sábado, 15 de setembro de 2018

CAMÕES, CANTO 9

Canto Nono                                                          
  
 
1 - 
Tiveram longamente na cidade, 
Sem vender-se, a fazenda os dois feitores 
Que os infiéis, por manha e falsidade, 
Fazem que não lha comprem mercadores; 
Que todo seu propósito e vontade 
Era deter ali os descobridores 
Da Índia tanto tempo, que viessem 
De Meca as naus, que as suas desfizessem. 
  

2 -
Lá no seio Eritreu, onde fundada 
Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu, 
Do nome da irmã sua assim chamada, 
Que depois em Suez se converteu, 
Não longe o porto jaz da nomeada 
Cidade Meca, que se engrandeceu 
Com a superstição falsa e profana 
Da religiosa água Maumetana. 
  

3 - 
Gidá se chama o porto, aonde o trato 
De todo o Roxo mar mais florescia, 
De que tinha proveito grande e grato 
O Soldão que esse Reino possuía. 
Daqui aos Malabares, por contrato 
Dos infiéis, formosa companhia 
De grandes naus, pelo Índico Oceano, 
Especiaria vem buscar cada ano. 
  

4 - 
Por estas naus os Mouros esperavam, 
Que, como fossem grandes e possantes, 
Aquelas, que o comércio lhe tomavam, 
Com flamas abrasassem crepitantes. 
Neste socorro tanto confiavam, 
Que já não querem mais dos navegantes, 
Senão que tanto tempo ali tardassem, 
Que da famosa Meca as naus chegassem. 
  

5 - 
Mas o Governador dos céus e gentes, 
Que, para quanto tem determinado, 
De longe os meios dá convenientes, 
Por onde vem a ef eito o fim fadado, 
Influiu piedosos acidentes 
De afeição em Monçaide, que guardado 
Estava para dar ao Gama aviso, 
E merecer por isso o Paraíso. 
  

6 -
Este, de quem se os Mouros não guardavam, 
Por ser Mouro como eles, antes era 
Participante em quanto maquinavam, 
A tenção lhe descobre torpe e fera. 
Muitas vezes as naus que longe estavam 
Visita, o com piedade considera 
O dano, sem razão, que se lhe ordena 
Pela maligna gente Sarracena. 
  


Informa o cauto Gama das armadas 
Que de Arábica Meca vêm cada ano, 
Que agora são dos seus tão desejadas, 
Para ser instrumento deste dano. 
Diz-lhe que vêm de gente carregadas, 
E dos trovões horrendos de Vulcano, 
E que pode ser delas oprimido, 
Segundo estava mal apercebido. 
  

8 -
O Gama, que também considerava 
O tempo, que para a partida o chama, 
E que despacho já não esperava 
Melhor do Rei, que os Maumetanos ama, 
Aos feitores, que em terra estão, mandava 
Que se tornem às naus; e por que a fama 
Desta súbita vinda os não impeça, 
Lhe manda que a fizessem escondida. 
  

9 - 
Porém não tardou muito que, voando, 
Um rumor não soasse com verdade: 
Que foram presos os feitores, quando 
Foram sentidos vir-se da cidade. 
Esta fama as orelhas penetrando 
Do sábio Capitão, com brevidade 
Faz represaria nuns, que às naus vieram 
A vender a pedraria que trouxeram. 
  

10 -
Eram estes antigos mercadores 
Ricos em Calecu, e conhecidos; 
Da falta deles, logo entre os melhores 
Sentido foi que estão no mar retidos. 
Mas já nas naus os bons trabalhadores 
Volvem o cabrestante, e repartidos 
Pelo trabalho, uns puxam pela amarra, 
Outros quebram com o peito duro a barra; 
  

11 - 
Outros pendem da verga, e já desatam 
A vela, que com grita se soltava, 
Quando com maior grita ao Rei relatam 
A pressa com que a armada se levava. 
As mulheres e filhos que se matam 
Daqueles que vão presos, onde estava 
O Samorim, se queixam que perdidos 
Uns têm os pais, as outras os maridos. 
  

12 -
Manda logo os feitores Lusitanos 
Com toda sua fazenda livremente 
Apesar dos inimigos Maumetanos, 
Por que lhe torne a sua presa gente. 
Desculpas manda o Rei de seus enganos; 
Recebe o Capitão de melhor mente 
Os presos que as desculpas, e tornando 
Alguns negros, se parte as velas dando. 
  

13 - 
Parte-se costa abaixo, porque entende 
Que em vão com o Rei gentio trabalhava 
Em querer dele paz, a qual pretende 
Por firmar o comércio que tratava. 
Mas como aquela terra, que se estende 
Pela Aurora, sabida já deixava, 
Com estas novas torna à pátria cara, 
Certos sinais levando do que achara. 
  

14 - 
Leva alguns Malabares, que tomou 
Por força, dos que o Samorim mandara 
Quando os presos feitores lhe tornou; 
Leva pimenta ardente, que comprara; 
A seca flor de Banda não ficou, 
A noz, e o negro cravo, que faz clara 
A nova ilha Maluco, com a canela, 
Com que Ceilão é rica, ilustre e bela. 
  

15 - 
Isto tudo lhe houvera a diligência 
De Monçaide fiel, que também leva, 
Que, inspirado de angélica influência, 
Quer no livro de Cristo que se escreva. 
Ó ditoso Africano, que a clemência 
Divina assim tirou de escura treva, 
E tão longe da pátria achou maneira 
Para subir à pátria verdadeira! 
  

16 
Apartadas assim da ardente costa 
As venturosas naus, levando a proa 
Para onde a Natureza tinha posta 
A meta Austrina da esperança boa, 
Levando alegres novas e resposta 
Da parte Oriental para Lisboa, 
Outra vez cometendo os duros medos 
Do mar incerto, tímidos e ledos; 
  

17 -
O prazer de chegar à pátria cara, 
A seus penates caros e parentes, 
Para contar a peregrina e rara 
Navegação, os vários céus e gentes; 
Vir a lograr o prêmio, que ganhara 
Por tão longos trabalhos e acidentes, 
Cada um tem por gosto tão perfeito, 
Que o coração para ele é vaso estreito. 
  

18 -
Porém a deusa Cípria, que ordenada 
Era para favor dos Lusitanos 
Do Padre eterno, e por bom gênio dada, 
Que sempre os guia já de longos anos; 
A glória por trabalhos alcançada, 
Satisfação de bem sofridos danos, 
Lhe andava já ordenando, e pretendia 
Dar-lhe nos mares tristes alegria. 
  

19 
Depois de ter um pouco revolvido 
Na mente o largo mar que navegaram, 
Os trabalhos, que pelo Deus nascido 
Nas Anfióneas Tebas se causaram; 
Já trazia de longe no sentido, 
Para prêmio de quanto mal passaram, 
Buscar-lhe algum deleite, algum descanso 
No Reino de cristal líquido e manso; 
  

20 
Algum repouso, enfim, com que pudesse 
Refocilar a lassa humanidade 
Dos navegantes seus, como interesse 
Do trabalho que encurta a breve idade. 
Parece-lhe razão que conta desse 
A seu filho, por cuja potestade 
Os Deuses faz descer ao vil terreno 
E os humanos subir ao céu sereno. 
  

21 -
Isto bem revolvido, determina 
De ter-lhe aparelhada, lá no meio 
Das águas, alguma ínsula divina, 
Ornada de esmaltado e verde arreio; 
Que muitas tem no reino, que confina 
Da mãe primeira com o terreno seio, 
Afora as que possui soberanas 
Para dentro das portas Herculanas. 
  

22 
Ali quer que as aquáticas donzelas 
Esperem os fortíssimos barões, 
Todas as que têm título de belas, 
Glória dos olhos, dor dos corações, 
Com danças e coreias, porque nelas 
Influirá secretas afeições, 
Para com mais vontade trabalharem 
De contentar, a quem se afeiçoaram. 
  

23 - 
Tal manha buscou já, para que aquele 
Que de Anquises pariu, bem recebido 
Fosse no campo que a bovina pele 
Tomou de espaço, por subtil partido. 
Seu filho vai buscar, porque só nele 
Tem todo seu poder, fero Cupido, 
Que assim como naquela empresa antiga 
Ajudou já, nestoutra a ajude e siga. 
  

24 - 
No carro ajunta as aves que na vida 
Vão da morte as exéquias celebrando, 
E aquelas em que já foi convertida 
Perístera, as boninas apanhando. 
Em derredor da Deusa já partida, 
No ar lascivos beijos se vão dando. 
Ela, por onde passa, o ar e o vento 
Sereno faz, com brando movimento. 
  

25 -
Já sobre os Idálios montes pende, 
Onde o filho frecheiro estava então 
Ajuntando outros muitos, que pretende 
Fazer uma famosa expedição 
Contra o mundo rebelde, por que emende 
Erros grandes, que há dias nele estão, 
Amando coisas que nos foram dadas, 
Não para ser amadas, mas usadas. 
  

26 - 
Via Acteon na caça tão austero, 
De cego na alegria bruta, insana, 
Que por seguir um feio animal fero, 
Foge da gente e bela forma humana; 
E por castigo quer, doce e severo, 
Mostrar-lhe a formosura de Diana; 
E guarde-se não seja ainda comido 
Desses cães que agora ama, e consumido. 
  

27 -
E vê do mundo todo os principais, 
Que nenhum no bem público imagina; 
Vê neles que não têm amor a mais 
Que a si somente, e a quem Filáucia ensina. 
Vê que esses que freqüentam os reais 
Paços, por verdadeira e sã doutrina 
Vendem adulação, que mal consente 
Mondar-se o novo trigo florescente. 
  

28 
Vê que aqueles que devem à pobreza 
Amor divino e ao povo caridade, 
Amam somente mandos e riqueza, 
Simulando justiça e integridade. 
Da feia tirania e de aspereza 
Fazem direito e vã severidade: 
Leis em favor do Rei se estabelecem, 
As em favor do povo só perecem. 
  

29 
Vê, enfim, que ninguém ama o que deve, 
Senão o que somente mal deseja; 
Não quer que tanto tempo se releve 
O castigo, que duro e justo seja. 
Seus ministros ajunta, por que leve 
Exércitos conformes à peleja, 
Que espera ter com a mal regida gente, 
Que lhe não for agora obediente. 
  

30 -
Muitos destes meninos voadores 
Estão em várias obras trabalhando: 
Uns amolando ferros passadores, 
Outros ásteas de setas delgaçando; 
Trabalhando, cantando estão de amores, 
Vários casos em verso modulando, 
Melodia sonora e concertada, 
Suave a letra, angélica a soada. 
  

31 
Nas frágoas imortais, onde forjavam 
Para as setas as pontas penetrantes, 
Por lenha corações ardendo estavam, 
Vivas entranhas ainda palpitantes. 
As águas onde os ferros temperavam, 
Lágrimas são de míseros amantes; 
A viva f lama, o nunca morto lume, 
Desejo é só que queima, e não consume. 
  

32 
Alguns exercitando a mão andavam 
Nos duros corações da plebe rude; 
Crebros suspiros pelo ir soavam 
Dos que feridos vão da seta aguda. 
Formosas Ninfas são as que curavam 
As chagas recebidas cuja ajuda 
Não somente dá vida aos mal feridos, 
Mas põe em vida os ainda não nascidos. 
 
33 
Formosas são algumas e outras feias, 
Segundo a qualidade for das chagas; 
Que o veneno espalhado pelas veias 
Curam-no às vezes ásperas triagas. 
Alguns ficam ligados em cadeias, 
Por palavras subtis de sábias magas: 
Isto acontece às vezes, quando as setas 
Acertam de levar ervas secretas. 
  

34 -
Destes tiros assim desordenados, 
Que estes moços mal destros vão tirando, 
Nascem amores mil desconcertados 
Entre o povo ferido miserando; 
E tamboril nos heróis de altos estados 
Exemplos mil se vêem de amor nefando, 
Qual o das moças Bíbli e Cinireia, 
Um mancebo de Assíria, um de Judeia. 
  

35 
E vós, ó poderosos, por pastoras 
Muitas vezes ferido o peito vedes; 
E por baixos e rudos, vós, senhoras, 
Também vos tomam nas Vulcâneas redes. 
Uns esperando andais noturnas horas, 
Outros subis telhados e paredes: 
Mas eu creio que deste amor indino 
É mais culpa a da mãe que a do menino. 
  

36 - 
Mas já no verde prado o carro leve 
Punham os brancos cisnes mansamente, 
E Dione, que as rosas entro a neve 
No rosto traz, descia diligente. 
O frecheiro, que contra o céu se atreve, 
A recebê-la vem, ledo e contente; 
Vêm todos os Cupidos servidores 
Beijar a mão à Deusa dos amores. 
  

37 - 
Ela, por que não gaste o tempo em vão, 
Nos braços tendo o filho, confiada 
Lhe diz: "Amado filho, em cuja mão 
Toda minha potência está fundada; 
Filho, em quem minhas forças sempre estão; 
Tu, que as armas Tifeias tens em nada, 
A socorrer-me a tua potestade 
Me triz especial necessidade. 
  

38 
"Bem vês as Lusitânicas fadigas, 
Que eu já de muito longe favoreço, 
Porque das Parcas sei, minhas amigas, 
Que me hão de venerar e ter em preço. 
E, porque tanto imitam as antigas 
Obras de meus Romanos, me ofereço 
A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso, 
A quanto se estender o poder nosso. 
  

39 
"E porque das insídias do odioso 
Baco foram na Índia molestados, 
E das injúrias sós do mar undoso 
Puderam mais ser mortos que cansados, 
No mesmo mar, que sempre temeroso 
Lhe foi, quero que sejam repousados, 
Tomando aquele prêmio e doce glória 
Do trabalho, que faz clara a memória. 
  

40 
"E para isso queria que, feridas 
As filhas de Nereu, no ponto fundo, 
De amor dos Lusitanos incendidas, 
Que vêm de descobrir o novo mundo, 
Todas numa ilha juntas e subidas, 
Ilha, que nas entranhas do profundo 
Oceano terei aparelhada, 
De dons de Flora e Zéfiro adornada; 
  

41 
"Ali, com mil refrescos e manjares, 
Com vinhos odoríferos e rosas, 
Em cristalinos paços singulares 
Formosos leitos, e elas mais formosas; 
Enfim, com mil deleites não vulgares, 
Os esperem as Ninfas amorosas, 
De amor feridas, para lhes entregarem 
Quanto delas os olhos cobiçarem. 
  

42 
"Quero que haja no reino Netunino, 
Onde eu nasci, progênie forte e bela, 
E tome exemplo o mundo vil, malino, 
Que contra tua potência se rebela, 
Por que entendam que muro adamantino, 
Nem triste hipocrisia val contra ela: 
Mal haverá na terra quem se guarde, 
Se teu fogo imortal nas águas arde." 
  

43 -
Assim Vênus propôs, e o filho inieo, 
Para lhe obedecer, já se apercebe: 
Manda trazer o arco ebúrneo rico, 
Onde as setas de ponta de ouro embebe. 
Com gesto ledo a Cípria, e impudico, 
Dentro no carro o filho seu recebe; 
A rédea larga às aves, cujo canto 
A Factôntea morte chorou tanto. 
  

44 - 
Mas diz Cupido, que era necessária 
Uma famosa e célebre terceira, 
Que, posto que mil vezes lhe é contrária, 
Outras muitas a tem por companheira: 
A Deusa Giganteia, temerária, 
Jactante, mentirosa, e verdadeira, 
Que com cem olhos vê, e por onde voa, 
O que vê, com mil bocas apregoa. 
  

45 
Vão-a buscar, e mandam adiante, 
Que celebrando vá com tuba clara 
Os louvores da gente navegante, 
Mais do que nunca os d'outrem celebrara. 
Já murmurando a Fama penetrante 
Pelas fundas cavernas se espalhara: 
Fala verdade, havida por verdade, 
Que junto a Deusa traz Credulidade. 
  

46 
O louvor grande, o rumor excelente 
No coração dos Deuses, que indignados 
Foram por Baco contra a ilustre gente, 
Mudando, os fez um pouco afeiçoados. 
O peito feminil, que levemente 
Muda quaisquer propósitos tomados, 
Já julga por mau zelo e por crueza 
Desejar mal a tanta fortaleza. 
  

47 - 
Despede nisto o fero moço as setas 
Uma após outra: geme o mar com os tiros; 
Direitas pelas ondas inquietas 
Algumas vão, e algumas fazem giros; 
Caem as Ninfas, lançam das secretas 
Entranhas ardentíssimos suspiros; 
Cai qualquer, sem ver o vulto que ama: 
Que tanto, como a vista, pode a fama. 
  

48 - 
Os cornos ajuntou da ebúrnea lua 
Com força o moço indômito excessiva, 
Que Tethys quer ferir mais que nenhuma, 
Porque mais que nenhuma lhe era esquiva. 
Já não fica na aljava seta alguma, 
Nem nos equóreos campos Ninfa viva; 
E se feridas ainda estão vivendo, 
Será para sentir que vão morrendo. 
  

49 
Dai lugar, altas e cerúleas ondas, 
Que, vedes, Vênus traz a medicina, 
Mostrando as brancas velas e redondas, 
Que vêm por cima da água Netunina. 
Para que tu recíproco respondas, 
Ardente Amor, à flama feminina, 
É, forçado que a pudicícia honesta 
Faça quanto lhe Vênus amoesta. 
  

50 - 
Já todo o belo coro se aparelha 
Das Nereidas, e junto caminhava 
Em coreias gentis, usança velha, 
Para a ilha, a que Vênus as guiava. 
Ali a formosa Deusa lhe aconselha 
O que ela fez mil vezes, quando amava. 
Elas, que vão do doce amor vencidas, 
Estão a seu conselho oferecidas. 
  

51 - 
Cortando vão as naus a larga via 
Do mar ingente para a pátria amada, 
Desejando prover-se de água fria, 
Para a grande viagem prolongada, 
Quando juntas, com súbita alegria, 
Houveram vista da ilha namorada, 
Rompendo pelo céu a mãe formosa 
De Menónio, suave e deleitosa. 
  

52 - 
De longe a Ilha viram fresca e bela, 
Que Vênus pelas ondas lha levava 
(Bem como o vento leva branca vela) 
Para onde a forte armada se enxergava; 
Que, por que não passassem, sem que nela 
Tomassem porto, como desejava, 
Para onde as naus navegam a movia 
A Acidália, que tudo enfim podia. 
  

53 - 
Mas firme a fez e imóvel, como viu 
Que era dos Nautas vista e demandada; 
Qual ficou Delos, tanto que pariu 
Latona Febo e a Deusa à caça usada. 
Para lá logo a proa o mar abriu, 
Onde a costa fazia uma enseada 
Curva e quieta, cuja branca areia, 
Pintou de ruivas conchas Citereia. 
  

54 -
Três formosos outeiros se mostravam 
Erguidos com soberba graciosa, 
Que de gramíneo esmalte se adornavam.. 
Na formosa ilha alegre e deleitosa; 
Claras fontes o límpidas manavam 
Do cume, que a verdura tem viçosa; 
Por entre pedras alvas se deriva 
A sonorosa Ninfa fugitiva. 
  

55 - 
Num vale ameno, que os outeiros fende, 
Vinham as claras águas ajuntar-se, 
Onde uma mesa fazem, que se estende 
Tão bela quanto pode imaginar-se; 
Arvoredo gentil sobre ela pende, 
Como que pronto está para afeitar-se, 
Vendo-se no cristal resplandecente, 
Que em si o está pintando propriamente. 
  

56 - 
Mil árvores estão ao céu subindo, 
Com pomos odoríferos e belos: 
A laranjeira tem no fruto lindo 
A cor que tinha Dafne nos cabelos; 
Encosta-se no chão, que está caindo, 
A cidreira com os pesos amarelos; 
Os formosos limões ali, cheirando, 
Estão virgíneas tetas imitando. 
  

57 - 
As árvores agrestes que os outeiros 
Têm com frondente coma enobrecidos, 
Alemos são de Alcides, e os loureiros 
Do louro Deus amados e queridos; 
Mirtos de Citereia, com os pinheiros 
De Cibele, por outro amor vencidos; 
Está apontando o agudo cipariso 
Para onde é posto o etéreo paraíso. 
  

58 -
Os dons que dá Pomona, ali Natura 
Produz diferentes nos sabores, 
Sem ter necessidade de cultura, 
Que sem ela se dão muito melhores: 
As cerejas purpúreas na pintura, 
As amoras, que o nome têm de amores, 
O pomo que da pátria Pérsia veio, 
Melhor tornado no terreno alheio. 
  

59 
Abre a romã, mostrando a rubicunda 
Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes; 
Entre os braços do ulmeiro está a jocunda 
Vide, com uns cachos roxos e outros verdes; 
E vós, se na vossa árvore fecunda, 
Peras piramidais, viver quiserdes, 
Entregai-vos ao dano, que, com os bicos, 
Em vós fazem os pássaros inicos. 
  

60 -
Pois a tapeçaria bela e fina, 
Com que se cobre o rústico terreno, 
Faz ser a de Aquemênia menos diria, 
Mas o sombrio vale mais ameno. 
Ali a cabeça a flor Cifísia inclina 
Sôbolo tanque lúcido e sereno; 
Floresce o filho e neto de Ciniras, 
Por quem tu, Deusa Páfia, inda suspiras. 
  

61 -  
Para julgar, difícil coisa fora, 
No céu vendo e na terra as mesmas cores, 
Se dava às flores cor a bela Aurora, 
Ou se lha dão a ela as belas flores. 
Pintando estava ali Zéfiro e Flora 
As violas da cor dos amadores; 
O lírio roxo, a fresca rosa bela, 
Qual reluz nas faces da donzela; 
  

62 -  
A cândida cecém, das matutinas 
Lágrimas rociada, e a manjarona. 
Vêem-se as letras nas flores Hiacintinas, 
Tão queridas do filho de Latona. 
Bem se enxerga nos pomos e boninas 
Que competia Cloris com Pomona. 
Pois se as aves no ar cantando voam, 
Alegres animais o chão povoam. 
  

63 - 
Ao longo da água o níveo cisne canta, 
Responde-lhe do ramo filomela; 
Da sombra de seus cornos não se espanta 
Acteon, n'água cristalina e bela; 
Aqui a fugace lebre se levanta 
Da espessa mata, ou tímida gazela; 
Ali no bico traz ao caro ninho 
O mantimento o leve passarinho. 
  

64 - 
Nesta frescura tal desembarcavam 
Já das naus os segundos Argonautas, 
Onde pela floresta se deixavam 
Andar as belas Deusas, como incautas. 
Algumas doces cítaras tocavam, 
Algumas harpas e sonoras flautas, 
Outras com os arcos de ouro se fingiam 
Seguir os animais, que não seguiam. 
  

65 -
Assim lhe aconselhara a mestra experta; 
Que andassem pelos campos espalhadas; 
Que, vista dos barões a presa incerta, 
Se fizessem primeiro desejadas. 
Algumas, que na forma descoberta 
Do belo corpo estavam confiadas, 
Posta a artificiosa formosura, 
Nuas lavar-se deixam na água pura, 
66 - 
Mas os fortes mancebos, que na praia 
Punham os pés, de terra cobiçosos, 
Que não há nenhum deles que não saia 
De acharem caça agreste desejosos, 
Não cuidam que, sem laço ou redes, caia 
Caça naqueles montes deleitosos, 
Tão suave, doméstica e benigna, 
Qual ferida lha tinha já Ericina. 
  

67 -  
Alguns, que em espingardas e nas bestas, 
Para ferir os cervos se fiavam, 
Pelos sombrios matos e florestas 
Determinadamente se lançavam: 
Outros, nas sombras, que de as altas sestas 
Defendem a verdura, passeavam 
Ao longo da água que, suave e queda, 
Por alvas pedras corre à praia leda. 
  

68 - 
Começam de enxergar subitamente 
Por entre verdes ramos várias cores, 
Cores de quem a vista julga e sente 
Que não eram das rosas ou das flores, 
Mas da lã fina e seda diferente, 
Que mais incita a força dos amores, 
De que se vestem as humanas rosas, 
Fazendo-se por arte mais formosas. 
  

69 - 
Dá Veloso espantado um grande grito: 
"Senhores, caça estranha, disse, é esta! 
Se ainda dura o Gentio antigo rito, 
A Deusas é sagrada esta floresta. 
Mais descobrimos do que humano espírito 
Desejou nunca; e bem se manifesta 
Que são grandes as coisas e excelentes, 
Que o mundo encobre aos homens imprudentes. 
  

70 -
"Sigamos estas Deusas, e vejamos 
Se fantásticas são, se verdadeiras." 
Isto dito, velozes mais que gamos, 
Se lançam a correr pelas ribeiras. 
Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos, 
Mas, mais industriosas que ligeiras, 
Pouco e pouco sorrindo e gritos dando, 
Se deixam ir dos galgos alcançando. 
  

71 -
De uma os cabelos de ouro o vento leva 
Correndo, e de outra as fraldas delicadas; 
Acende-se o desejo, que se ceva 
Nas alvas carnes súbito mostradas; 
Uma de indústria cai, e já releva, 
Com mostras mais macias que indignadas, 
Que sobre ela, empecendo, também caia 
Quem a seguiu pela arenosa praia. 
  

72 -
Outros, por outra parte, vão topar 
Com as Deusas despidas, que se lavam: 
Elas começam súbito a gritar, 
Como que assalto tal não esperavam. 
Umas, fingindo menos estimar 
A vergonha que a força, se lançavam 
Nuas por entre o mato, aos olhos dando 
O que às mãos cobiçosas vão negando. 
  

73 -  
Outra, como acudindo mais depressa 
A vergonha da Deusa caçadora, 
Esconde o corpo n'água; outra se apressa 
Por tomar os vestidos, que tem fora. 
Tal dos mancebos há, que se arremessa, 
Vestido assim e calçado (que, coa mora 
De se despir, há medo que ainda tarde) 
A matar na água o fogo que nele arde. 
  

74 -  
Qual cão de caçador, sagaz e ardido, 
Usado a tomar na água a ave ferida, 
Vendo no rosto o férreo cano erguido 
Para a garcenha ou pata conhecida, 
Antes que soe o estouro, mal sofrido 
Salta n'água, e da presa não duvida, 
Nadando vai e latindo: assim o mancebo 
Remete à que não era irmã de Febo. 
  

75 - 
Leonardo, soldado bem disposto, 
Manhoso, cavaleiro e namorado, 
A quem amor não dera um só desgosto, 
Mas sempre fora dele maltratado, 
E tinha já por firme pressuposto 
Ser com amores mal afortunado, 
Porém não que perdesse a esperança 
De ainda poder seu fado ter mudança, 
  

76 - 
Quis aqui sua ventura, que corria 
Após Efire, exemplo de beleza, 
Que mais caro que as outras dar queria 
O que deu para dar-se a natureza. 
Já cansado correndo lhe dizia: 
"Ó formosura indigna de aspereza, 
Pois desta vida te concedo a palma, 
Espera um corpo de quem levas a alma. 
  

77 - 
"Todas de correr cansam, Ninfa pura, 
Rendendo-se à vontade do inimigo, 
Tu só de mi só foges na espessura? 
Quem te disse que eu era o que te sigo? 
Se to tem dito já aquela ventura, 
Que em toda a parte sempre anda comigo, 
Ó não na creias, porque eu, quando a cria, 
Mil vezes cada hora me mentia. 
  

78 -  
"Não canses, que me cansas: e se queres 
Fugir-me, por que não possa tocar-te, 
Minha ventura é tal que, ainda que esperes, 
Ela fará que não possa alcançar-te. 
Espora; quero ver, se tu quiseres, 
Que subtil modo busca de escapar-te, 
E notarás, no fim deste sucesso, 
Tra la spica e la man, qual muro è messo. 
  

79 - 
"Ó não me fujas!  Assim nunca o breve 
Tempo fuja de tua formosura! 
Que, só com refrear o passo leve, 
Vencerás da fortuna a força dura. 
Que Imperador, que exército se atreve 
A quebrantar a fúria da ventura, 
Que, em quanto desejei, me vai seguindo, 
O que tu só farás não me fugindo! 
  

80 -  
"Pões-te da parte da desdita minha? 
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. 
Levas-me um coração, que livre tinha? 
Solta-me, e correrás mais levemente. 
Não te carrega essa alma tão mesquinha, 
Que nesses fios de ouro reluzente 
Atada levas?  Ou, depois de presa, 
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa? 
  

81 -  
"Nesta esperança só te vou seguindo: 
Que, ou tu não sofrerás o peso dela, 
Ou na virtude de teu gesto lindo 
Lhe mudarás a triste e dura estrela: 
E se se lhe mudar, não vás fugindo, 
Que Amor te ferirá, gentil donzela, 
E tu me esperarás, se Amor te fere: 
E se me esperas, não há mais que espere." 
  

82 - 
Já não fugia a bela Ninfa, tanto 
Por se dar cara ao triste que a seguia, 
Como por ir ouvindo o doce canto, 
As namoradas mágoas que dizia. 
Volvendo o rosto já sereno e santo, 
Toda banhada em riso e alegria, 
Cair se deixa aos pés do vencedor, 
Que todo se desfaz em puro amor. 
  

83 -
Ó que famintos beijos na floresta, 
E que mimoso choro que soava! 
Que afagos tão suaves, que ira honesta, 
Que em risinhos alegres se tornava! 
O que mais passam na manhã, e na sesta, 
Que Vênus com prazeres inflamava, 
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, 
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo. 
  
  

84 - 
Desta arte enfim conformes já as formosas 
Ninfas com os seus amados navegantes, 
Os ornam de capelas deleitosas 
De louro, e de ouro, e flores abundantes. 
As mãos alvas lhes davam como esposas; 
Com palavras formais e estipulantes 
Se prometem eterna companhia 
Em vida e morte, de honra e alegria. 
  

85 -  
Uma delas maior, a quem se humilha 
Todo o coro das Ninfas, e obedece, 
Que dizem ser de Celo e Vesta filha, 
O que no gesto belo se parece, 
Enchendo a terra e o mar de maravilha, 
O Capitão ilustre, que o merece, 
Recebe ali com pompa honesta e régia, 
Mostrando-se senhora grande e egrégia. 
  

86 - 
Que, depois de lhe ter dito quem era, 
Com um alto exórdio, de alta graça ornado, 
Dando-lhe a entender que ali viera 
Por alta influição do imóvel fado, 
Para lhe descobrir da unida esfera 
Da terra imensa, e mar não navegado, 
Os segredos, por alta profecia, 
O que esta sua nação só merecia, 
  

87 -  
Tomando-o pela mão, o leva e guia 
Para o cume dum monte alto e divino, 
No qual uma rica fábrica se erguia 
De cristal toda, e de ouro puro e fino. 
A maior parte aqui passam do dia 
Em doces jogos e em prazer contino: 
Ela nos paços logra seus amores, 
As outras pelas sombras entre as flores. 
  

88 -  
Assim a formosa e a forte companhia 
O dia quase todo estão passando, 
Numa alma, doce, incógnita alegria, 
Os trabalhos tão longos compensando. 
Porque dos feitos grandes, da ousadia 
Forte e famosa, o mundo está guardando 
O prêmio lá no fim, bem merecido, 
Com fama grande e nome alto e subido. 
  

89 - 
Que as Ninfas do Oceano tão formosas, 
Tethys, e a ilha angélica pintada, 
Outra coisa não é que as deleitosas 
Honras que a vida fazem sublimada. 
Aquelas proeminências gloriosas, 
Os triunfos, a fronte coroada 
De palma e louro, a glória e maravilha: 
Estes são os deleites desta ilha. 
  

90 - 
Que as imortalidades que fingia 
A antigüidade, que os ilustres ama, 
Lá no estelante Olimpo, a quem subia 
Sobre as asas ínclitas da Fama, 
Por obras valorosas que fazia, 
Pelo trabalho imenso que se chama 
Caminho da virtude alto e fragoso, 
Mas no fim doce, alegre e deleitoso: 
  

91 - 
Não eram senão prêmios que reparte 
Por feitos imortais e soberanos 
O mundo com os varões, que esforço e arte 
Divinos os fizeram, sendo humanos. 
Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte, 
Eneias e Quirino, e os dois Tebanos, 
Ceres, Palas e Juno, com Diana, 
Todos foram de fraca carne humana. 
  

92 -
Mas a Fama, trombeta de obras tais, 
Lhe deu no mundo nomes tão estranhos 
De Deuses, Semideuses imortais, 
Indígetes, Heróicos e de Magnos. 
Por isso, ó vós que as famas estimais, 
Se quiserdes no mundo ser tamanhos, 
Despertai já do sono do ócio ignavo, 
Que o ânimo de livre faz escravo. 
  

93 -  
E ponde na cobiça um freio duro, 
E na ambição também, que indignamente 
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro 
Vício da tirania infame e urgente; 
Porque essas honras vãs, esse ouro puro 
Verdadeiro valor não dão à gente: 
Melhor é, merecê-los sem os ter, 
Que possuí-los sem os merecer. 
  

94 -  
Ou dai na paz as leis iguais, constantes, 
Que aos grandes não dêem o dos pequenos; 
Ou vos vesti nas armas rutilantes, 
Contra a lei dos inimigos Sarracenos: 
Fareis os Reinos grandes e possantes, 
E todos tereis mais, o nenhum menos; 
Possuireis riquezas merecidas, 
Com as honras, que ilustram tanto as vidas. 
  

95 -  
E fareis claro o Rei, que tanto amais, 
Agora com os conselhos bem cuidados, 
Agora com as espadas, que imortais 
Vos farão, como os vossos já passados; 
Impossibilidades não façais, 
Que quem quis sempre pôde; e numerados 
Sereis entre os Heróis esclarecidos, 
E nesta Ilha de Vênus recebidos. 
  
  

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