respostas e ofegante por carinhos. Por que vovô não foi ao enterro do irmão? Seria por conta da sua desviada escolha sexual? Seria por culpa dele? Não via motivos para culpas, então, por quê?
Decidi ser melhor abreviar o momento das declarações de culpas e das demonstrações de comiseração. Abrindo o jogo, falei:
― Escute Joshua, não há culpas. Entenda, de uma vez por todas, que você foi importante na vida de tio Callilla. Talvez tenha sido a melhor experiência amorosa dele. Saiba que ele morreu feliz e amado. Titio era maronita e vovô muçulmano sunita. Maronitas e muçulmanos – sunitas e xiitas – travavam uma batalha, silenciosa ou barulhenta que fosse, sem dia e hora para terminar. Não era uma guerra religiosa, apenas, como podia parecer. Era guerra pelo poder. A coisa tem se modificado, mas persiste. As batalhas vão desde a divisão territorial até por causa de uma simples esfiha. Joshua, menino, fica certo de uma coisa: se o fato de um homem gostar de outro homem for coisa do demônio, quem menos contou nesse caso foi o demônio. É briga de gente grande!
― Sumaia, obrigado! Muito obrigado! Que Deus abençoe você. Sua explicação tirou um enorme peso da minha alma, da minha consciência e do meu coração.
― Que Allah cuide de você, Joshua! Que prossiga no seu rumo, garoto! O caminho será longo. Logo aparecerá um novo amor, tomara que da sua idade! O que sentia e demonstrava por titio eram resultados de afeição e agradecimento. Que sabe dizer do amor?
Independente da talagada do calmante de folhas, sem mudar de posição, Joshua dormiu um sono quieto, típico dos inocentes. Mal acordou, no outro dia, quis saber mais sobre a origem de titio.
Embora o assunto não despertasse em mim nenhuma alegria, pelo contrário, atendi aos apelos de Joshua. Disse-lhe sobre a origem da discórdia: vovô e titio eram filhos apenas do mesmo pai. Meio irmãos, portanto. Minha bisa, Zainab, morreu de parto do vovô e este acabou sendo acabado de criar por Sulema, a nova esposa.
Sulema, por sua vez, veio a ser a mãe de duas meninas – Johara e Yaminah – e de titio Callilla. Ser criado por madrasta, expliquei para Joshua, nem sempre é um mau negócio. Sulema criou vovô com todo carinho do mundo. Deu a ele o mesmo que deu aos filhos, sem qualquer diferenciação. Assim contava vovô.
Na juventude dos dois meninos é que começou o racha. Titio ficou amigo de uma patota maronita e bandeou-se para o outro lado da fé. Fica difícil para os ocidentais o entendimento dessa estúpida cisão, expliquei para Joshua. O certo é que, por conta do desgosto com a inimizade entre os filhos, a morte de meu bisavô foi antecipada. Titio saiu de casa e vovô assumiu as funções de administrador da fábrica de refrigerantes nos arredores do aeroporto de Beirute. Foi então que tio Callilla exigiu sua parte para iniciar um próprio negócio. Deu tudo errado. Sulema, induzida pelo filho, ordenou a venda da empresa.
Ouvi de vovô uma história que me deixou confusa. Foi sobre o sumiço de uma miniatura do Corão, com capa banhada a ouro, e de um anel com um enorme diamante que valia uma fortuna. Eram objetos que pertenciam ao falecido pai deles. Vovô sempre teve certeza de que o nome do ladrão era Callilla. Este negava e o resultado foi o peso da dúvida e da desconfiança. Sulema vacilou. Entre acreditar no enteado e no filho…
Desolado, vovô ainda ficou um tempo na companhia da madrasta e das irmãs, até que, numa ação bruta e covarde, foi perseguido e quase morto pelos trogloditas amigos de meu tio. O que poderia ser uma guerra religiosa virou uma contenda familiar. O fato de titio Callilla ter se bandeado para a ala cristã implicava mais um voto para a bandeira de seu partido no parlamento libanês. O ambiente familiar ficou insustentável. Isso motivou vovô Anuar a, no ano de 1906, creio eu, migrar para o Brasil. Em São Paulo, ajudado por patrícios, estabeleceu-se.
Seu primeiro comércio, na região do Brás, foi numa pequena loja de miudezas e armarinhos. Lojinha de uma porta só. Cresceu, cansou e entrou no ramo da hotelaria, em sociedade com dois amigos. O primeiro hotel “de luxo”, e quase que exclusivo para migrantes libaneses, tinha quatro andares e ficava na Rua Líbero Badaró, então centro nervoso da comunidade sírio-libanesa. Nos redutos dos “brimos”, incluindo os judeus israelenses, ortodoxos, ou não, não havia Faixa de Gaza. Quisessem, ou não, conviviam pacificamente, deixando as diferenças para trás.
A tranquilidade de vovô Anuar foi quebrada com a chegada inesperada de um novo hóspede. Ninguém mais, ninguém menos que titio Callilla. No início, evitando indisposições com os sócios, vovô nada falou. Por sua vontade, dependesse dele, titio não teria ultrapassado o batente da portaria. Mas ultrapassou. De gênio contrastante e espírito falante, titio abriu o bedelho e contou aos amigos de meu avô, sem nenhuma cerimônia, fatos que nunca aconteceram. Por exemplo: que vovô havia quebrado os negócios da família na tal fábrica de refrigerantes em Beirute.
Decepcionado com as inverdades ditas pelo meio irmão e pela desconfiança dos amigos na sociedade do hotel, o velho Anuar pediu as contas e seguiu sua vida. Voltou ao comércio, desta vez num restaurante.
Não demorou e os antigos sócios de vovô entraram em desespero por conta das atitudes de titio. O antes hotel familiar para migrantes libaneses estava se transformado num ponto de encontro de amores proibidos. Penso eu, imagino, no tal prédio não circulavam mosquitos: os espermatozoides não permitiam intrusos e o cheiro de sêmen os afugentava.
O apartamento que titio ocupava, fazia algum tempo, registrava um vai e vem de homens de todas as idades e nacionalidades. Seguindo o exemplo (que mau exemplo sempre é seguido) e por ele ajudados, outros habitantes do local acharam-se no direito de ali receberem mulheres e homens. Em resumo: titio era um proxeneta de marca maior. Sua renda mensal básica não vinha do suor do seu rosto, mas do das prostitutas que gerenciava.

― Quer saber mais, Joshua?
― Sim.
Não me fiz de rogada. E desatei a contar os fatos que ouvi contar pela minha avó, por meu avô e que até hoje tenho por verdadeiros.

Bem, não tardou muito, titio foi expulso do hotel. Estava apaixonado por um moleque cigano. Com aquiescência e permissão da família do moço, juntou-se à caravana e instalou-se em Campinas. Campinas já prometia ser a segunda, maior e mais desenvolvida cidade de São Paulo.
Sem grandes dificuldades para a vida nômade, viveu tranquilo num trailer com o seu menino Perun, o ciganinho. Tinha conforto. Dentro do possível, o maior. Perun, filho de Katina, era bonito e rico. Titio Callila estava vivendo nas nuvens. Por um lado, sim. Precisava, ainda, não se deixar ser julgado um aproveitador de meninos ingênuos. Queria trabalhar para mostrar-se útil.
Por escolha, e com a ajuda de Perun, entrou no mercado imobiliário. Campinas florescia a passos largos e deixou meu tio passando um pouco mais do padrão dos milionários locais. Sabia ser mercador. Tinha lábia e disposição de mercador.
Aconteceu que, seguindo a lei, nômade que é nômade, não cria limo. Perun e toda a comunidade cigana desarmaram acampamento e foram para outra cidade, desta vez no Rio Grande do Sul, mais precisamente para o sulzinho, nas cercanias do Uruguai. Longe, pois! Titio Callilla preferiu deixar a trupe seguir sozinha.
O amor de Perun fez-lhe falta? Fez! Não tanta, asseguro! Titio vivia um período dourado e não lhe faltavam namorados e mais namorados. Dentre eles, uns mais tortos e outros mais tolos. O certo é que caiu. Faliu. Cada menino que teve abocanhou sua parte. Quando ficou na lona, totalmente sozinho, descobriu estar tuberculoso. Não havendo a quem recorrer em Campinas, por estar sujo na praça, pediu ajuda à Katina, mãe de Perun. Ajudado com presteza, tratou-se em Campos do Jordão e ficou curado.
De volta a São Paulo, chapéu na mão, procurou Anuar, meu avô e meio irmão dele. Vovô ajudou, mas, por mágoa ou por bem conhecer-lhe a má índole, não quis manter nenhum vínculo ou proximidade. Ajudou como se estivesse ajudando a qualquer um que lhe pedisse auxílio. Foi essa a trajetória de titio Callila. Resumida, mas é esta a história dele.

― E sua história, Joshua? Qual é? Tem nome hebraico e cabeça chata. Quem é você?
― Sou paraibano, Sumaia. Sei que meu nome, no português, corresponde a Josué. Sou órfão e fui criado por uma família pernambucana. Gente muito boa! Só saí da convivência dela quando conheci o Callilla.
― Entendi.
― Sumaia, gostaria de ficar consigo e com Dona Fayma até que possa resolver o rumo a tomar. Posso?
― Claro, Joshua! Claro Josué!
Enquanto Joshua foi buscar seus panos, mais que rapidamente tratei de arrumar o quarto que ocuparia. Pedi para que trouxesse os alimentos perecíveis, as fôrmas de doces sírios e alguma outra coisa ou coisas que o fizessem lembrar titio. Achei que ele deveria dar continuidade na fabricação caseira dos doces e melados de aletria, amendoim e sêmola. Manter-se ocupado, sempre, é uma das boas saídas para amainar as lembranças dos mortos. Ou desaparecidos!
Missão cumprida! Joshua já não apresentava a cara de tédio que as pessoas estampam depois da passagem dos entes queridos. Ficou sereno. No cair da noite, enquanto mamãe fazia suas orações, Joshua me entregou uma caixinha de marchetaria, linda, diga-se, com trava e cadeado dourados. Dentro dela, em perfeito estado de conservação, estavam a miniatura do Corão de capa dourada, uma bela cruz cravejada de brilhantes e um enorme anel chapeado, de estranhíssimo desenho e que mais parecia uma arma. Um tijolo, diria.
― Sumaia, por direito, estes objetos pertencem ao seu avô. Quanto antes, agora, se possível, preciso entregá-los. Se o Callilla os deixou por tanto tempo guardados, se não os vendeu no período das vacas magras, outra razão não existe senão a de devolvê-los ao legítimo dono.
― Deixe-me que faça isto. Vovô Anuar, talvez, nunca se sabe, não se sinta confortável diante de você. Vou lá agora.
Vovô jantava.
Pacientemente esperei que jantasse, andasse e arrotasse. Seu ritual digestivo era sempre o mesmo: vinte voltas e vinte arrotos debaixo do caramanchão da videira. Somente após a oração de agradecimento da refeição é que pude tomar chegada. Imaginei que vovô ficaria acometido por algum tipo de emoção ao ver aqueles objetos do passado. Qual nada! Segurou o Corão, apertou-o contra o peito, falou uns halabidalahs e devolveu-me a caixa, dizendo:
― Entregue ao menino. Ele precisará disso! Diga-lhe que mande derreter o ouro do anel e a pedra aparecerá. Não preciso de diamantes. Menos ainda de cruzes!
Assim foi feito. Assim estava escrito!





É o seu fim, madame! Assim falou Zoroastro!






O cruel progresso chegou à pacata Placilândia. Pleonasmo, aqui, é farinha pouca e molhada! Invadida por forasteiros, perdeu-se o estreito convívio social. As famílias desapareceram das calçadas.
O centro histórico foi o primeiro a prostituir-se, como é de praxe acontecer. As cidades são entes respirantes, creiam os que me estão a ler. No entanto, a depender dos administradores, infelizmente, podem fenecer antes do tempo. Assim aconteceu com a pequena Placilândia, rota dos oleodutos e gasodutos da Petrobras. Virou monstrengo e sem personalidade, desde a estrutura física até o perder de vista da corrupção e das injustiças.
No Bairro do Baixio, a fila que se formava todo dia e o dia todo defronte ao sobrado portentoso parecia interminável. Formada quase que somente por mulheres, aquele movimento começou a despertar curiosidades na vizinhança. E mais que isso, alguns transtornos na ordem da via e da vida pública. Não havia placa de propaganda, razão pela qual causava maiores estranhezas e especulações. Uma clínica de abortos? Uma empresa de recrutamento de empregados provisórios? Um SPA?
O crescimento desordenado implica contradições de ordens diversas. Como dizia o farmacêutico Nestor, dono da rede de drogarias, “O que é incapaz de subir é passível de descer”. Placilância empacou no meio da ladeira. Nem pra riba e nem pra baixo. Saiu dos eixos. O que quis permanecer forte, graças ao povo, foi a lucidez do próprio povo. Isto é o que basta! Do desenvolvimento sustentável alardeado em ritmo de frevo, ninguém sabe, ninguém viu. Só baderna!
O certo é que o mistério da fila do sobrado foi desfeito. Ali, da aurora à meia noite, no que antes morou o casal Salgado Fontes, por locação, passou a funcionar uma espécie de gabinete para o atendimento de almas perturbadas. Auxiliados por um garoto de modos bastante femininos e que respondia pelo apelido de Dina, Dona Celeste e o esposo Carmelo Galvão revezavam-se nas “consultas” e prescrições dos “remédios” para as doenças da alma e do coração.
Sobre a mesa ovalada da sala, devidamente coberta por uma toalha de renda branca, havia um castiçal com sete velas sempre acesas, uma imagem de Iemanjá, um baralho cigano e uma peneira de palha onde se praticava o jogo dos búzios. Até aí, nenhuma novidade. Tudo muito igual a tantos outros “cafofos” que existem para a prática dessas atividades esotéricas questionáveis sob todos os pontos de vista, principalmente quando desempenhadas por gente de má fé.
Em menos de seis meses, por aí, a fila começou a encurtar. Surgiram alguns rumores de charlatanice que, de boca em boca, foram se espalhando de forma irrefreável. Três fatos foram determinantes.
O primeiro e menos importante que pôde justificar o distanciamento da clientela foi a presença inesperada da polícia, de fraque e cartola, trazida por um consulente que levou o terceiro maior calote de toda sua vida. Aconteceu assim: José Cassiano de Melo, comerciante de calçados, era casado com Maísa Melo. Esta, no ambiente de trabalho, apaixonou-se perdidamente por Clériston Aguiar, um empregado da loja. A firma foi desfalcada pelos amantes que, não bastando a traição e o surrupio da quase a totalidade da mercadoria, fugiram, deixando José Cassiano de Melo com um comércio falido e com a responsabilidade da criação dos cinco filhos do casal.
Completamente transtornado – e ferrado financeiramente –, José Cassiano procurou ajuda espiritual com o casal Celeste e Carmelo Galvão. Quando lá chegou, por deferência, toda a clientela da fila foi dispensada por Dina, o auxiliar. Tratava-se de uma situação grave e que requeria trabalhos especiais que demandariam tempo e sacrifícios.
Nada de baralho, nada de búzios. José Cassiano de Melo foi levado para outro compartimento da casa. Segundo descreveu no Boletim de Ocorrência, nos mínimos detalhes, o local parecia o inferno. Nele, diante de uma imagem do Satanás, rodeado de velas vermelhas, foi compelido a prestar um juramento ao “das trevas” e, terminada a primeira fase do tratamento, a entregar dez mil reais em moeda viva aos seus benfeitores Celeste e Carmelo. E assim foi feito para que, em dez dias, tivesse de volta a esposa, o dinheiro e os pares de sapatos, botas, tênis e sandálias levados por ela e por Clériston, o amante. O resultado, livre de surpresas, estava na cara, o que deixou o pobre José Cassiano de Melo mais corno, mais pobre e mais estúpido. A última das criaturas, pois!
Não deu em nada! Celeste e Carmelo tinham amigos na cidade. Foram conselheiros e fazedores de mandingas que, alegadamente, puderam garantir as vitórias de vereadores e do prefeito nas eleições. Valeu a máxima do “Só morre pagão quem não tem padrinho”. Desiludido e acabrunhado, José Cassiano de Melo tratou desair do chão por conta própria.
O segundo registro, de grave a gravíssimo, foi por conta do aborto da vizinha do castelo dos horrores. Milena Castro, mãe de oito guris ainda pequenos, buscou socorro com a mãe dos desvalidos, mais conhecida por Celeste Galvão. Por conta da brincadeira de tirar neném com uma agulha de crochê, no velho estilo “Jarinilda”[§] de furar cabeças de fetos, foi parar na UTI do Hospital das Clínicas Oswaldo Cruz. Sem queixas, mas com repercussão. Não deu polícia, infelizmente. O bate-boca, no entanto, foi feroz. O marido de Milena Castro “pocou” a cara safada de Carmelo e ainda abriu sua testa em quatro departamentos roxos e ensanguentados. Demorou um pouco até que Milena deixasse a frieza da unidade intensiva.
Foi outro episódio que caiu no vazio.
O terceiro gravíssimo e fatal movimento dos bruxos de araque deu-se quando, numa sala imunda e mal equipada, morreu de parada respiratória um moleque de dezesseis anos. Era noite alta de um domingo de outubro. Depois de ter tido injetado quase um litro de silicone industrial nos seios, nádegas e maçã do rosto. O que fazer diante da tragédia, principalmente depois que Dina saiu desesperado e gritando pelo meio da rua, debaixo do toró que inundava a cidade?
Não demorou para, sob guarda-chuvas e capas de nylon, vizinhos acorressem ao local e invadissem o sobrado dos criminosos. O corpo estava quentinho e sendo retirado do “centro cirúrgico” para ser deitado sobre a mesa ovalada da sala. Um linchamento foi tentado e só evitado com a chegada dos pais de Rodiney, o garoto, devidamente acompanhados por policiais do distrito mais próximo.
Um tempinho a mais e chegaram as equipes de jornalistas da rádio e do Diário de Placilândia. Já era manhã de segunda-feira. A estas alturas, cheios de hematomas e com os cabelos desgrenhados, Celeste e Carmelo Galvão foram conduzidos à delegacia, sem que emitissem uma única palavra. Do menino Dina, nem Seu Souza! Escafedeu-se no meio do alagado do Bairro do Baixio.
O crime comoveu a cidade e adjacências. Toda a comunidade condoeu-se com os estragos no rosto de Rodiney, antes um belo rapaz, cuja ambição era ser uma bela menina. A qualquer custo, esclareça-se. Filho único de uma família pobre, porém distinta, por falta de orientações e por ser Maria vai com as outras, encerrou sua vida nas mãos de dois desclassificados que brincavam de enganar pessoas incautas e/ou desesperadas diante das emboscadas da vida e dos seus próprios destinos.
O povo de Placilândia ficou de pés inchados e brios esmigalhados. Altivo, altaneiro, justo e honrado, passado o enterro, postou-se garbosamente frente ao DP, e de forma solidária e consciente, abriu caminho para que passassem os pais de Rodiney até a cela tosca onde se pensavam seguros os meliantes Celeste e Carmelo Galvão. A troca de olhares foi cortante. Palavras, por inúteis, foram dispensadas. Enojados e com os corações partidos, deram meia volta e juntaram-se aos populares.
No outro dia a cela estava vazia. Completamente vazia. Na parede suja, em letras garrafais, o recado:
“É o fim, madame! É o seu fim.
Assinado: Zoroastro!”
Os cadáveres jamais foram encontrados. Sabe-se apenas que, na cidade de Japiá, distante 600 km de Placilândia, um casal de esotéricos bem conceituados, resolve qualquer problema de ordem espiritual, matrimonial e financeira. Serviço garantido e sigilo absoluto.






As mortes pré-datadas






Verônica, até perto dos quarenta anos, não quis acordo com casamento. Para além disso, não se privava a, de vez em quando, deixar-se acompanhar de uns namorados. E ficava, ficando, mesmo! Isso, sim. Nem puta, nem donzela pia. Relaxava as tensões e terminava os namoricos que não deveriam atingir tempos superlativos. Sua vida era para jogos rápidos e sem raízes. Desde que perdera os pais num acidente de carro na Curva do Tarumã, só pensava em cumprir seu tempo de emprego e partir para junto da única irmã, há tempos residindo e muito bem instalada em São Luís do Maranhão. Viviane, assim se chamava o seu único laço sanguíneo na comunidade terrena. Com ela, artista plástica e também solteira, faria par na fase avançada da vida. Esses eram os planos.
Bancária, séria e solitária, até mesmo em função do emprego, tinha experiência em árdua rotina. Chefiava a carteira do FGTS, acumulando com as do crédito imobiliário e a do PIS/PASEP. Precisava ter olhos aguçados para não permitir que os auxiliares confundissem as cores das cópias para arquivamento. As brancas, referentes às da primeira via, pertenciam aos clientes. As verdes e as rosas não iam parar na Estação Primeira de Mangueira e sim na pasta do órgão financiador. As azuladas, por fim, eram do arquivo do próprio Banco. Tolerância ZERO no controle das vias dos papelotes recheados de nomes e números. Trabalho chato. Para além, muito além, disso.
Mas nem só de trabalho pode viver a mente mais dedicada e chegou o tempo de Verônica suspirar por uma costela para se aninhar nas noites frias e, especialmente, nas quentes. E, por fim, fez-se o homem que imaginava ser sua alma trigêmea, que a suportaria no modo de ser, na profissão e no pouco tempo que dispunha para namorar em tempo integral; logo ao vê-lo um dia no banco, recém chegado à pequena e pacata cidade, considerou ser o carioca Evandro Mário o par perfeito. Não era de todo lindo, mas seus olhos foram capturados pelo morenão de sorriso largo e olhos encantadores.
Evandro Mário também reparou nela de imediato. Entre um pedido de extrato aqui e consulta de limite de crédito acolá, eles engataram um jantar e um namorico. Daí que o pedido de casamento não levou mais que três semanas para ser feito.
Tudo bonito, mas “eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá”, como diria o Chico. O príncipe logo revelou seu pior lado. Evandro tinha ciúmes de tudo, inclusive do mar que pudesse um dia vir a tocar seus pés e beijar sua saia. Amor doentio. Claro que não demonstrou isso no início do relacionamento. Defeitos são de aparecimento tardio; os começos são sempre florados. Dizem.
Verônica viu-se embrulhada. Jogou-se na aventura, casou e, bem antes que pudesse prever, arrependeu-se. O escolhido (ou achado) a sufocava. Quanto mais se perguntava o porquê de ter assinado os papéis de casamento, menos encontrava respostas. Asnice pura! Não precisava e nem queria aquilo para si.
Pensando que o que não tem jeito remediado está, e usando das suas boas relações pessoais, quis que Evandro ocupasse a mente. Naquela pequena cidade onde residiam, a princípio, um forasteiro sempre era olhado com reservas. De cara, sim! Bastava um mínimo de tempo, entretanto, logo entrava nas fronhas e passava a ser respeitado. Até exercer poder de mando. Evandro teve muita ajuda para que se tornasse enfronhado. Ele precisou dessa mãozinha para que não permanecesse vinte e quatro horas grudado no calcanhar de Verônica. Produtivo, ocupado e remunerado poderia vir a ser capaz de entender uma mulher independente e bela sem que estivesse ameaçado pelas sombras da traição. E não só isso. Precisava entender a realidade da cultura local. Necessitava curar-se da doença e saber que “trair e coçar é só começar” não passava do título de uma peça teatral de grande sucesso. Com fundo de verdade, talvez. Mulher vencedora, necessariamente, não é mulher que trai. Apesar das coceiras!
Precisando abrir coração e ouvir conselho, furtiva como quem rouba, procurou Marissanta, solteiríssima, amiga de tempos e datas perdidas, e pediu emprestado o ouvido amigo. Recebeu mais do que pediu. A enfermeira tinha pavor de engatar compromissos eternos. Nada que a prendesse. Em matéria de viver solta era maestrina. Duas vezes com o mesmo homem era casamento e avental todo sujo de ovo, dizia.
No entender de Marissanta, o mais aconselhado para uma mulher, principalmente para a amiga Verônica, agora séria candidata a sofrer com a síndrome de Amélia, seria conciliar trabalho e homem na base do meio para um e meio para outro. Qualquer recuo implicaria atraso de vida. Mulher que se quer independente tem que equilibrar os cofres do coração e os outros que lhe permitam emancipação e liberdade. Nem tanto ao mar, nem tanto aos peixes, ponderava.
Mas o conselho não funcionou como esperado. Para pior, Evandro, como que adivinhando uma mudança no horizonte e dando a sorte de ter em sua porta uma noite uma enjeitadinha, convenceu que adotassem aquela que batizaram Luena Maria. Para ele, uma obrigação de Verônica prendendo-a ao lar; para Verônica, a criança se tornou seu alento e amor. Mas aquele encontro com Marissanta ficou martelando na cabeça. Mais que isso, não conseguia mais ser contido na garganta o que se delineava lá dentro da cachola.
E foi num dezembro, o melhor e o pior dos meses. Não é mês de festa apenas. É mês que fecha o ano e prepara as contas para a entrada do outro. É tempo de limpeza!
O Estado, o mais paternal da federação, sem reservas de caixa, daquela vez atrasou o pagamento de três secretarias e dos seus aposentados. A fila dobrava dois quarteirões e meio. Reclamações eram gritadas. Autoridades eram insultadas. Blasfêmias de toda ordem se instalavam e, num efeito ecoante, repassadas de boca em boca dos que dobravam os dois quarteirões e meio. Palavrões eram disparados. O mundo parecia estar pegando fogo. E Marissanta estava ali. Precisava dos trocados para sanar débitos e evitar degolas. Na extensa fila, banhada de suor, Marissanta era mortal comum tanto quanto mortais comuns eram todos os enfileirados.
As portas do Banco foram abertas. Um batalhão de seguranças organizava a turba enfastiada e em fúria. Pessoas desmaiavam. Povo querendo água e dinheiro para voltar para casa. Pessoas querendo ordem. Em meio a dificuldades e entre cordas e riscados de faixas amarelas traçadas no chão da agência central, seguiam a fila e esperavam a ação dos caixas de caras empalidecidas pelo medo. Dedos nas línguas foram passados e repassados para a conferência das notas. Dez, vinte, trinta, cem, cento e cinquenta, cento e sessenta e pouco mais. Povo do salário abaixo do que se pretende mínimo, estonteado, faminto e apressado. E raivoso. E puto! Depois de três meses sem ver a cor de dinheiro…
Marissanta estava ali posando de paciente. Para receber os oitocentos e pouquinho a mais de dinheiro precisou ter resistência e calma. Pensou procurar Verônica no andar de cima, entre as saletas e divisórias de fórmica do mezanino. Precisava. Pensou, mas não foi. Tráfico de influência não lhe apetecia. Gente que é gente não sobe em gente. Estava prestes a ser atendida. Esperaria…
De repente, em meio ao burburinho, quatro estalidos. Um, dois, três e quatro. Marissanta, já na boca do caixa, viu cair a primeira gota de sangue, a segunda, e as muitas outras, até formar-se a poça. Na sala 2 do mezanino, sobre o chão, o corpo de Verônica estremecia. Ao lado, o de Evandro já estava imóvel. A paixão e o ciúme aprontaram mais uma tragédia executada em nome do amor. Uma das balas transfixou a divisória e, por pouco, não levou a cabo e enxotou do mundo o jovem Chico Viegas Ypólito, de todo inocente e recente casado.
“O marido matou a mulher!”, diziam as desencontradas informações. Mataram Verônica. “E ele atirou na própria boca depois!”
Marissanta ficou sem fala. Por instantes, sem ouvidos. Quis sentir-se culpada. Não, não era. Tinha razão em insistir ser uma mulher só. Apesar das dificuldades de ser só. Ato de inteligência. Saindo do transe, confirmada a morte, lembrou-se do bebê adotado e disparou para a casa da amiga. A polícia já estava se dirigindo para lá e aproveitou carona. Precisava ligar para Viviane em São Luís. A direção do estabelecimento de crédito cuidaria dos cadáveres e ela de Luena Maria, quem agora mais precisava de atenção.
As portas do Banco foram fechadas até segunda ordem. A polícia abriu passagem para os corpos. Mais atrás, vinha o jovem Chico Viegas Ypólito ainda desmaiado. O pagamento foi suspenso. A turba vociferava. É que toda turba é burra. E descomunal é a sua força. Foi a pior manhã já vivida na cidade.
Viviane desembarcou já era noite. Do aeroporto direto para a capela onde estava o que sobrou da irmã. O banco não deixou que faltasse nada àquela que foi uma de suas mais competentes funcionárias. E, por extensão, ao esposo. Os dois caixões, lado a lado, tinham a mesma qualidade: a melhor. Corbeilles e coroas para um e para o outro. As vidas se extinguiram juntas.
Cedo da madrugada, até por cansaço da viagem, chamou Marissanta. Precisava de banho e cama. Luena Maria e a babá estavam sozinhas. Na sala, de pernas trepadas, pegou sua bolsa, abriu-a e dela retirou uma carta. Entregou-a para que Marissanta lesse em voz alta. A data dizia doze dias antes da tragédia e continha a revelação da ameaça cumprida. Ao escrever para a irmã, não escondeu a infelicidade ao lado de Evandro. Sabia que tinha as horas contadas e demonstrava medo.
Conversas antes de dormir disseram que Viviane, por telefone, pediu à irmã que se protegesse, por não ser verdadeira a inteligência que afirma que quem muito ameaça nada faz. Faz. Fez. Verônica estava morta.
Luena Maria dormia inquieta e acordou chorando. Mãe Verônica já não existia para dar-lhe o beijo de boa noite e arrumar-lhe a coberta no berço. Parecia saber do acontecido. E sabia! Quem costuma crer que crianças têm no coração as idiotices pensadas por adultos, está redondamente enganado. Elas têm percepção maior. Acertam sempre! Têm o dom da premonição, parece até!
Marissanta organizou todas as ações. Viviane viajaria com a pequena Luena para, no Maranhão, fazerem viver melhor o já traçado caminho. Tanto quanto pudesse, seria mãe e tia, ao mesmo tempo.
O ser amigo ultrapassa os acidentes e determinismos. Vai além. Marissanta ficaria responsável por deixar resolvidos papéis, bens e garantias. Vendeu os móveis, doou roupas e coisas menores, regularizou a pensão da pequena órfã e, feito isso, viajou para acertar os ponteiros de sua própria vida. Gostou de São Luís e ali ficou. Com Viviane, como se fosse uma espécie de madrinha, cuidaria da filha de sua melhor amiga.
Não só ficou. Sucumbiu aos carinhos de um moço de Imperatriz. Sem papéis, claro!
O banco onde trabalhou Verônica, na base do escândalo, encerrou em definitivo suas atividades. Vinte e tantas agências no estado, no centro financeiro do país e no exterior seguiram o mesmo destino. Todo o patrimônio (que não era pouco) foi engolido por sucessivas diretorias. Transformou-se em fazendas de gado, antro de agiotas, mansões, espigões de concreto e contas secretas no exterior. O imponente prédio de vitrais azulados da matriz, antes altaneiro e motivo de orgulho, agora apodrece a olhos nus e mais parece um condomínio de fantasmas. Nenhuma outra atividade aconteceu no interior de suas amplas instalações. Conta-se que é possível ouvir, mais que nitidamente, a qualquer hora do dia ou da noite, o barulho dos estalidos: um, dois, três, quatro…






Entre Versículos e Insultos






A cidade de Otaciano Pinté, pouco mais de 11.000 viventes, é um retrato riscado e sujo do que pode e deve ser uma cidade, tanta é a falta de estrutura básica. Antes um aglomerado de seringais e fazendolas, foi elevado à categoria de município por mais uma das catrepagens políticas que imperam no país. Como aumentar o dinheirinho que vem do Fundo de Participação dos Estados e Municípios senão criando, a toque de caixa, esqueletos urbanos que não deveriam ser nada mais além do que pequenas vilas?
Num arremedo de império romano, uma igreja sem padre, um fórum para os tribunos, uma escola caindo aos pedaços, duas ruelas de tijolos, nenhum posto de saúde, hospital inexistente, um armazém desfalcado, um filho ilustre bem relacionado com os morubixabas da capital e, pimba, nasce um município! Bem, nasce não é bem o termo: aborta-se um ente público, fadado ao fracasso. Assim está, sempre esteve e será Otaciano Pinté por muitos anos: fracassada!
As poucas melhorias que surgiram desde o fenomenal rito de passagem foram por imposições legais. As maiores “obras” executadas até o presente momento, reconheça-se, foram as aberturas de fossas negras com vasos sanitários e caixas de descarga, em substituição aos antigos cagadores de madeira. Não fosse a continuidade de contaminação do lençol freático, seria uma boa e higiênica ideia. Como está, nada mais é que um arranjo para desarranjos. As instalações da delegacia, do cartório, do destacamento militar e da escola de segundo grau, que não passa de quatro salas de alfabetização de adultos e crianças, são precárias. Merenda escolar ainda é coisa rara e, quando há, é na base do feijão podre, frango podre, carne de sol com bichos tapurus, biscoitos molhados e farinha das boas. A farinha de Otaciano Pinté é das melhores da região. Pelo menos isso!
Quando da elevação a município, em 1996, o patriarca e até hoje prefeito, Otaviano Pinté, herdeiro político de Otaciano Pinté, sonhava alto. Por um mandato e por exigência da legislação eleitoral, o cargo foi ocupado por sua esposa Madalena. Só para inglês ver. Quem mandava era ele mesmo.
Refestelado em sua cadeira de vime, com pose de entronado, vislumbrava uma comunidade rica e feliz que honrasse a figura de seu falecido pai. Ele e os irmãos José Otávio e José Olavo Pinté faziam arquiteturas na areia. Uma fonte luminosa, um palacete imponente, uma praça infantil e outra para adultos e mais outras e outras edificações vistosas para os poderes legislativo, executivo e judiciário. Quase nada saiu do devaneio. A Câmara de Vereadores ainda está num velho barracão que pertence a José Otávio. O lugar foi revitalizado com as cores da bandeira do município. Azul e vermelho, como nas Cruzadas, são os matizes do lábaro que vive pendurado e ostentado num cano de PVC na Praça dos Três Poderes Pintecianos.
O fórum, um pouco melhor alojado, ainda está sem a escultura cimentosa da Deusa Minerva no pátio de entrada. A casa onde morou o velho Otaciano Pinté continua locada para o pleno exercício da justiça por uma mensalidade exorbitante e incompatível com os valores regionais. O tal palacete, sede do governo, é a própria casa de Otaviano, recuperada e ampliada com dinheiro público. Tudo em família, pois!
Os irmãos Pinté, antes católicos por conveniência, resolveram fundar a própria igreja. Como homens de visão, assistiram e comprovaram pela TV com possantes antenas parabólicas que as “igrejas de crentes” eram um bom negócio. Num zás, lás e trás, com toras de madeiras extraídas da mata próxima, ergueram o templo da Igreja Cristo é Rei. José Olavo, o mais desocupado dos irmãos, foi “nomeado” pastor.
O primeiro culto da mais nova denominação foi em ritmo pop. Os funcionários da prefeitura, evidentemente, foram todos convocados para a grande manifestação de fé da comunidade pinteciana. Ai, ai, dos que não comparecessem! Muitas músicas gospel de Jamily, Regis Danese, Robson Monteiro e companhia limitada foram entoadas antes da celebração inaugural. O povo em geral, na marra, cooptou e compareceu.
Às vinte horas, depois do corte da fita inaugural, sobe ao púlpito o pastor José Olavo. Para honra e glória dele mesmo, sua roupa de apóstolo mais parecia com a beca dos gaúchos dos pampas em dias de churrasco fincado no solo e danças com as prendas nas noitadas frias do Rio Grande do Sul. No lugar do terno preto e gravata sóbria, vestia bombachas e camisa branca com um lenço vermelho atado em seu pescoço. Várias meninas da comunidade, devidamente ungidas, saltitavam pelo palco, vestidas com gazes e tules, como se fadinhas tontas fossem. A palavra foi pregada e o público aplaudiu. Qualquer pessoa que dissesse que o culto não foi bonito estaria faltando com a verdade. E a verdade, a bem da verdade, é bem de Deus!
À época da inauguração do templo, soberana no IBOPE, Glória Perez ditava o conhecimento da cultura da Índia. Juliana Paes, Laura Cardoso, Tony Ramos, Márcio Garcia e o veterano Lima Duarte interpretavam os maiores e melhores da trama. Pois bem, no templo Cristo é Rei, de olhos fechados e em transe, homens e mulheres dançavam ao som da música de convite ao coito, da trilha sonora dos namorados, amantes e calientes, Maya e seu maridão Raj. Aproveitando a deixa e o sucesso, um compositor ungido e desconhecido deu nova versão à letra da música. Sem as fantasias e joias, tik? Só com os are babas, correto?
José Otávio animou-se com a renda da igreja do irmão. Medindo numérica e qualitativamente a clientela, verificou ser perfeitamente possível e estratégica a existência de outra denominação “cristã”.
Munido de toda a documentação exigida, em tempo recorde, deu entrada nos papéis para a criação da Igreja Deus é Pai. Noutro barracão com toras de madeira das cercanias ergueu o toldo do novo templo. A costureira Francismar Milhomen criou o uniforme branco com cinco estrelas azuis bordadas no peito. Um brinco de uniforme, inspirado na constelação do Cruzeiro do Sul. Para a festa inaugural, viajando de barco, veio de Belém um cantor de rock gospel, com cachê de dois mil contos.
A partir desse evento, não poderia ser diferente, a notícia carece de exatidão. Uns dizem que a igreja Cristo é Rei ficou desfalcada em cerca de trinta por cento. Os mais exagerados falaram em quarenta e até cinquenta por cento. Motivo mais que suficiente para que ocorresse a cisão. José Otávio e José Olavo apartaram as farinhas depois da péssima divisão das almas-reses.
Inconformado, José Olavo foi à luta. Vereador, tanto quanto José Otávio, a contenda foi parar na plenária da Câmara. Não mais se falavam informalmente. E partiram para o debate. Os podres dos edis eram do conhecimento público, porém tratados na penumbra do fuxico e da maledicência. Melhor, então, escancarar. Na sessão única da semana, galeria lotada, aconteceu a primeira dentre muitas e seguidas lavações de roupa suja.
― Vossa Excelência, vereador José Olavo, não passa de um enganador de almas. Está no Livro o aparecimento dos falsos profetas. Vossa Excelência é o pior deles. Anotei uns poucos textos santos e veja o que encontrei sobre o que representa Vossa Excelência: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis”, Mateus 7:15-20; “Rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais não servem a Cristo nosso Senhor, mas ao seu ventre; e com palavras suaves e lisonjas enganam os corações dos inocentes”, Romanos 16:17-18; “E a besta foi presa, e com ela o falso profeta que fizera diante dela os sinais com que enganou os que receberam o sinal da besta e os que adoraram a sua imagem. Estes dois foram lançados vivos no lago de fogo que arde com enxofre”. Apocalipse 19:20.
― E o que direi de Vossa Excelência, Vereador José Otávio? Que é um ladrão da pior espécie? Que engana viúvas e órfãos? Também está na sagrada escritura, fique Vossa Excelência sabendo! Qual o destino das cestas básicas de sua igreja? Quem varre sua casa e cozinha para sua família? Quantos salários Vossa Excelência paga para os fiéis que cuidam de suas propriedades?
Indiferentes às brigas dos pais, os primos Grace e Ruslander Pinté engataram um namorico às escondidas. Largaram as igrejas dos pais e caíram na gandaia da juventude moderna. Na base do faça amor, não faça guerra, em lugar de louvores e discursos, passaram a ouvir os batidões do funk e a bebericar uns drinks de Tang de tangerina com Caninha 51.
E aconteceu que, numa certa noite, foram apanhados num flagra sobre a cama de José Otávio, pai da menina Gracezinha. O fato elevou a ira do Pastor-Vereador. Não esperava que sua bonequinha de luxo, sua princesa adolescente tivesse sido desvirginada justo por seu sobrinho e filho do seu principal desafeto no âmbito familiar, religioso e político. A cena da sua menina nua e bêbada nos braços do canalha Ruslander Pinté foi deveras chocante. Até ensaiou uma síncope cardíaca, com direito a dor no peito, falta de ar, formigamento nas mãos e vômito.
― Como evitar o escândalo? Como posso impedir o vazamento desta trepada infame entre primos? Minha reputação e a de minha filha vão parar na lata do lixo! Meu Deus, o que fazer? – repetia desesperadamente o desatinado pai.
Medicado e aconselhado pela esposa e pelo irmão José Otaviano, prefeito, patriarca e pensador da família, José Otávio deitou e dormiu sedado. Ficou acertado que dali mesmo o prefeito iria à casa de José Olavo relatar o acontecido e preparar os irmãos para uma conversa franca. Assim procedeu. Ruslander, que a tudo ouviu, revelou ao pai que Gracezinha não era mais virgem e que isso não tinha a menor importância. Ele tinha intenção de casar-se com ela e só não revelaram o namoro antes, por medo dos pais.
No dia seguinte, ainda cedo, José Olavo e José Otávio, no Gabinete do Prefeito-irmão mais velho, iniciaram o “debate” de reconciliação. Pela preservação do nome e honra da família, sem maiores questionamentos, acertaram a data de casamento dos filhos. José Olavo não estava nem um pouco preocupado com as vergonhas de José Otávio. É da voz corrente dos homens da comunidade pinteciana que: “quem tem suas éguas soltas, que prendam, pois meus cavalos continuarão soltos”. Também não é raro ouvir dizer que “xereca não tem lombada e piroca não tem freio”.
Outros acertos foram consolidados na base do fio do bigode: por uma semana os cultos seriam suspensos e, passado esse prazo, a igreja Deus é Pai seria definitivamente fechada, para honra e glória de José Olavo que assistiu, pesaroso, a debandada de seus fiéis para a igreja do irmão, como se fosse uma verdadeira revoada de jacus.
Na câmara, na igreja e na cidade inteira, a mudança de comportamento dos irmãos foi notada. Encerradas as atividades da Deus é Pai, a normalidade voltou à igreja Cristo é Rei. Por decisão e a pedido de José Otávio, as reses desgarradas voltaram a colocar lenços vermelhos em volta dos pescoços, apagando de uma vez a constelação do Cruzeiro do Sul de suas vidas.
Um novo templo foi erguido por voluntários capitaneados pelo irmão de José Olavo, seu ex-detrator e irmão José Otávio. Na região não há outra igreja tão grandiosa e moderna. Foi nele – no templo –, que aconteceu o casamento de Ruslander e Gracezinha e é ele – o templo –, a última grande obra da cidade de Otaciano Pinté. O mais continua a passos de lesma, inclusive a instalação de fossas negras com vasos de louça e descarga, em substituição aos antigos cagadores de madeira. Na merenda escolar continuam sendo servidos alimentos estragados.
Em pesquisa recente realizada pelo Ibope local, na próxima eleição, o chefe do Executivo Municipal, na cabeça, com previsão de setenta e cinco por cento dos votos válidos, será eleito o Pastor-Vereador José Olavo Pinté. Ruslander e Grace disputarão vagas na vereança, ambos com sucesso garantido. Para a honra e glória de quem?
É promessa do futuro prefeito aos irmãos de fé e correligionários a contratação de Luan Santana para abrilhantar a festa.
A escola Sarneyziana é eficiente. Os irmãos Pinté sabem disso!



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Nota da autora:

Tenho convicção de que a fé em Deus independe de igrejas, padres e pastores. Demonstro profundo respeito por todos os credos, apesar de não professar nenhum. Minha fé é solitária e sou feliz assim. Sentir asco pelos que enganam pessoas incautas, como é prática atual no país, honestamente, é o mínimo que posso sentir. São de uma enorme canalhice as mesclagens de fé com política. No meu entender, e no entender dos que se dispuserem a pensar, essas fusões abrem caminhos para crimes hediondos. Tão hediondos quanto o abandono de idosos, o trabalho escravo, a pedofilia, o preconceito de gênero ou cor, e todos os atos que atingem de morte ou mancham a dignidade de seres humanos indefesos ou em minoria.
Aos meus leitores, peço: entendam assim!



Orelha


Muito lisonjeada eu fico, ao ser agraciada, pela autora Leila Jalul, para rabiscar algumas linhas para as orelhas de seu novo livro de contos. Leila Jalul é um furacão para escrever e todo ano nos brinda com mais um livro sempre cativante, engraçado na medida certa, recheado de ironias e críticas sutis à mediocridade que impera em nossa sociedade acomodada, preguiçosa nas leituras e que só gosta de viver dando jeitinho nas coisas. É praticamente esta sociedade, dividida entre espertalhões e povo incauto que se deixa manipular tão fácil, que temos retratada nos deliciosos contos de Leila, para deleite de um(a) leitor(a) mais ávido por livros que tenham algo de concreto para apresentar.
Leila Jalul começou escrevendo poemas, publicando seu primeiro livro de poesias em 1995, intitulado Coisas de Mulher, coisas comuns, coisas de mim. Anos mais tarde, fez um segundo livro de poesias e enveredou de “mala e cuia” pelos varadouros da prosa, da qual nunca mais se apartou. Com uma veia criativa cada vez mais afiada para narrativas curtas, desde suas primeiras crônicas para os blogs e jornais locais da cidade de Rio Branco, e, posteriormente, reunidas em livro, intitulado Suindara, publicado em 2007, a autora nunca mais cessou de escrever lindos contos. Sejam contos sobre o cotidiano das matas, do interior do Acre ou da Bahia, tudo serve de inspiração e motivo para suas histórias e causos. Escritora, poeta e artista plástica, Leila Jalul foi uma das primeiras acreanas a publicar periodicamente uma literatura de respeito e valor estético e documental em livros isolados. No Acre, somente Robélia Fernandes de Souza e Francis Mary têm publicado com igual folego oriundo da verve fecunda e inesgotável de Leila Jalul.
Memórias Andantes é o segundo livro de contos de Leila Jalul. O primeiro foi o Minhas Vidas Alheias, em 2011. De crônicas já publicou Suindara - 2007; Das cobras, meu veneno, em 2010 e Luzinete, de 2012. Se considerarmos a pitoresca obra Luzinete como uma novela, mas se olharmos as histórias leves e recheadas de humor da última novela da autora como pequenos contos, arriscaria dizer que Memórias Andantes é a quinta aventura de Leila no mundo das narrativas curtas e bem humoradas, bem de acordo com o estilo “livre, leve e solto” desta autora pós-moderna e ousada, com o qual o Acre nos brindou neste início alvissareiro das letras acreanas no século vinte e um.
O livro é composto de cerca de dezessete textos. Os que descrevem as mulheres são de estilo superior e escritos com a sensibilidade e perspicácia que somente uma mulher teria ao escrever sobre outras mulheres. Os leitores podem comprovar isto na leitura instigante da narrativa “As meninas de Renoir” ou ainda em “A casa dos avós traquinas”, em que pude ler o melhor que já degustei das letras de autoria feminina no Acre em termos de conto. Leila Jalul sabe tratar das relações de gênero como ninguém, sejam entre pais e filhos, entre amantes, entre avós e netos, meros vizinhos ou daquelas amizades que transcendem os tempos. Ela entende da alma humana, principalmente da alma feminina como se fosse psicóloga, sabe das feridas do coração de toda mulher e do caos que cada uma de nós vai transformando em flores e perfumes a cada dia de nossa existência. No mais, é começar a ler, sem demora, mais uma despretensiosa e envolvente produção desta autora que nasceu para as letras e não nega a fama.


         
Profª Drª Margarete Edul Prado de Souza Lopes – Cadeira nº32 da Academia Acreana de Letras.





[*] Esta é a tradução que conheço desde minha infância.
[†] "Brincadeira na Fogueira", música de Antonio Barros.
[‡] Luiz Gonzaga e José Fernandes
[§]Jarinilda foi uma conhecida “fazedora de anjos” de Placilândia, assassinada em 1988.

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